Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Dólar fecha em R$ 3,69 e atinge o maior valor desde dezembro de 2002

Combinação entre notícias negativas nos cenários interno e externo levou o dólar a iniciar setembro com alta de 1,60%; Bolsa fechou em baixa de 2,46%, no terceiro pregão seguido de queda

Fabrício de Castro, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 10h58

Atualizado às 22h47

A piora do ambiente econômico no Brasil e a crescente tensão com a China levaram o dólar a encostar em R$ 3,70. No terceiro dia seguido de alta, o dólar subiu 1,60% e fechou em R$ 3,691, a maior cotação desde 13 de dezembro de 2002. A Bolsa de São Paulo também registrou o terceiro pregão seguido de perdas, ao cair 2,46%, para 45.477 pontos.

O nervosismo do mercado foi acentuado nesta terça-feira pelo anúncio do déficit do governo de R$ 30,5 bilhões para 2016. Para os investidores, a dificuldade do governo de evitar o crescimento da dívida pública deixa mais perto o risco de o Brasil ser rebaixado e perder o grau de investimento, a nota de bom pagador.

A Fitch, uma das três principais agências de classificação de risco, reagiu à decisão com a divulgação de um alerta. “Essas revisões para baixo colocam a tendência do superávit primário (economia para pagamento de juros) bem abaixo do cenário base da Fitch usado em abril e refletem os crescentes riscos para a trajetória das finanças públicas e da dívida.”

O banco Morgan Stanley projetou a perda do grau de investimento nos próximos 12 meses, além de ter elevado a previsão de recuo da economia em 2015 de -1,7% para -2,4%. O JP Morgan, por sua vez, previu uma queda de 2,8% no PIB este ano e rebaixamento até o fim de 2016.

“O mercado está convencido de que não há como as agências serem parcimoniosas com o Brasil”, disse Ricardo Gomes da Silva, superintendente da Correparti Corretora. “O País se declara incompetente para gerar receita para as despesas que tem e anuncia que terá de ‘correr atrás’ de R$ 30,5 bilhões para equilibrar as contas. Sabe o que é isso? Fratura exposta.”

Para Luís Eduardo Assis, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, a decisão de anunciar o déficit é uma “operação de alto risco”, que acelera a perda do grau de investimento. “O dólar subiu, o risco País (taxa de juros cobrada do Brasil) continua subindo e já é maior do que o risco de países que não têm grau de investimento.”

Turbulência global. O clima de nervosismo foi acentuado pela turbulência provocada pelos dados fracos da indústria e dos serviços na China. O índice de Gerente de Compras (PMI), que mede a atividade industrial chinesa, registrou a queda mais forte em três anos.

Um movimento generalizado de aversão ao risco levou os investidores para a segurança dos títulos do Tesouro americano e do ouro. Nos Estados Unidos, o índice Dow Jones caiu 2,84%, enquanto o S&P 500 perdeu 2,96% e o índice de tecnologia Nasdaq recuou 2,94%.

O índice FTSEurofirst 300, de Londres, fechou com queda de 2,77%, com as ações de empresas de commodities perdendo 5,6%. Na Alemanha, o índice DAX caiu 2,4%, mesmo número da Bolsa de Paris.

O Fundo Monetário Internacional diz que o crescimento global deve perder força e a Ásia está sujeita a desacelerar ainda mais, por causa da volatilidade nas bolsas. Segundo a diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, o ritmo de expansão é ameaçado pela “recuperação mais fraca do que se esperava nas economias avançadas e nova desaceleração nas economias emergentes, particularmente na América Latina. / COLABOROU 

Levy. O ministro Joaquim Levy contribuiu para o nervosismo do mercado nesta terça-feira ao comentar a situação da economia. Em audiência na Câmara dos Deputados, disse que, depois que a “maré mudou”, colocar a “casa” em ordem está cada vez mais difícil e é necessário fazer “a ficha cair” para “o dólar não disparar”. Quando falava, por volta de 16 horas, o dólar atingiu a cotação máxima do dia, de R$ 3,700, alta de 1,84%. “É evidente que a casa não está em ordem e é preciso de crescimento e confiança para não ver o dólar disparar”, afirmou.

Com um discurso de recolocar o Brasil na rota do crescimento, chamou a atenção para o ambiente desfavorável. Citando o empresário Abilio Diniz, lembrou que a atual crise não é a pior que o País já viveu. Para ele, o fim de um ciclo favorável, com alta no preço das commodities, lembra os anos 80. “Ousaria dizer que estamos numa situação parecida com a do começo dos anos 80, quando vínhamos de um período de expansão e industrialização.”

Com uma diferença: o Brasil tem mais de US$ 300 bilhões em reservas e nos anos 80. / RACHEL RACHEL GAMARSKI , LORENNA RODRIGUES, VICTOR MARTINS, FRANCINE DE LORENZO, COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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