Empresas investem alto para montagem de produções da Broadway

A história da pobre vendedora de flores com o sedutor professor de fonética do musical "My Fair Lady", da Takla Produções, que entra em cartaz hoje no Teatro Alfa, em São Paulo, traz muito mais que apenas romance ou comédia. Envolve alto investimento financeiro do setor empresarial e comprova a tendência de sucesso de um gênero (antes reduto da Broadway) no Brasil.A peça recebeu investimento para estréia de R$ 4 milhões e terá mais R$ 8 milhões para o restante da temporada, que vai até outubro. Deste total de R$ 12 milhões, segundo Jorge Takla, diretor do espetáculo e dono da Takla Produções, R$ 6 milhões vem da Lei de Incentivo Fiscal Rouanet ("dois quais 50% já foram captados"), e, dos outros R$ 6 milhões, R$ 3 milhões vieram de patrocinadores, como Bradesco Prime e American Express."My Fair Lady", um dos primeiros sucessos da Broadway, chega para se somar a outros dois megamusicais em cartaz, atualmente, na capital paulista - Sweet Charity, no Citibank Hall, e O Fantasma da Ópera, no Teatro Abril, que encerra temporada no próximo mês com dois anos de apresentação. Só essas duas, produzidas pela CIE Brasil, já atraíram um público de 885 mil pessoas. Para a diretora de teatro e exposições da CIE Brasil, Stephanie Mayorkis, se criou em São Paulo uma "espécie de mini-Broadway paulista". "Formou-se um hábito cultural do público", afirma. De acordo com Takla, hoje há um know-how muito maior para realização destes espetáculos. "Comprei 'My Fair Lady' em 1995 e não tinha profissionais qualificados para a montagem. Hoje temos uma mão-de-obra muito mais qualificada", ressalta.Inseridos como entertainment, os grandes musicais seduzem o público pela grandiosidade e luxo, sob a chancela da marca Broadway, e, conseqüentemente, atraem importantes patrocinadores. Afinal, o setor empresarial permite viabilizar os musicais, que atingem orçamento de R$ 12 milhões, como o próximo musical que será produzido pela CIE Brasil, "Miss Saigon". Este entra em cartaz em julho, substituindo "O Fantasma" e superando seu orçamento de R$ 10 milhões.Mas o que ganham em troca para investir tão alto? "O crescimento de investimentos em entretenimento se dá pela visibilidade proporcionada. O retorno depende da construção dos objetivos traçados, mas costumam, quando bem utilizados, gerar vínculos afetivos entre stakeholders (grupos de interesse) e a marca patrocinadora", acredita a docente de Marketing Cultural da ESPM, Gisele Jordão, também sócia da agência especializada em comunicação e cultura 3D3.Além da comunicação associativa entre consumidor e marca, visto como principal benefício, na maioria dos casos os patrocinadores recebem ingressos para distribuir por meio de promoções à sua carteira de clientes. "A parceria com o investidor tem que se tornar uma experiência para o seu cliente e não só uma atividade estática de comunicação. Para isso, são criadas várias ações de envolvimento, fazendo com que o cliente da marca possa viver o produto", sustenta Mayorkis. Para a professora da ESPM e executiva da 3D3, o aumento do interesse em investir em musicais não representa um novo comportamento das empresas, mas, sim, "uma nova arena de comunicação".De acordo com o diretor comercial da CIE, Eduardo Barrieu, a produtora compra os direitos da Broadway e depois oferece cotas aos patrocinadores. Há, claro, aquelas empresas que têm preferência na hora da oferta. "Alguns já estão com a gente mais tempo e tem prioridades", declara. Entre esses "compradores vips" estão empresas como Credicard, Ericsson, Gol e Bosch. As fontes de receita, segundo Barrieu, são duas: a venda de ingressos e, em uma menor parte, os patrocínios. De acordo com ele, os investimentos diluídos durante o período que o espetáculo fica em cartaz compensam pelos benefícios. "Se investir R$ 1 milhão, diluído em 18 meses, por exemplo, não dá nem R$ 100 mil por mês, o que é pouco perto do retorno que a marca terá".Precursora dos musicais no País, a CIE Brasil aposta no segmento Broadway desde 2001, quando colocou Les Misérables no circuito teatral, com investimento de R$ 3,5 milhões. Em 2000, no entanto, já havia montado "O Beijo da Mulher Aranha". Teve ainda "A Bela e A Fera" (investimento de R$ 8 milhões), que estreou em 2002, e "Chicago" (investimento de R$ 2 milhões) em 2004. Em julho, além de Miss Saigon, apostará ainda na realização de Peter Pan, que entra em cartaz no Credicard Hall e está com audição aberta para escolha do elenco, com prazo até 16 de março. Os patrocinadores para estas duas peças ainda não podem ser divulgados, pois, segundo Mayorkis, ainda está "em negociação".Mesmo com o aumento do leque de musicais, para a diretora de teatro da CIE seria exagerado dizer que está mais fácil montar estes grandes espetáculos, entretanto admite que o mercado está mais aberto para investir no segmento. "Tanto o público quanto os parceiros passaram a ter cada vez mais interesse. Não digo que está mais fácil produzir, mas é um produto que gera um interesse de todo mundo, mesmo para os investidores, pois atinge uma escala de pessoas grande e traz um valor agregado para as marcas", pondera. Este produto de entretenimento, em grande parte que atrai muitas famílias, comprova um vôo ascendente do gênero, sem hora para pousar. São Paulo, definitivamente, se configurou como uma pequena Broadway brasileira.

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