Especial: Crianças aprendem na prática como cuidar do dinheiro

Depositar moedas no cofrinho deixou de ser a única opção de economia para as crianças. Para os especialistas, quem é educado para lidar com dinheiro desde cedo tem menos risco de se endividar na vida adulta. O Banco Central e a Bovespa investem em projetos de educação financeira para se aproximar da população, enquanto o tema começa a conquistar espaço nas escolas. O mineirinho de Viçosa, ao sul do Estado, Nícolas Gomes da Costa, de 10 anos, acaba de realizar um sonho de consumo: comprou um videogame Playstation, por cerca de R$ 800. O brinquedo não é presente dos pais, mas sim resultado de mais de um ano de economia. O estudante depositou na conta poupança que mantém há dois anos R$ 50 por mês, recebidos do avô. "Nícolas aprendeu a ter paciência e a calcular de cabeça quanto falta para ter o dinheiro que precisa", conta a mãe, a pedagoga Rosiane Gomes Cardoso. Há três meses, o garoto junta dinheiro para comprar uma bicicleta. Quem ensinou o menino a lidar com dinheiro foi a professora Michelle Lelis, mestre em Economia Doméstica pela Universidade Federal de Viçosa. Desde a 1ª série do ensino fundamental, Nícolas e outros 20 colegas têm aulas semanais de Educação Financeira, no Colégio Agora, da Rede Pitágoras. "Desenvolver a autonomia é um estágio do crescimento humano, e a educação financeira vem justamente para isso", diz Michelle. Como no caso de Nícolas, o apoio da família determina o sucesso do aprendizado de finanças. "A idéia não é mostrar à família uma maneira de educar, mas sugerir possibilidades", explica a especialista em educação financeira Cássia D'Aquino, com 12 anos de experiência na área e membro da International Association for Citizenship, Social and Economics Education, organização com sede na Inglaterra, dedicada à pesquisa sobre educação para crianças nas áreas social e econômica. Na sala de aula, para prender a atenção da garotada, só com muita criatividade. Há quatro anos acompanhando a mesma turma, Michelle desenvolveu jogos e brincadeiras. "Tem hora em que preciso ser artista para eles prestarem atenção." No arsenal de recursos, três envelopes com as cores do semáforo fazem a diferença. Vermelho para o dinheiro a gastar, com cuidado; amarelo para fazer doações, com moderação; e verde para o valor a poupar, sem restrição. Depois de juntar moedas e notas nos envelopes, os alunos aprendem onde usar o dinheiro, em visitas a supermercado, a banco e ao asilo Lar dos Velhinhos. Se no supermercado a lição é como gastar, comparando preços e marcas, no banco Michelle os ensina a economizar. "Eles descobrem que o caixa eletrônico não dá dinheiro, mas guarda o fruto do trabalho dos pais", conta a professora. Em projetos sociais, os pequenos aprendem que sentimentos valem mais que moedas. "Eles doam amor para os idosos, em forma de desenhos." Para Cássia D'Aquino, a escola deve capacitar a criança para tomar decisões. "O objetivo é dar substrato para uma relação mais saudável com o dinheiro, construir uma mentalidade diferente". Professores de todas as disciplinas podem colaborar na tarefa. Ensinar a resolver problemas rotineiros contribui para que os alunos saibam decidir com mais critério o que comprar e quanto gastar. "Você precisa desalienar o consumo, saber por que está comprando. Assim, eles se tornam responsáveis em suas escolhas". A iniciativa faz parte do Programa Educacional Bovespa, do qual participam 80 mil pessoas anualmente. O projeto oferece cursos gratuitos de educação financeira para crianças, de 10 a 15 anos, e jovens, de 15 a 18 anos, em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza. Em abril, Recife ganha uma unidade da Bovespa. "Desmistificamos os conceitos financeiros de forma didática", diz Abdal. Os menores merecem cuidado redobrado. "É essencial falar de forma lúdica, com linguagem adequada e exemplos do dia-a-dia." Nada mais próximo do universo da garotada do que a internet. Assim pensou o Banco Central para elaborar o portal BC Jovem, a ser lançado até julho. Parte do conteúdo já está disponível no endereço www.bcb.gov.br/bcjovem, que tem 25 mil acessos por mês. "Recebemos muitos elogios e agradecimentos de quem consulta o site para trabalhos escolares", revela o chefe da divisão de Comunicação Educativa e Cultural, Hélio Celidonio. O conteúdo do site, destinado a jovens de 7 a 17 anos, será dividido em três áreas, de acordo com a faixa etária. O grau de complexidade do material aumenta com a idade, mas informação é lúdica e interativa para todos. "Teremos ilustrações, jogos e personagens para guiar a criança pelas seções", conta Celidonio. DICA As inscrições para o curso da Bovespa em todo o País podem ser feitas no site www.bovespa.com.br, no link Investidores - Programa Educacional.

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