Foto: Fabio Motta/Estadão
Foto: Fabio Motta/Estadão

Dólar fecha cotado a R$ 3,74, após encostar em R$ 3,78 na máxima

Operadores reagiram à máxima, afirmando que o Banco Central deveria tentar conter a escalada da moeda; Bolsa caiu 0,65%, aos 83.081,88 pontos

Ana Paula Ragazzi e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 09h57
Atualizado 18 Maio 2018 | 19h17

Após ter avançado mais de 2% pela manhã e ter se aproximado dos R$ 3,78, o dólar diminuiu o ritmo de alta e fechou nesta sexta-feira, 18, a R$ 3,7369, alta de 1,01%, na sexta valorização consecutiva. Na quinta-feira, o dólar atingiu R$ 3,6994, sua maior cotação em pouco mais de dois anos, e na semana, a moeda acumulou ganho de 3,8%.

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Assim como no câmbio, o Ibovespa, após ter recuado mais de 2%, diminuiu o ritmo na reta final do pregão, fechando aos 83.081,88 pontos, perda de 0,65%, com alguns investidores aproveitando as pechinchas. Na semana, o índice perdeu 2,51%.

Além do movimento de reprecificação global do dólar com a perspectiva de alta mais intensa dos juros americanos, o desconforto com a decisão do Copom de manter a Selic em 6,5% ao ano, apesar de ter sinalizado um corte de 0,25 ponto porcentual, continuou a pressionar os ativos domésticos.

O mercado questiona se o Banco Central aumentará a oferta de swaps cambiais para conter a escalada do dólar. O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, afirmou que "é fundamental persistir nas reformas que vão assegurar a melhoria do lado fiscal" e que, quanto mais sólidos os fundamentos, o câmbio estará menos suscetível a essa variação.

Como já virou quase uma regra nos últimos pregões, houve muita volatilidade e a moeda americana chegou a variar centavos: da mínima de R$ 3,7136 à máxima de R$ 3,7775. O giro foi elevado, somou US$ 1,26 bilhão. No mercado futuro, o dólar, de manhã, chegou a R$ 3,7805 e, perto das 17h, subia 1,13%, negociado a R$ 3,7430.

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O fechamento desta sexta-feira é o maior valor desde 13 de março de 2016, quando ela ficou em R$ 3,7426 - naquele dia, a crise pré-impeachment da presidente Dilma estava praticamente no auge, com a nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil.

"O dia hoje foi mais do mesmo, com cenário externo e a busca por hedge", resumiu Bruno Foresti, gerente de câmbio do Ourinvest. "Daqui para a frente, com o quadro eleitoral, a volatilidade que já está elevada, vai aumentar ainda mais", afirmou.

O aspecto "curioso", ele observa, é que o fluxo continua positivo - conforme dados do BC, em maio até dia 11 está positivo em US$ 362 milhões e, no ano, as entradas superam as saídas em US$ 17,425 bilhões. "Nossa situação é de fluxo positivo e dólar em alta. Ou seja, não há problema de liquidez no câmbio, o que há é procura por proteção por conta do cenário eleitoral que vem por aí. O estrangeiro coloca dinheiro aqui e imediatamente faz o hedge", resumiu Foresti.

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Essa situação se deve à pequena diferença entre as taxas de juros no Brasil e nos EUA, o que deixou muito barato fazer essa operação. Nesse cenário, apesar de muito operadores pela manhã, quando o dólar batia nas máximas, terem comentando que o BC deveria atuar de forma mais presente no câmbio, não haveria muito o que fazer. "A tendência da moeda é de alta e de muita volatilidade. O BC poderia até mesmo ofertar mais swaps cambiais, mas não teria como segurar essa tendência de apreciação. Enquanto o mercado lá fora estiver assim, não vai acalmar. É quase como tentar segurar o mar com a mão", avalia Foresti.

Fernando Araujo, gestor da FCL Capital, lembra que o dólar sobe já há quase dois meses em função do diferencial de juros externos e da apreciação global da moeda americana, mas de alguns dias para cá, já começa a aparecer também a chamada aversão ao risco. "Em outros momentos de tensão cambial, sempre a avaliação de risco do país subia e a moeda acompanhava.

