Dólar deve chegar a R$ 1,75 neste ano, diz Barros

Para José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, tendência de valorização do real não é casual

Luciana Xavier, da Agência Estado,

12 de agosto de 2009 | 14h56

Para o sócio-diretor da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, a fase de queda livre das economias passou, mas ele observou que a recuperação será lenta mesmo para países que sofreram menos com a crise. O Brasil, ressaltou, está um degrau abaixo do grupo de emergentes que foi menos afetado pela recessão mundial, do qual faz parte China, Índia e outros emergentes asiáticos. "São países conjunturalmente mais bem resolvidos, que estão crescendo e crescerão mais no ano que vem", disse, em entrevista, por telefone, ao AE Broadcast Ao Vivo. Barros foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda no governo de Fernando Henrique Cardoso.

 

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O Brasil, explicou Barros, sofreu menos que outros países, mas não deve conseguir crescer este ano. Ele estima PIB com variação zero em 2009 e crescimento de 3,5% a 4% em 2010. Já os países desenvolvidos, disse Barros, devem demorar mais tempo para se recuperar e, especificamente no caso do Japão, as perspectivas são mais desalentadoras. "O Japão é uma economia sem futuro, que não tem fonte de crescimento".

 

Barros disse que embora tenha perspectiva de crescer no ano que vem, o País passará a ser menos competitivo do que foi no passado, por não ter aproveitado para promover mudanças fiscais e de infraestrutura importantes antes e também durante a crise. Ele citou o aumento dos gastos correntes do governo como um entrave para o crescimento sustentado do Brasil no futuro. E lembrou ainda que nos últimos anos o custo de energia contratada no Brasil aumentou, a carga tributária subiu, o custo de transporte ficou mais elevado e houve pouco avanço na estrutura dos portos brasileiros.

 

Câmbio

A valorização do real seguirá forte e deve ser um desafio adicional especialmente para exportações de produtos industriais, disse José Roberto Mendonça de Barros. "O dólar deve romper rapidamente R$ 1,75, isso este ano ainda", afirmou.. Segundo ele, a redução da volatilidade global deve levar o dólar a cair mais especialmente ante moedas de alguns países emergentes, como é o caso do Brasil. "A tendência de valorização do real não é casual", frisou.

 

J.R. Barros disse que não descartaria o dólar se aproximar dos níveis pré-crise ao longo de 2010. "Claro que o mundo não está isento de algum susto e, nesse caso, o dólar poderia voltar logo para R$ 1,90 a R$ 2,00", ponderou. "E se a recuperação dos Estados Unidos for mais rápida, a atratividade do dólar fica maior", acrescentou o sócio-diretor da MB.

 

Ele salientou que, de uma forma indireta, o Brasil depende da melhora da economia norte-americana no processo de retomada e para atingir um crescimento mais forte da economia. "As exportações de commodities estão muito bem, por causa da China, mas as exportações industriais vão muito mal. Nós exportamos produtos industriais para emergentes em sua maioria bastante ligados ao Estados Unidos, como o México. Então, uma recuperação mais vigorosa dos EUA, um pouco de forma direta, mas muito mais de forma indireta, por meio de terceiros mercados, auxiliaria muito a exportação brasileira e portanto a nossa retomada."

 

O economista afirmou ainda que não vê como tendência o fluxo cambial brasileiro ficar positivo graças ao saldo financeiro, mas com o segmento comercial mostrando resultado negativo, como ocorreu em julho. "Isso não deve ser tendência. Ao longo do tempo, o fluxo comercial de câmbio e de mercadoria convergem. Uma coisa é verdade, a conta financeira vai continuar muitas vezes mais importante do que a conta comercial. É natural que o fluxo financeiro num país aberto seja bem mais importante que o fluxo comercial".

 

O fluxo cambial fechou o mês passado com ingresso líquido de US$ 1,270 bilhão, liderado pelo segmento financeiro, que ficou superavitário em US$ 4,103 bilhões - terceiro resultado positivo consecutivo. A conta comercial, no entanto, registrou saída líquida de US$ 2,833 bilhões, o segundo mês em que a conta comercial teve déficit.

 

Euforia

O sócio-diretor da MB Associados disse que a euforia no mercado de ações brasileiro não é exagerada. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse recentemente que as condições favoráveis da economia brasileira não deviam servir de base para "euforia e exagero na precificação" dos ativos.

 

Segundo Barros, o melhor desempenho da Bovespa, que este ano já valorizou perto de 50%, reflete a evolução no cenário internacional e também a percepção de que no ano que vem o crescimento do Brasil será positivo, algo em torno de 3,5% a 4%, nas projeções de Barros. "(O mercado acionário) não está mal precificado, não está errado. Onde está faz sentido. Não está barato, mas não é exagero", afirmou o diretor, evitando, no entanto, estimar até onde a bolsa pode subir este ano.

 

Barros disse ainda que, no que diz respeito à política monetária, não vê aperto de juros no horizonte. "A Selic deve ficar em 8,75% até onde a vista alcança. Tenho dificuldade em entender a insistência do mercado em precificar altas significativas no DI futuro mais adiante. Só tenho uma justificativa para isso, que seria a inclusão de um risco político, mas não vejo esse risco. E estamos também muito otimistas com a inflação", disse.

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