Amauri Nehn|Pagos
Amauri Nehn|Pagos

Em meio à turbulência, Bolsa tem saída recorde de capital estrangeiro

Em maio, investidores externos tiraram R$ 8,43 bilhões da B3, superando os R$ 7,62 bilhões de julho de 2008, na crise do subprime americano; para analistas, saída de recursos deve continuar pelo menos até o quadro eleitoral se tornar mais claro

Karin Sato e Fabiana Holtz, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2018 | 04h00

A Bolsa brasileira nunca viu uma saída tão grande de capital estrangeiro em tão pouco tempo, um claro reflexo da turbulência econômica e política que o País atravessa. Em maio, deixaram a B3 R$ 8,43 bilhões, um número recorde – superando os R$ 7,62 bilhões de julho de 2008, no auge da crise do subprime nos Estados Unidos. Neste mês, apenas nos quatro primeiros pregões, saíram mais R$ 2 bilhões. No acumulado do ano, o saldo está negativo em R$ 6,06 bilhões – em 2017, houve uma entrada recorde de R$ 14 bilhões. 

+ IIF vê efeito ‘manada’ em saída de capital de países emergentes

 Essa “fuga” teve início em fevereiro, quando se tornaram mais claros os sinais de que os EUA iriam subir mais os juros que o inicialmente previsto – o que torna os títulos americanos mais atrativos para os investidores, prejudicando principalmente os países emergentes. Mas há no Brasil um ingrediente extra: um cenário eleitoral completamente indefinido, com o mercado cada vez mais temeroso de um segundo turno sem nenhum candidato de centro.

+ Análise Sérgio Valle: Seguiremos em risco nos próximos meses

Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, os emergentes como um todo têm sofrido com a virada do humor com relação aos juros nos EUA e também com a ameaça de uma guerra comercial liderada pelo presidente americano, Donald Trump, contra a China. Mas, no Brasil, a questão política pesa cada vez mais.

“Na cena doméstica, do ponto de vista político, existe a percepção de que muito do que foi ‘conseguido’ pelo governo de Michel Temer não está andando muito bem. Desde a questão fiscal, que está absolutamente descontrolada, a questões pontuais que mostraram fragilidade, como a situação envolvendo a Petrobrás”, disse, referindo-se à greve dos caminhoneiros, que teve como um dos efeitos a saída do presidente da estatal, Pedro Parente.

+ Mercados emergentes são sinal para mercado financeiro?

Sérgio Goldman, estrategista da corretora Magliano, diz que a fuga de estrangeiros deve continuar, mas talvez em volumes menores. Ele considera, porém, exagerada a visão de que a economia brasileira pode vir a sofrer como a da Turquia ou da Argentina. “O Brasil tem muitas reservas e contas relativamente equacionadas, mesmo diante de atual risco de uma deterioração crescente”, disse. Para ele, o clima de cautela deve prevalecer ao menos até agosto, quando começa a propaganda eleitoral na TV e o cenário tende a ficar um pouco mais claro.

+ Com maior recuo em quase dez anos, dólar cai 5,35% e fecha em R$ 3,70

Karel Luketic, analista-chefe da XP, tem visão parecida. Para ele, há muitas incertezas relativas à economia americana, mas, nos próximos dois meses, a cena política deve predominar. “Independentemente da visão do candidato que é melhor ou pior para o mercado, a volatilidade deve permanecer pelo menos até a realização das convenções partidárias”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.