Dessa vez, por conta dessa situação mais técnica da procura por hedge, o risco começou a subir só de alguns dias para cá. Isso provavelmente sinaliza que a questão eleitoral e a preocupação com o futuro de ajuste fiscal começa a compor os preços", resumiu Araujo.

O Credit Default Swap (CDS) do Brasil, que mede a chance de o País dar calote, foi o que mais subiu esta semana entre os principais mercados. O papel de 5 anos do Brasil registrou alta de 13 pontos desde segunda-feira, superou os 200 pontos e era negociado na tarde de hoje a 203,5, nível mais alto hoje desde setembro de 2017.

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O estresse do mercado não afetou só o dólar, mas também as taxas dos títulos públicos. O Tesouro Direto, programa do governo federal de compra e venda de títulos, foi suspenso na manhã. De acordo com o comunicado, a suspensão ocorreu devido à volatilidade nas taxas de juros públicos.

Bolsa. O mercado brasileiro de ações teve mais um pregão de intensa volatilidade e perdas, com os ativos ainda refletindo o desconforto gerado entre os investidores após a decisão de política monetária do Banco Central.

O Índice Bovespa já abriu em queda e teve momentos de forte aceleração do movimento, chegando a registrar recuo de 2,67% no período da tarde. Os negócios somaram R$ 17,4 bilhões, novamente acima da média de maio.

Se na quinta-feira uma parte da queda de 3,37% foi atribuída ao cenário internacional negativo, nesta sexta-feira os analistas admitiram que o front doméstico falou mais alto. A evidência apontada para isso foi que, apesar do fraco desempenho das bolsas de Nova York, houve desaceleração das taxas dos títulos dos EUA.

Esse fator teria favorecido pregões mais tranquilos em bolsas de outros países emergentes, o que não aconteceu por aqui. "A maior parte do impacto hoje veio da questão em torno do BC, que manteve a volatilidade nos mercados de câmbio e juros, levando à suspensão dos negócios no Tesouro Direto", disse Eduardo Guimarães, especialista em ações da Levante Investimentos.

"Por mais que a decisão do BC tenha sido acertada, foi algo que pegou o mercado surpresa", disse o profissional. Guimarães ressalta que alguns papéis continuaram a mostrar desempenho mais técnico, com realização de lucros expressivos no acumulado de maio e do ano.

É o caso claro das ações da Petrobrás, que vinham de um rali de altas, favorecido pela valorização do petróleo e por expectativas positivas sobre a empresa. Hoje Petrobras ON e PN tiveram novo dia de perdas, mas desaceleraram o ritmo e terminaram o pregão com baixas de 0,20% e 1,16%, respectivamente.

As ações de bancos foram algumas das mais beneficiadas, já que acumulam perdas significativas no mês, ao contrário do que ocorre com Petrobrás. Ao final do dia, Bradesco ON e PN subiram 0,62% e 0,45%. B3 ON ganhou 0,77% e as units do Santander avançaram 0,17%. Itaú Unibanco reduziu as perdas para 0,70% e Banco do Brasil, para 0,55%.

Caso JBS. Há um ano, o mercado vivia um dos dias mais conturbados dos últimos dez anos. No dia 18 de maio de 2017, os ativos brasileiros reagiram com nervosismo à informação de que o executivo Joesley Batista, do Grupo JBS, gravou conversa com o presidente Michel Temer em que ele teria dado aval para a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha. 

Tanto o dólar, que chegou a alta de 8,61%, quanto as taxas de juros, abriram o dia batendo no limite e, portanto travando as negociações, assim como o Ibovespa, que teve disparado o circuit breaker logo após os primeiros negócios, ao tombar mais de 10%.

O mecanismo é utilizado pela Bovespa permite, na ocorrência de movimentos bruscos de mercado, o amortecimento e o rebalanceamento das ordens de compra e de venda. Esse instrumento constitui-se em uma "proteção" à volatilidade excessiva em momentos atípicos de mercado.

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