Estrangeiros pregam cautela e vendem papéis da dívida

Investidores estrangeiros adotaram uma posição de cautela e alguns estão vendendo papéis do Brasil por causa da troca de comando no Ministério da Fazenda. Mas, no longo prazo, continuam otimistas em relação ao País. O banco de investimentos JP Morgan recomendou aos seus clientes uma redução da exposição em títulos do Brasil. Baixou a recomendação de investimento no Brasil de "acima da média" para "neutro", ao mesmo tempo em que elevou a recomendação dos papéis da Rússia de "neutro" para "acima da média". Segundo um comunicado do JP Morgan, o rebaixamento da recomendação dos títulos brasileiros é conseqüência das mudanças no Ministério da Fazenda, que trazem "volatilidade desnecessária". "Com a saída dos técnicos pró-mercado, será necessário algum tempo para os novos construírem credibilidade", diz a nota. "No longo prazo, a mudança gera preocupações, pois pode significar que um segundo mandato de Lula não necessariamente traga continuidade das políticas." Já o banco HSBC manteve a recomendação "acima da média" para a dívida externa brasileira. "Acreditamos que a saída de membros-chave da equipe econômica e a escolha de Guido Mantega para a Fazenda deverão oferecer um terreno considerável para incertezas de curto prazo", afirmaram estrategistas do HSBC, em comunicado aos clientes. "Entretanto, acreditamos que os fundamentos do Brasil continuam sólidos e não esperamos alteração radical da atual orientação da política econômica. Precisaríamos ver mudanças no BC para nos movermos para uma posição defensiva". Após digerir a nomeação de Mantega, a maioria dos investidores estrangeiros concluiu que o grau de incerteza com a perspectiva macroeconômica de longo prazo do País cresceu substancialmente. Por isso, parte da enorme confiança conquistada a duras penas pelo governo Lula junto aos mercados financeiros será, a partir de agora, testada. Mantega estava no pé da lista dos ministeriáveis desejados pela maioria dos investidores estrangeiros. Suas críticas aos juros elevados, ao real forte e suas discussões com integrantes da equipe econômica comandada por Palocci o posicionaram como uma pessoa que defende soluções que escorregam do receituário ortodoxo dos mercados financeiros. As declarações do novo ministro de que a política econômica não será alterada foram bem acolhidas, mas insuficientes para afastar uma desconfiança de que seu compromisso com a austeridade fiscal e monetária seja inabalável. Causou particular preocupação entre os investidores a declaração de Mantega de que pretende dialogar com o Banco Central sobre os juros. "Que história é essa de conversar com o BC sobre a Selic?", questionou um investidor da City londrina. "O BC tem uma meta inflacionária a ser alcançada e não pode ficar suscetível a opiniões externas para determinar sua política, isso seria ingerência". A reação negativa dos mercados à escolha de Mantega não foi maior porque prevalece entre os analistas de bancos e fundos estrangeiros a tese de que ele será um ministro-tampão do governo Lula, permanecendo no cargo até o final do ano.

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