Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Risco político leva dólar a R$ 3,91 e BC oferece mais US$ 20 bi ao mercado

Para analistas, possibilidade de nenhum candidato de centro disputar o 2º turno das eleições é uma das principais causas da volatilidade

Altamiro Silva Junior, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2018 | 17h18

O mercado financeiro registrou nesta quinta-feira, 07, um dos dias de maior estresse dos últimos tempos. No pior momento, o dólar chegou a R$ 3,96 (acabou fechando em R$ 3,91, alta de mais de 2%) e a bolsa recuou 6,5% (para fechar em queda de 2,93%, aos 73.85 pontos). Pressionado, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, convocou uma entrevista para informar que vai oferecer mais US$ 20 bilhões ao mercado até o final da semana que vem e que, se necessário, pode até recorrer às reservas cambiais. E descartou elevar juros para conter o câmbio.

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Os números ruins são o reflexo de um cenário econômico conturbado, tanto no Brasil quanto no exterior, que já vem praticamente desde o início do ano. Mas, para os analistas, um dado vem ganhando relevância nessa conta: o risco político. O mercado parece ter se dado conta de que há uma probabilidade cada vez maior de nenhum candidato de centro – mais identificado com as reformas estruturais, como a da Previdência – estar no segundo turno das eleições presidenciais. A greve dos caminhoneiros, que parou o País, acrescentou um ingrediente extra. O pedido de subsídios ao preço dos combustíveis, que acabou sendo concedido pelo governo, teve grande apoio popular. E demonstrou o forte apelo que o discurso populista ainda deve ter nas eleições.

Após cair quase 6,5%, o Ibovespa desacelerou o ritmo de perda e fechou em baixa de 2,98, aos 73.851,46 pontos. Os papéis mais negociados registraram forte perda, como Petrobrás e Gerdau, que perdeu 6,37%. Os bancos foram outro destaque negativo, caso do Banco do Brasil e Santander, que caíram 4,01% e 5,41% respectivamente. Pelas 14h, todas as ações do índice chegaram a operar no vermelho ao mesmo tempo.

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O cenário eleitoral segue incerto e com um candidato pró-mercado longe das primeiras posições nas pesquisas de intenção de voto. Além disso, no caso do câmbio, especialistas dizem que o Banco Central precisa ser mais agressivo, pois os leilões de swap perderam a eficácia.

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Na avaliação dos estrategistas de câmbio da Nomura, Mario Castro e David Wagner, o ambiente doméstico vem tendo peso importante para explicar as cotações do dólar, mais do que fatores externos. A tendência é que, com a proximidade da eleições, a dinâmica do dólar no Brasil siga sendo ditada por fatores locais, notadamente o ambiente político. A Nomura vê chance de o dólar bater em R$ 4,15 antes das eleições.

"É um momento ruim, consequência do que vem acontecendo nos últimos dias. A percepção é de um cenário muito complicado à frente, com problemas acumulados para o próximo presidente resolver", disse Mário Mariante, chefe de análises da Planner Corretora.

Mariante cita a deterioração do cenário econômico desde a greve dos caminhoneiros, que revelou inabilidade do governo para lidar com a situação e deverá ter efeitos negativos na produção das empresas e na inflação, entre outros desdobramentos. Apesar do ambiente de intensa volatilidade, o analista não vê exagero nas reações do mercado. "Pelos fatores negativos, há razão para o investidor ficar com o pé atrás", disse o profissional.

Ele lembra que há ações que ainda carregam "gordura" no acumulado do ano, o que leva investidores a realizar lucros e aguardar o melhor momento para voltar à Bolsa.

Eleições. Com peso cada vez maior sobre a precificação dos ativos, o cenário eleitoral no País é um dos fatores que ajuda a explicar o ajuste pelo qual passaram os mercados domésticos e ativos brasileiros negociados no exterior. A avaliação é o analista Glauco Legat, da Spinelli Corretora.

"Cada vez mais, o mercado como um todo precifica a possibilidade de um candidato de esquerda, especialmente Ciro Gomes (PDT), se eleger. Dado seu discurso antimercado, gera uma preocupação", comentou, explicou ao Broadcast.

Após a forte retração dos ativos verificada no início da tarde, Legat ressaltou que, em parte, a reação pode ter sido "exagerada". "Acontece uma reação mais negativa num primeiro momento, alguns stops automáticos são acionados, operações a termo zeradas, tudo isso gera volatilidade maior", explica, destacando a atenuação das perdas a partir do meio da tarde. "Isso acaba atraindo comprador, o volume financeiro veio forte, pois alguns ativos voltaram a ficar atraentes", disse. / COM CAIO RINALDI E PAULA DIAS

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