Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Dólar tem maior queda mensal desde 2003 e BC decide atuar

Moeda caiu 11% em junho e encerrou mês cotada a R$ 3,21, no menor patamar desde julho de 2015; Bolsa avançou com melhora no cenário externo e acumulou ganhos de 6,3% no mês

Silvana Rocha, Lucas Hirata, Altamiro Silva Júnior, Paula Dias, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2016 | 12h09

No último pregão do primeiro semestre do ano, o dólar caiu pela terceira sessão seguida ante o real, aos R$ 3,2105 (-0,83%) no mercado à vista, e encerrou o dia no menor nível desde 21 de julho de 2015, a R$ 3,1680. No período de três dias, a perda foi de 5,35%. Como resultado, houve baixa acumulada de 11,09% em junho, a maior queda mensal desde abril de 2003, quando cedeu 13,15%. No mercado de ações, o Ibovespa fechou em alta de 1,03%, a 51.526,92 pontos, acumulando valorização de 6,30% em junho e de 18,87% em 2016.

As seguidas quedas do dólar levaram o Banco Central a anunciar uma intervenção no mercado cambial. Após o fechamento do mercado, a autoridade monetária marcou para esta sexta-feira, 1º, um leilão de até 10 mil contratos de swaps cambiais reversos.

As operações de swap cambial reverso equivalem à compra de dólares. Elas servem como meio para o desmonte do estoque de outras operações feitas anteriormente pelo BC, os swaps tradicionais. O BC tem, atualmente, um estoque de US$ 62,135 bilhões em contratos tradicionais de swap cambial.

A oferta do BC de apenas US$ 500 milhões não deverá trazer grandes impactos na cotação do dólar, segundo analistas, mas servirá para indicar vigilância sobre o mercado cambial. O BC não oferta swap cambial reverso desde 18 de maio, um dia após o dólar ter fechado a R$ 3,4895 no mercado à vista. 

O mercado ainda tenta identificar qual é o piso da cotação do dólar na gestão do novo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Durante a presidência de Alexandre Tombini, o patamar de R$ 3,50 era visto como um “gatilho” para o anúncio de leilões de swap cambial reverso.

Para o operador José Carlos Amado, na Spinelli Corretora, o volume do leilão de hoje é pequeno, em linha com a “parcimônia” já indicada por Goldfajn. “Não acho que o mercado vai sair tomando dólar só porque teve anúncio de swap cambial reverso. Pode ser que, por ter caído muito, tenha uma alta, mas nada com muita sustentação”, afirmou Na avaliação dele, um dos termômetros da abertura será o exterior, uma vez que na próxima segunda-feira será feriado nos Estados Unidos, o que pode gerar alguma volatilidade hoje.

O gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, acredita que o BC tem sinalizado que o “piso” do dólar será fornecido pelo próprio mercado e, por isso, a entidade deve se manter afastada das mesas de operação. 

Exportadores. A valorização do dólar já começou a preocupar exportadores. Em Nova York, o secretário de Comércio Exterior do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Daniel Godinho, garantiu que o governo não tem recebido queixas sobre o atual patamar do dólar. Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, ele destacou que a taxa média deste ano é de R$ 3,71 até agora. No ano passado, ficou em R$ 3,34.

“Não é em função de uma oscilação cambial num momento específico que as empresas abandonarão a atividade exportadora”, disse Godinho. Segundo ele, o ministério tem sido constantemente procurado por empresas brasileiras interessadas em exportar. “Acreditamos que mais e mais empresas se engajarão na atividade exportadora. É isso que temos ouvido no ministério e estamos sendo demandados para trabalhar”, disse.

Godinho ressaltou que oscilações no câmbio são normais ao longo do período, mas o exportador programa seus negócios olhando para o câmbio médio.

Bolsa. A Bovespa avançou, também pelo terceiro pregão consecutivo, novamente influenciada pelo mercado internacional. O volume de negócios totalizou R$ 7,9 bilhões, acima dos R$ 6,4 bilhões da média diária de junho. 

Em um dia de escassez de notícias de grande relevância, a alta das bolsas de valores no Brasil e no exterior foi determinada principalmente por declarações do presidente do Banco da Inglaterra (BoE), Mark Carney. O executivo disse que a equipe do banco central acredita ser necessário cortar juros ao longo dos próximos meses. Carney indicou que medidas podem ser tomadas já na reunião de terça-feira do Comitê de Política Financeira, responsável pela regulação bancária.

"Os mercados passaram a considerar um corte de juros a partir das declarações do BoE, e isso levou as bolsas a acelerar ganhos na Europa e Estados Unidos. Esse foi fundamentalmente o motivo da alta nos mercados de ações", disse Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da corretora Renascença.

Apesar da melhora do humor no mercado externo, os preços do petróleo seguiram em queda, em meio a preocupações com a oferta da commodity. Com isso, as ações da Petrobrás operaram em queda durante todo o dia, o que limitou bastante a alta do Ibovespa. Ao final do pregão, Petrobrás ON (ações com direito a voto) teve queda de 0,52%, enquanto Petrobrás PN (preferência no recebimento de dividendos) recuou 0,84%. No acumulado de junho, os papéis tiveram alta de 13,06% e 17,16%, respectivamente. 

Na ponta contrária, a alta de 1,5% do minério de ferro no mercado chinês apoiou as altas das ações da Vale, que avançaram 3,56% (ON) e 1,24% (PNA) no dia. No mês, os papéis da mineradora contabilizaram valorização de 14,42% e 15,93%. As ações do setor bancário também foram destaque de alta no pregão desta quinta-feira, ainda no movimento de recuperação pós-Brexit. Nesse grupo, destaque para BM&FBovespa (+4,65%) e Banco do Brasil ON (+4,18%). 

Mais conteúdo sobre:
Banco Central Nova York Londres

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.