Eleições presidenciais e crise externa devem desvalorizar real neste ano

Após se desvalorizar 25% ante o real em 2009, moeda norte-americana altera trajetória 

Nívea Terumi, do Economia & Negócios,

10 de fevereiro de 2010 | 16h37

Após percorrer uma trajetória de forte desvalorização ante a moeda brasileira ao longo de 2009 (queda acumulada de 25%), o dólar dá fortes sinais de recuperação nesse início de ano, alterando o cenário com que muitos analistas vinham trabalhando para a moeda norte-americana.

 

A avaliação é que a tendência de baixa não dará mais o tom das cotações. São responsáveis por essa mudança de direção a forte crise por que passam os países da zona do euro (assista ao vídeo) e a proximidade das eleições presidenciais aqui no Brasil, que devem guiar em grande parte o rumo do câmbio brasileiro em 2010.

 

No âmbito interno, a principal mudança veio com a piora das transações correntes do País, que reúnem a balança comercial, dos serviços e as transferências unilaterais. A conta corrente fechou o ano em queda (déficit de US$ 24,3 bilhões), influenciada principalmente pela forte alta nas importações, que não foi acompanhada pelas exportações.

 

 

"Além das contas externas, com uma previsão de saldo comercial de apenas US$ 5 bilhões em 2010, a trajetória dos juros no segundo semestre do ano passado também contribuiu para essa valorização, pois as taxas domésticas perderam atratividade em relação às internacionais", aponta o sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira.

 

Leitura diferente tem a diretora de câmbio da AGK Corretora, Miriam Tavares. Ela explica que, com o fortalecimento da economia brasileira nos últimos anos, o real passou a operar de forma semelhante às demais moedas fortes, como o euro. Com isso, as cotações do dólar em relação ao real tendem a acompanhar as moedas internacionais.

 

A partir do final de 2009, no entanto, o câmbio brasileiro passou a operar de forma atípica. Para Miriam, os fatores internos começaram a pressionar mais fortemente o dólar, como as expectativas de que as contas externas ficarão piores em 2010 e 2011. Mas não só.

 

Pressão eleitoral

 

A diretora de câmbio da AGK indica que os fatores políticos também começam a pesar nas cotações do câmbio. "Alguns economistas ligados ao PSDB já sinalizam que haverá mudanças relevantes nas medidas para conter o câmbio", diz Miriam.

 

O mais provável, na opinião dela, é que seriam intervenções em linha com o que ocorreu durante o governo FHC, mais ortodoxas. "A partir de junho o dólar deve sofrer uma pressão maior, e a cotação poderá subir mais até as eleições", diz.

 

Para o analista de câmbio da Tendências Consultoria, André Sacconato, o fator incerteza é o que mais pressiona neste momento no cenário interno e deve prevalecer sobre as cotações do dólar ante o real até o fim do ano. "Nenhum dos dois principais (pré) candidatos fala abertamente sobre como atuarão na política cambial, o que aumenta o nervosismo", diz.

 

Segundo Sacconato, as posições futuras dos bancos já mudaram, sendo que, somados, os mercados futuro e à vista (spot) atingiram cerca de US$ 17 bilhões. "O mercado sempre se antecipa aos fatores importantes, como neste caso", explica. Isso significa que os bancos compraram dólares à vista e principalmente no mercado futuro para se resguardarem de uma eventual alta acentuada da moeda norte-americana ante o real.

 

'Fantasmas'

 

A preocupação interna maior parece estar concentrada nas expectativas de um déficit em conta corrente crescente neste ano e em 2011, podendo chegar a US$ 48 bilhões e a US$ 59 bilhões, respectivamente, de acordo com a última Pesquisa Focus do Banco Central (BC).

 

Mas há um motivo mais profundo influenciando o comportamento do mercado, na visão do sócio-diretor da RC Consultores: "Há um fantasma na cabeça dos investidores de que o déficit nas transações correntes não seja revertido tão cedo pelo País, o que tornaria a economia muito dependente do fluxo de capitais."

Para Silveira, grande parte da apreensão está em como se comportarão os preços das commodities, que influenciam diretamente o desempenho das exportações brasileiras. "Até agora, os preços das commodities estão relativamente altos em dólar, o que tem inibido parte das perdas com o câmbio para os exportadores."

 

Os analistas têm segurança em apontar que os acontecimentos nas economias centrais irão definir em grande parte o câmbio interno. Para Sacconato, da Tendências, foram justamente os problemas fiscais vividos a partir do final do ano passado, principalmente nos países europeus, que deram sustentação à valorização do dólar nos mercados internacionais e também no Brasil.

 

A nova legislação do mercado financeiro americano, com as propostas de Obama se mostrando mais profundas que o esperado, também terá impacto sobre os mercados.Mostra disso se viu há cerca de duas semanas, com a queda generalizada das bolsas e ações de bancos após o pronunciamento do presidente americano a respeito das mudanças.

 

"Há muitos eventos para ocorrer neste ano que podem alterar a trajetória das cotações das commodities e, consequentemente, do câmbio", indica Silveira.

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