Empresas que já estão na Bovespa decidem migrar para Novo Mercado

Empresas que já possuem o capital aberto há bastante tempo decidem agora migrar para o Novo Mercado da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Diante do ressurgimento do mercado de capitais brasileiro nos últimos anos, a busca pela governança corporativa atinge inclusive companhias que não têm qualquer histórico de relacionamento com os investidores e possuem ações sem liquidez. O posicionamento de empresas conhecidas como "semi-abertas" ou "abertas de direito, e não de fato" levanta questionamentos. Especialistas se perguntam se a intenção de melhorar o perfil corporativo é consistente ou se representa apenas um oportunismo, diante da janela de mercado, para captar recursos ou se desfazer de participação no capital via oferta de ações. "Essa é uma hipótese que pode acontecer", avalia a diretora-executiva do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Heloisa Bedicks. "As empresas podem estar aproveitando a onda do mercado." No entanto, ela ponderou que os cursos sobre governança do IBGC têm registrado aumento de procura por funcionários de empresas, tanto daquelas que querem abrir o capital como de companhias que já estão na bolsa. Entre as empresas que anunciaram recentemente planos de migrar do segmento tradicional para o Novo Mercado estão: Drogasil, Fosfertil, Gradiente, Indústrias Romi e Plascar Participações. Duas companhias que já têm o nível 1 - WEG e Cia Hering - também pretendem ingressar na seção de governança mais elevada. Entenda-se Novo Mercado um segmento de listagem destinado à negociação de ações emitidas por companhias que se comprometem, voluntariamente, com a adoção de práticas de governança corporativa adicionais em relação ao que é exigido pela legislação, segundo definição da Bovespa. Motivos Os motivos para a migração são variados. A Romi, por exemplo, já deixou claro que pretende atrair investidores para uma oferta de ações primária e secundária, sendo que parte do dinheiro será aplicada em expansão e aquisições. A Gradiente também avalia captar recursos, mas admite que ainda precisa se tornar uma companhia verdadeiramente aberta. A Fosfertil decidiu aderir ao Novo Mercado após ceder a pressão de seus principais minoritários, como condição para aceitar uma proposta de reorganização com o grupo Bunge. Entre as companhias citadas, a WEG é a que apresenta um histórico de evolução de governança mais consistente. O presidente de Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), Geraldo Soares, acredita que o movimento de migração de companhias para o Novo Mercado representa, na verdade, uma "mudança cultural do mercado de capitais brasileiro". "Governança corporativa hoje é um diferencial. Trata-se de uma questão estratégica." Soares lembrou que os investidores tendem a pagar mais por empresas com maior transparência. "Hoje, valor de mercado é um instrumento essencial para se comprar concorrentes e ampliar market share", afirmou, referindo-se a recentes fusões e aquisições no Brasil via troca de ações. "Se você não tem boas práticas de governança, não tem diferencial competitivo. O concorrente cresce, ganha valor de mercado e acaba comprando você." O superintendente de Relações com Empresas da Bovespa, João Batista Fraga, ressaltou que migrar do nível tradicional para o Novo Mercado não é apenas adaptar o estatuto social às exigências deste segmento, como free float mínimo de 25% e capital formado apenas por ações ordinárias com tag along de 100%. "Os investidores cobram por governança. Essa é a condição para que a empresa seja vista de forma diferenciada." Ele citou dois exemplos recentes de companhias de peso que mudaram para o Novo Mercado: Embraer e Perdigão. "Houve toda uma preparação por parte da administração para que ocorresse a migração." Fraga destacou que a principal qualidade do Novo Mercado é fornecer mecanismos de proteção aos investidores minoritários para que eles possam cobrar uma postura transparente e defender seus interesses. "Se o acionista se sentir prejudicado, ele pode apelar à Câmara de Arbitragem da Bovespa", explicou Fraga. "O mercado tem como se defender legalmente se a empresa não cumprir as regras. Agora, se a empresa seguir as regras, mas não entregar o retorno esperado, o mercado também tem como penalizar esse fato, no preço das ações", ressaltou, lembrando que o free float mínimo de 25% dá liquidez suficiente para a precificação dos papéis. Heloisa Bedicks, do IBGC, também defendeu uma postura ativa por parte do mercado. "Nós pregamos o ativismo do investidor. Ele tem que se informar, ver o histórico da empresa, cobrar resultados. Se a companhia não se adequar, o mercado tem como penalizar."

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