Amanda Perobelli/Reuters - 28/10/2021
Amanda Perobelli/Reuters - 28/10/2021

Bolsa cai 2,23% e tem maior sequência de quedas desde 2016; dólar sobe a R$ 4,99 

Pesou contra a Bolsa o resultado trimestral do Santander Brasil, considerado decepcionante, o mal-estar externo em torno da atividade econômica chinesa - em meio aos novos lockdowns, e a maior inflação global

Antonio Perez, Luís Eduardo Leal e Mateus Fagundes, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2022 | 13h08

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, encerrou no negativo pela sétima sessão consecutiva, igualando a sequência de quedas vista pela última vez em maio de 2016, de acordo com AE Dados. Contribuíram para este recuo o resultado trimestral do Santander Brasil, considerado decepcionante, e o mal-estar externo em torno da atividade econômica chinesa - em meio aos novos lockdowns, além da maior inflação global.

O índice de referência da B3 encerrou o dia em queda de 2,23%, a 108.212,86 pontos. Na semana, o índice acumula queda de 2,58% e, no mês de abril, de  9,82%. No acumulado do ano, o ganho se limita a 3,23%.

O dólar emendou na sessão desta terça-feira (26) o terceiro pregão consecutivo de alta. A moeda encerrou o dia negociada a R$ 4,9905, aumento de 2,36%. Durante a sessão, o dólar ameaçou encostar no patamar de R$ 5,00, registrando máxima a R$ 4,9997 (+2,55%) no fim da manhã. Uma vez mais, o real sofreu com a aversão global ao risco, que levou investidores a abandonar divisas emergentes e bolsas para buscar proteção na moeda americana e nos Treasuries (os títulos do Tesouro americano).

O real mais uma vez liderou as perdas entre divisas emergentes, fruto em boa parte, segundo operadores, de movimentos de realização de lucros, dado que a moeda brasileira foi a que mais se apreciou neste ano. Estaria ainda em curso desmontagem de posições vendidas no mercado de dólar futuro, além de operações especulativas e saída de investidores estrangeiros.

O pano de fundo para o tombo da Bolsa e do dólar são as preocupações em torno de uma eventual desaceleração da economia global, em meio à expectativa de alta mais rápida e intensa de juros nos Estados Unidos e preocupações com os impactos de novos lockdowns na China. O Federal Reserve anuncia a nova taxa de juros americana na próxima quarta-feira, 4, e a expectativa é de uma alta de 0,50 ponto porcentual. 

Há também temores de um agravamento das tensões geopolíticas, após a Rússia subir o tom em relação à Ucrânia, falando em ameaça de conflito nuclear, o anúncio de corte de fornecimento de gás russo à Polônia e a iniciativa conjunta de Finlândia e Suécia para entrar na Otan. Operadores também citaram a piora do ambiente institucional doméstico, com os atritos entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) como um dos indutores da busca por proteção.

BC tenta conter a alta do dólar

A escalada da taxa de câmbio fez o Banco Central intervir novamente. Depois de vender US$ 571 milhões à vista na sexta-feira e de se ausentar ontem, o BC realizou um leilão extraordinário de 10 mil contratos de swap cambial (US$ 500 milhões) no início da tarde, o que ajudou a amenizar a alta do dólar..

Para o gestor da Frontier Capital, Jorge Dib, o principal indutor da queda dos mercados nos últimos dias é o ajuste da política monetária americana, com perspectivas de altas sucessivas da taxa básica (Fed Funds), sobretudo após fala do presidente do BC americano, Jerome Powell, na semana passada. As preocupações com a desaceleração da economia chinesa e os desdobramentos da escalada no conflito na Ucrânia teriam papel secundário nesse processo.

"O Powell disse que vai fazer um aumento mais rápido dos juros para o nível neutro, chegando possivelmente ao nível restritivo. O mercado já está precificando altas seguidas de 0,50 ponto porcentual e taxa acima de 3%", diz Dib. "O mercado parece ter acordado só agora para o lockdown na China e o avanço da Rússia na Ucrânia, mas essas são questões acessórias nesse processo de reprecificação.”

Para o diretor da Correparti Corretora, Ricardo Gomes da Silva, o aumento das incertezas aqui e lá fora deve levar o mercado a ficar arisco e, por tabela, demandar mais proteção. Com isso, o Banco Central deve atuar novamente por meio de swaps cambiais (a venda de dólar futuro) para tentar conter a taxa de câmbio e evitar novas pressões inflacionárias.

"O BC tenta conter a especulação e dar liquidez. Mas atua também na intenção de segurar o nosso processo inflacionário. Tivemos um choque de commodities com a guerra. Se vier agora uma alta do dólar, será muito nocivo para a inflação", diz Gomes da Silva, que vê até possibilidade de o dólar superar R$ 5,00, mas descarta a volta da taxa de câmbio a níveis do fim do ano passado no curto prazo.

Nesta terça, o Relatório de Mercado Focus mostrou deterioração adicional nas expectativas para o IPCA bem como um nível de Selic maior do que há um mês. 

Queda das ações

Na mínima do dia, o Ibovespa caiu abaixo dos 108 mil pontos, menor nível desde 15 de março (107.780,86).  A queda foi influenciada pela divulgação dos resultados do Santander, com o mercado especialmente atento à inadimplência e ao crédito no primeiro trimestre, o que puxou as ações dos demais bancos para baixo. As quedas variaram de 2,25% para as ações do Banco do Brasil a 4,55%, para as units do Santander. O setor bancário é o maior segmento do índice Ibovespa. 

"A carteira de crédito (do Santander) encolheu 3% no trimestre, e teve um aumento modesto de 5% no comparativo anual, provavelmente o ritmo mais lento de qualquer grande banco no Brasil", afirmam os analistas Pedro Leduc, Mateus Raffaelli e William Barrajard em relatório do Itaú BBA. 

Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para Locaweb (-8,32%), à frente de Totvs (-6,50%) e de Banco Inter (-6,37%). No lado oposto, PetroRio (+2,47%), 3R Petroleum (+2,24%), CPFL (+1,84%) e Iguatemi (+1,81%).

As ações ordinárias da Vale encerraram em baixa de 1,37% e Petrobras também fechou no negativo (-0,15%).

O mês de abril tem se mostrado um ponto de inflexão para o Ibovespa, que está perto de registrar a maior perda mensal desde março de 2020, quando o índice cedeu 29,90%. 

Reversão no fluxo estrangeiro

O fluxo estrangeiro, em recuperação que se estendeu de novembro de 2021 a março de 2022, tem se mostrado agora reticente, com saída de recursos no mês, em cenário de maior incerteza quanto à inflação global. No ano, os estrangeiros ainda têm saldo líquido de R$ 64,359 bilhões na B3 até o dia 22, mas os saques no mês de abril totalizam R$ 969 milhões.

"Houve uma inversão de fluxo para o Brasil no primeiro trimestre, também motivada pela guerra na Ucrânia, que afastou a Rússia (como opção entre emergentes), além de uma diminuição de apetite por China, com os problemas por lá. As commodities e o aumento de juros, que se acelerou no último trimestre do ano passado, e certa tranquilidade política favoreceram o Brasil no começo do ano como um ponto de alocação importante", diz Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.