Empresas ganham fôlego para investir

As empresas de capital aberto atingiram a maior capacidade de investimentos dos últimos oito anos. Mas, infelizmente, todo esse potencial não tem sido revertido em novos projetos de ampliação da produção. Com juros elevados, carga tributária nas alturas e câmbio reduzido, as companhias têm preferido não lançar mão de seu potencial de endividamento para investir no País.Levantamento feito pela consultoria Economática, com 246 companhias negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), entre 1998 e 2006, mostra que o nível de endividamento das empresas está praticamente no mesmo patamar desde 2002, na casa de R$ 240 bilhões. Nesse período, no entanto, o lucro operacional (antes de juros e impostos) - também conhecido como Ebit -, dobrou, alcançando R$ 134 bilhões em 2006.Com isso, a relação dívida/Ebit, que mede a capacidade das empresas de honrar seus compromissos, atingiu 56,4%. Isso significa que para cada R$ 100 de dívida, as empresas lucraram R$ 56,4. ?Número extremamente confortável, considerando o pagamento dos juros na casa de 20% ao ano?, diz o presidente da Economática, Fernando Exel. Hoje a taxa básica brasileira (Selic) está em 13,25% ao ano. ?Um porcentual de dívida/ebit muito elevado significa que as empresas não estão investindo o quanto poderiam para aumentar seus negócios. É um sinal de incerteza em relação à economia.?De acordo com o estudo, em 1998, a dívida desse conjunto de empresas somava R$ 96 bilhões. Mas o lucro líquido era de apenas R$ 22,6 bilhões, o que resultava numa relação dívida/Ebit de 23,6%. Ou seja, a capacidade de investimentos das empresas era bem menor. De lá pra cá, a dívida subiu 147% e o lucro operacional, 492%.A analista de investimento da SLW Corretora, Kelly Trentin, diz que a estabilidade da economia interna e o crescimento mundial elevaram os resultados da empresas nos últimos anos e ampliaram sua geração de caixa. Com isso, o endividamento fica menos pesado na estrutura de capital. Segundo ela, alguns setores, como é o caso de siderurgia e metalurgia, foram beneficiadas pela forte demanda do mercado internacional, com a alta da commodities.Isso ajudou as empresas a melhorarem sua estrutura de endividamento, afirma Kelly. De acordo com o levantamento da Economática, a relação dívida/ebit do setor de siderurgia e metalurgia cresceu de 26,38%, em 2002, para 53,51% no ano passado. No período, o lucro operacional cresceu 279% e as dívidas avançaram 86%.O setor de energia também melhorou seu indicador. As empresas não só elevaram o lucro operacional como também reduziram suas dívidas em 8,39%. No terceiro trimestre de 2006, as empresas de energia somavam dívidas de R$ 59,8 bilhões contra R$ 65,3 bilhões de 2002. Isso foi resultado de inúmeras renegociações de empréstimos e do aumento da receita, com a recuperação do consumo de energia. Com isso, a capacidade de pagamento das empresas mais que dobrou, saltando de 11,96% para 30,59%.DesvalorizaçãoO gestor de renda variável da Máxima Asset Management, Fábio Cardoso, explica que há no Brasil uma cultura de achar que endividamento é sinal de que a empresa está passando por algum problema, e não de que ela quer ampliar seus negócios. ?Vide o caso da Vale quando anunciou a compra da Inco. No primeiro momento, todos criticaram o fato de a empresa aumentar sua dívida para adquirir a companhia.?Ele diz, porém, que isso é decorrente de um histórico complicado, especialmente por causa do fim da paridade do dólar. Na época, as companhias se sentiram incentivadas para captar recursos no exterior. Quando houve a desvalorização do dólar, as dívidas explodiram.Cardoso atribui a falta de uso do potencial das empresas na ampliação de seus negócios aos juros altos. ?A rentabilidade de um projeto tem de ser elevada para compensar os investimentos?, diz ele, referindo-se ao retorno de aplicações financeiras atreladas à taxa básica de juros. Mas ele afirma que começa haver um movimento de captações no mercado interno, que deve ser ampliado com a trajetória declinante da Selic.

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