Imagem Fábio Alves
Colunista
Fábio Alves
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Estrangeiros incrédulos

A perspectiva é que janeiro seja marcado por idas e vindas em relação à reforma

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2019 | 04h00

É nítida a diferença de postura entre investidores brasileiros e estrangeiros em relação às perspectivas de aprovação da reforma da Previdência e do desempenho da economia sob o governo Jair Bolsonaro: enquanto os locais alimentaram a recente alta da Bolsa e de outros ativos no Brasil, os estrangeiros se mantêm distantes, à espera de informações concretas a respeito das reformas.

Apesar de os integrantes do governo, incluindo o próprio presidente Bolsonaro, estarem batendo cabeça e dando informações desencontradas em relação à reforma da Previdência e a outros temas, como aumento de impostos, os investidores brasileiros seguem otimistas, dando o benefício da dúvida e apostando que a mudança nos benefícios previdenciários passará pela Câmara dos Deputados ainda neste primeiro semestre. É o que os preços das ações na Bolsa e a cotação do dólar parecem refletir.

Já os estrangeiros não embarcaram no otimismo dos discursos proferidos até o momento, ainda esperando para ver se o capital político do novo governo vai se traduzir em governabilidade e aprovação de medidas necessárias para o controle dos gastos públicos.

No dia 2 deste mês, primeiro pregão de 2019, quando o Ibovespa (principal índice do mercado acionário brasileiro) disparou 3,56%, batendo máxima histórica de 91.012,31 pontos, os investidores estrangeiros ingressaram com apenas R$ 48 milhões na Bolsa.

Essa alta forte do Ibovespa refletiu a euforia com o anúncio do apoio do PSL à reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) ao comando da Câmara, o que turbinou a confiança dos analistas e investidores brasileiros em relação à aprovação da reforma da Previdência. Também pesou no bom humor os discursos de posse de Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, durante a cerimônia de transmissão de cargo.

No pregão seguinte, dia 3, o Ibovespa voltou a registrar nova máxima histórica, fechando em alta de 0,61% aos 91.564,25 pontos, mas os estrangeiros, desta vez, fecharam os olhos para o clima de festa e retiraram nada menos do que R$ 2,27 bilhões do mercado acionário brasileiro.

Um experiente gestor de um dos maiores fundos de investimentos na Europa tachou os investidores brasileiros de “demasiadamente otimistas” neste momento e disse preferir esperar o anúncio definitivo da proposta de reforma da Previdência pelo governo, além de aguardar a retomada dos trabalhos no Congresso, com as eleições para as presidências da Câmara e do Senado no dia 1.º de fevereiro, para tomar uma posição em relação à alocação de seus recursos para ativos brasileiros.

Apesar das notícias de bastidores quase que diariamente na imprensa sobre a reforma da Previdência, dificilmente a equipe econômica vai anunciar os detalhes da proposta muito antes de enviá-la ao Congresso para não “deixar a proposta tomando chuva” e chegar para votação debilitada por críticas. A perspectiva, portanto, é de o mês de janeiro ser marcado por idas e vindas quanto à proposta de reforma da Previdência, com mais declarações desencontradas por membros do governo.

Por enquanto, levando-se em conta os preços dos ativos, os investidores brasileiros parecem apostar na aprovação de uma reforma que resultará numa economia maior do que o projeto enviado pelo governo Michel Temer e que está parado no Congresso. A proposta inicial de Temer previa uma economia original de R$ 800 bilhões em dez anos, mas foi sendo diluída à medida que tramitou pelo Congresso, chegando à versão final com uma economia de apenas R$ 480 bilhões.

Na fotografia de hoje, ainda é muito otimista essa expectativa dos investidores brasileiros de que o governo Bolsonaro conseguirá aprovar uma reforma da Previdência que resulte em economia maior do que a versão final diluída da proposta do governo Temer. O sentimento dos estrangeiros é de que uma economia menor do que R$ 480 bilhões é uma aposta mais realista para a reforma da Previdência do governo Bolsonaro.

E isso não quer dizer que mesmo uma reforma mais diluída seria mal recebida pelo mercado financeiro, embora não contribua para resolver os problemas de longo prazo dos gastos públicos. O que os investidores estrangeiros querem é alguma reforma da Previdência.

Desde a eleição de Bolsonaro, sua equipe econômica vem prometendo uma agenda de alto impacto para catapultar o crescimento econômico. Mas até agora o que passou no Congresso foi apenas uma pauta-bomba para os gastos públicos.

*COLUNISTA DO BROADCAST

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.