Empresas não estão preparadas para se defender de oferta hostil

As empresas brasileiras ainda não estão preparadas para se defender de ofertas hostis, mecanismo de tentativa de aquisição de companhias que só se tornou possível há pouco tempo, com a adoção de novo modelo de capital pulverizado. Em comparação ao mercado norte-americano, o brasileiro carece de sofisticação, adverte a professora Lie Carmo, da Fundação Getúlio Vargas. Segundo ela, existem vários recursos de defesa para as empresas que sofrem oferta hostil. A resistência a um acordo, levando o processo à discussão, é um deles. Na maioria das vezes em que há litígio, o preço final é maior do que o combinado inicialmente. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos em 1985, pelo norte-americano Gregg Jarrell, mostrou que o acréscimo foi de 17% em 80% dos casos em que a operação foi não amigável. Nas demais situações - em que houve litígio e a venda não se consumou - as conseqüências para a empresa foram ruins, pois além de perder o prêmio, que era de em média 32%, teve que arcar com os custos do processo. Outra ferramenta de defesa é a cláusula que impõe a necessidade de elaboração de laudo de avaliação da empresa, ponto que inclusive consta no estatuto da Perdigão, a qual foi alvo de uma oferta pública de aquisição pela Sadia no começo da semana passada. O documento prevê que, se o laudo próprio apresentar uma diferença superior a 10% na comparação com a avaliação da compradora, o caso deve ser decidido por câmara de arbitragem. "Este ponto é uma técnica de defesa para se ganhar tempo em caso de litígio, pois a diferença de 10% é facilmente alcançada", disse Lie Carmo. A professora explicou que no Brasil, em decorrência justamente da pouca experiência no modelo de capital pulverizado e difuso, o baixo grau de sofisticação das táticas de proteção era esperado. E o índice de especialização, em alguns casos, é diretamente proporcional à capacitação dos escritórios de advocacia que devem atuar nos processos, na opinião de alguns estudiosos. A proposta da Sadia pode beneficiar a Perdigão, a considerar as experiências norte-americanas - tanto que a companhia já elevou a oferta pela concorrente. Na negociação entre as duas, houve impasse em relação à possibilidade ou não de se fazer uma única oferta pública de aquisição (OPA), em vez de em duas etapas. Para a Sadia, não há impedimentos. Para a Perdigão, seria necessário primeiro a concorrente se tornar acionista e, depois de atingir 20% do capital, realizar a OPA. Nos Estados Unidos, um mecanismo usual de uma companhia suscetível à oferta hostil é investir ao longo dos anos em segmentos onde as eventuais predadoras já atuam, a fim de desestimular o negócio sob risco de ser vetado pelos órgãos de defesa da concorrência e do direito econômico. Aqui, a tática está longe de ser aplicada, já que até pouco tempo atrás não havia riscos desse tipo. Apesar de a hipótese de união entre Sadia e Perdigão ser antiga, não há indicações de que a similaridade das linhas de produtos vista hoje seja decorrente dessa estratégia. Há segmentos em que a concentração chegaria a 80%, segundo dados da ACNielsen. Outro levantamento, de 1990, feito pelos pesquisadores Arthur Fleischer Jr., Henry Lesser e Alexander Sussman, com base em 275 ofertas hostis ocorridas entre os anos de 1980 e 1989, mostrou que em menos de 20% dos casos a operação foi confirmada pelo preço inicial. Ou seja, nos demais houve aumento do valor proposto.

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