Europa pode injetar mais de 1 trilhão de euros em dois anos para salvar bloco

Medida conhecida como Quantitative Easing terá impacto global nos mercados de câmbio

Jamil Chade, correspondente na Suíça, O Estado de S. Paulo

21 de janeiro de 2015 | 14h56

GENEBRA - A Europa pode injetar mais de R$ 3 trilhões na economia do bloco para tentar tirar de forma definitiva a zona do euro da estagnação e evitar uma deflação. Nesta quinta-feira, 22, o Banco Central Europeu se reúne para tomar uma decisão sobre a proposta de usar cerca de 50 bilhões de euros por mês para comprar papéis do tesouro dos governos europeus por pelo menos um ano e numa iniciativa que poderia durar até 24 meses. 

A medida - conhecida como Quantitative Easing - está sendo aguardada por líderes de todo o mundo diante do impacto que promete ter nos mercados de câmbio, no fluxo de dinheiro e no setor financeiro. Sobre a mesa dos xerifes das finanças europeias estará um pacote que prevê a injeção de pelo menos 600 bilhões de euros em um ano e, se a crise continuar, outro tanto em 2016, num total de quase 1 trilhão de euros. 

Em medidas similares adotadas pelos EUA em 2012, o impacto foi global. Críticos alertaram que o dinheiro jamais conseguiu resgatar a economia local e a liquidez, na  prática, inundou mercados emergentes com fundos especulativos. O resultado foi uma desestabilização e a valorização das moedas. 

O governo brasileiro chegou a acusar americanos e europeus de promover uma "guerra cambial" e pediu no G-20 que medidas similares passassem a ser coordenadas. Mas europeus e americanos alertaram que jamais pensaram em afetar os emergentes e apenas estavam defendendo suas economias. 

Se entre os emergentes a medida é vista com temores, já que poderia representar uma pressão sobre suas moedas, dentro da Europa a iniciativa também ainda não é alvo de uma unanimidade. De acordo com a proposta, o BC europeu sugere compartilhar com os 19 BCs da zona do euro os riscos da compra dos papéis dos estados. 

Uma coletiva do presidente do BCE, Mario Draghi, está marcada para ocorrer amanha no início da tarde. O italiano já alertou que fará "tudo o que estiver em seu alcance" para levantar a Europa, bloco que deve crescer apenas 1,2% em 2015, flerta com a deflação e que não consegue conter o desemprego. 

Às vésperas do anúncio, os mercados mostraram volatilidade e o ouro chegou a bater a marca de US$ 1,3 mil pela primeira vez desde agosto. 

Mas dezenas de vozes ontem pela Europa já emitiram seus comentários sobre a proposta. A principal critica vem dos BCs de países em crise que temem o modelo de que o risco seja compartilhado entre os bancos centrais da zona do euro. Na Irlanda, o ministro das Finanças, Michael Noonan, rejeitou a ideia, enquanto na Itália a proposta de compartilhar responsabilidade é vista como um enfraquecimento das medidas. 

Uma das chaves para a decisão de amanhã é da Alemanha, maior contribuinte para o BCE. Berlim quer colocar limites para o compartilhamento de perdas que o programa possa ter. 

A Alemanha foi inicialmente contra a ação do BC, alertando que o socorro poderia dar a impressão a governos como o da Grécia de que todo os pecados seriam perdoados. Não por acaso, a chanceler Angela Merkel alertou que uma iniciativa do BCE não poderia significar o abandono das reformas pelos governos. 

Draghi também indicou que compra de ações pelo BCE se limitaria a papéis específicos e de baixo risco. 

Para o ex-presidente do BC alemão, Axel Weber, a iniciativa do BCE seria apenas "parte da solução". Para ele, o que Draghi está fazendo é apenas "comprando tempo" para permitir que políticos em diferentes países deem uma solução a suas respectivas crises. Para Weber, hoje presidente do banco UBS, existem "questões legítimas" sobre a viabilidade do projeto de moeda única. GJ

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