Washington Alves/Reuters
Washington Alves/Reuters

Especialistas recomendam calma a investidores da Vale

Ações da companhia registraram queda de 24,5% nesta segunda-feira, 28, primeiro dia de pregão após tragédia de Brumadinho (MG)

Anna Carolina Papp, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 20h21

O recuo de 24,5% nas ações da Vale nesta segunda-feira, 28, como reflexo da tragédia em Brumadinho (MG), acende um sinal amarelo para investidores, novatos e experientes, sobre o futuro dos papeis da mineradora, que perdeu  R$ 71 bilhões em valor de mercado em um único dia.

As recomendações de especialistas variam de acordo com o perfil e os objetivos de cada investidor; mas, de maneira geral, o conselho para os que já detêm ações da mineradora é  "esperar a poeira baixar". "Nossa equipe acredita que que quem já tem ações da companhia deve manter a posição, ou seja, não vender", afirma a sócia da Ativa Investimentos, Rebeca Nevares.

Segundo a gestora, o que está em jogo, agora, é muito mais um risco de imagem do que de alavancagem, por exemplo. "A empresa ainda é muito competitiva internacionalmente pela qualidade do seu minério", observa.

FGTS

O mesmo raciocínio, de aguardar cenas dos próximos capítulos, vale para quem investiu na mineradora com recursos do FGTS, por meio do Fundo Mútuo de Participação (FMP). De sua criação, em 2002, até a última quinta-feira, na semana passada, esse investimento acumulava, em média, valorização de 1.606%, sendo cálculos da Economatica.  Descontada a inflação do período, a alta foi de 511%.

"Quem é cotista de um fundo assim pode assustar, pois não pode retirar o dinheiro num momento como esse. Mas, não há motivo para pânico", explica Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper. "Ao se olhar o histórico, o ganho foi muito alto – principalmente se comparado ao FGTS, que rende abaixo da inflação", diz. O FGTS rende 3% ao ano mais a Taxa Referencial (TR).

Segundo dados da Anbima, o patrimônio atual desse tipo de fundo é de R$ 2,744 bilhões, com 123,6 mil cotistas. O investimento só pode ser sacado em situações como demissão sem justa causa, doenças graves ou compra de um imóvel. No final de 2016, porém, pôde ser acessado com a liberação das contas inativas do FGTS durante o governo Michel Temer.

Cautela

Guilherme Macêdo, sócio da Vokin Investimentos, alerta para o fato de que, independentemente dos desdobramentos do ocorrido em Brumadinho, o papel da mineradora ficará muito mais volátil, o que exige mais cuidado.

"Muitos farão análise gráfica para tentar ganhar no curto prazo – alguns venderão, outros comprarão, mas tudo isso trará excesso de volatilidade para esse ativo", observa. "Para quem pensa mais a longo prazo, é melhor aguardar e reavaliar se esse impacto é pontual ou se o evento de fato mostra falta de diligência e mudará significativamente o valor da empresa", diz.

A magnitude do tombo, segundo Viriato, se deve pela reincidência do desastre ambiental num prazo muito curto – três anos após a tragédia de Mariana – e, pior: com mais vítimas. A avaliação do professor está em linha com as análises dos bancos Bradesco BBI e BTG Pactual, de que, mesmo que as multas sejam menores do que o caso Samarco, pelo impacto ambiental menor, oo aspecto humano tem pesado muito nas projeções.

Portfólio

Já Henrique Bredda, sócio da Alaska Asset Management, afirma que a perda de R$ 70 bilhões não é motivo para a gestora reduzir sua exposição à mineradora. Hoje, a fatia da Vale no portfólio da gestora está entre 7% e 8%, figurando na nona colocação entre 19 empresas. "O mercado está nervoso e, no momento, vamos esperar", diz. "Porém, se os preços continuarem caindo e não surgir nenhum fator novo, pretendemos aumentar a fatia para alto em torno de 10% a 11%", diz. Bredda é o gestor do Alaska Black, um dos fundos de ações mais rentáveis do mercado, com valorização de 127% nos 18 meses encerrados em 24 de janeiro.

Ele afirma que, por mais que a Vale tenha de pagar uma multa, o ressarcimento não vai chegar perto dos R$ 70 bilhões que a empresa perdeu. "Ela vai ter de fazer um cheque, isso é inegável, mas não na mesma medida da desvalorização do seu papel", diz. O gestor diz que, se a ação continuar caindo, o investidor mais arrojado pode optar por entrar, mas desde que tenha ciência do risco.

"Não é para quem quer entrar e ganhar dinheiroem uma semana, ou procura uma empresa só pelo bom fluxo de dividendos, que agora estão cortados", diz. "Aqui, trabalhamos com análises fundamentalistas. É uma escolha de longo prazo."

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