É cedo para dizer que queda da inflação é permanente

Segundo Paulo Mateus, do Barclays, no médio prazo não há sinal claro de desaceleração da economia e o Nuci segue muito elevado

Luciana Xavier,

08 de agosto de 2008 | 19h13

Os números do IGP-DI e do IPC-Fipe de julho mostram uma desaceleração clara da inflação no curto prazo, mas ainda é muito cedo para dizer que se trata de uma tendência permanente, afirmou o estrategista do Barclays Capital para Brasil, Paulo Mateus, durante entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. O IGP-DI subiu 1,12% em julho ante 1,89% em junho, enquanto o IPC-Fipe, divulgado ontem, subiu 0,45% ante 0,96% em junho. Segundo Mateus, pode-se esperar uma forte queda no atacado daqui para frente e mesmo deflação do IPA agrícola em agosto. "Mas olhando no médio prazo os dados de atividade, não há sinal claro de desaceleração da economia. A atividade continua forte e o Nuci (Nível de Utilização da Capacidade Instalada) continua muito elevado", argumentou. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o Nuci ficou em 83,3% em junho ante 82,5% em maio, o maior desde 2003. Mateus acredita que o Nuci poderá ter desaceleração apenas marginal até o final do ano. Demanda x oferta - Apesar de os índices correntes de inflação mostrarem desaceleração, a variável-chave para as próximas decisões do Banco Central deve ser o ritmo da atividade, avaliou o estrategista. Por isso, ainda que se espere números ainda menores em agosto, o BC deve manter pelo menos mais uma alta de 0,75 ponto porcentual da Selic em setembro e duas de 0,50pp nas reuniões seguintes, encerrando o ciclo de aperto este ano. "Ficou claro que o BC está muito preocupado com o desequilíbrio entre oferta e demanda. Não há sinal de arrefecimento (da demanda doméstica)", disse. Mateus lembrou ainda que a queda das commodities está favorecendo a inflação corrente, mas não há garantia de que seja um movimento consistente e duradouro. "A queda das commodities não deve ser permanente e não há ainda percepção de queda da demanda por commodities", opinou. Para o estrategista, as commodities devem se manter com preços próximos aos patamares atuais com alguns repiques para cima. Mateus disse que dissídios de importantes categorias trabalhistas devem resultar em reajustes salariais de 6% a 7% e isso deve contribuir para estimular a demanda neste semestre. Além disso, com IPCA e IGP-M fechando em níveis altos em 2008, os preços administrados vão deixar de ajudar a inflação e podem ser um fator importante de pressão nos preços em 2009. Ele projeta inflação de administrados de 3,7% a 4% em 2008 e de 5% a 5,5% em 2009. "É difícil saber qual será o vilão da inflação em 2009." Teto Diante dos números mais suaves de inflação corrente, a chance de o IPCA não superar o teto de 6,5% da meta de 2008 cresceu, disse Mateus. "Mas ainda não há informações suficientes para falar que a inflação vai continuar a desacelerar até o final do ano", salientou. Por conta disso, o estrategista mantém sua projeção de IPCA em 7% e Selic em 14,75% este ano e IPCA em 5% e Selic em 13,5% em 2009. Para o IPCA de julho, que sai na sexta-feira, a estimativa é de alta de 0,56%, com expectativa de um número ainda menor em agosto. Segundo ele, após um período de manutenção da Selic em 14,75%, será possível o BC retomar os cortes de juros para reanimar a economia, que estará mais fraca no ano que vem. O PIB, de acordo com Mateus, deve desacelerar de 4,8% este ano para 3,5% em 2009. Mateus acrescentou que as próximas pesquisas Focus do BC devem refletir o recuo da inflação corrente e mostrar melhora nas expectativas do mercado tanto no IPCA 2008 como para 2009.

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