Elevação do redesconto não indica juro maior em 2010, diz MCM

Decisão de elevar taxa de redesconto não deve ser interpretada como mudança da política monetária

Adriana Chiarini, da Agência Estado,

19 de fevereiro de 2010 | 18h29

A alta na taxa do redesconto anunciada ontem pelo Federal Reserve (Fed), o Banco Central dos Estados Unidos, e a redução do prazo do empréstimo de 28 dias para um dia não indicam mudança da política monetária norte-americana. Dificilmente a taxa de juros dos Fed Funds, a que atinge a atividade econômica daquele país, subirá este ano. A avaliação é do ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio da MCM Consultores, José Júlio Senna.

 

"A economia americana deve crescer este ano entre 2,8% e 3,5%, ainda perto do potencial, e levará muito tempo ainda até eliminar a capacidade ociosa que não mostra pressão inflacionária. O desemprego elevado deve permanecer por muito tempo", disse o economista.

 

Ele frisou que a ata da reunião do Comitê Federal do Mercado Aberto (Fomc) mostra que a visão de seus participantes é a de que a perspectiva para a economia "não mudou de forma apreciável". De acordo com ele, o Fed teria escolhido anunciar o aumento na taxa do redesconto de 0,50% para 0,75% ontem, um dia após divulgar a ata do Fomc, justamente para mostrar que a avaliação para a política monetária não foi alterada. "É pouco crível que o Fed tenha mudado de opinião tão rápido", disse.

 

Segundo Senna, o aumento na taxa do redesconto e a redução do prazo de empréstimo, ao diminuírem a atratividade dessa opção, buscam estimular os empréstimos entre os bancos. Nesses empréstimos interbancários, as instituições utilizam seus recursos no Fed, os chamados Fed Funds. "Há indícios claros e reconhecidos pelo Fed de que o mercado de Fed Funds perdeu liquidez e até cogitaram usar outra taxa de referência para a política monetária, que não a dos Fed Funds, mas ninguém quer isso. O Fed quer estimular os bancos a usar os Fed Funds", disse Senna.

 

Para ele, o aumento no redesconto é uma forma de dar mais eficiência à taxa de juros dos Fed Funds, que ainda é o principal instrumento de política monetária nos Estados Unidos. Para ele, "a ideia do Fed é construir um corredor para a taxa de juros, com piso na remuneração das reservas bancárias (dos bancos no Fed) e teto na taxa do redesconto. A taxa dos Fed Funds fica no meio".

 

Senna observa que, no combate à crise, o Fed aumentou as reservas bancárias dos bancos e, isso, em tese, retiraria eficiência da taxa dos Fed Funds como instrumento de política monetária em caso de necessidade de elevar os juros - o que ainda não aconteceu. O motivo é que, com muitos bancos com reservas altas, eles tenderiam a emprestar entre si, uma vez que usam o dinheiro que tem no Fed (Fed Funds), com taxas baixas, talvez mais baixas do que o Fed gostaria de determinar. Por isso, de acordo com o economista, o Fed se antecipou em 2008 e desde o fim daquele ano remunera as reservas bancárias. "Assim os bancos não vão emprestar por menos do que receberiam para deixar o dinheiro parado nas reservas", disse. A alta na taxa do redesconto atua na outra ponta do corredor.

 

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