Eventual recuperação dos mercados tende a ser lenta

Investir na Bolsa exige paciência: como não é uma loteria, o ideal é esperar que as ações tragam lucro no longo prazo, e não no curto. Mesmo assim, é difícil evitar a ansiedade quando a Bolsa passa por períodos turbulentos, de desvalorização das ações, como aconteceu nas últimas semanas. Pois agora a paciência do investidor será mais requisitada do que em anos anteriores. Ao contrário dos ensaios de turbulência externa registrados nos anos de 2004 e 2005, uma eventual recuperação de preços nos mercados emergentes, desta vez, poderá ser mais lenta do que a observada naquelas ocasiões, afirmam gestores de recursos e analistas do mercado financeiro. Em 2004 e 2005, o movimento de preços nos ativos dos emergentes seguiu claramente uma trajetória de "V", ou seja, recuperando em um curto espaço de tempo os níveis registrados antes do período de turbulência. "Esses picos de estresse nos anos passados foram efêmeros. Hoje temos uma mudança que parece ter uma base mais estrutural, na qual vemos diversas economias desenvolvidas com uma política monetária efetivamente mais apertada", explica Fábio Akira, economista do JP Morgan. "Apesar dessa recuperação que estamos vendo agora, ela dificilmente se dará em um formato de V, salvo uma grande surpresa positiva no cenário internacional", reforça Ricardo Simone Pereira, diretor do Multi Commercial Bank. Isso tudo, obviamente, se a recuperação iniciada na semana passada, em resposta a uma sinalização do Federal Reserve (banco central dos EUA) de que os aumentos na taxa de juros americana estão próximos do fim, se confirmar. O que ainda causa dúvidas e, portanto, cautela nas análises. "O que ocorreu nos últimos dias parece um pouco mais uma recuperação lastreada nos fundamentos. Veja o caso das Bolsas: é difícil que elas fiquem negativas ou no zero a zero no acumulado de um ano no qual a economia mundial está crescendo", ilustra o diretor do Multi Commercial, lembrando da recuperação de um importante indicador de atividade em nível global: o índice Nikkey, da Bolsa de Tóquio. Fundamento é o que parece também estar diferenciando os movimentos de preços entre os emergentes. Enquanto países de menor vulnerabilidade externa, como o Brasil, a Rússia ou o México (este último, em pleno processo eleitoral) registram recuperações mais fortes, o mesmo não vem ocorrendo com os mais vulneráveis, como a Turquia, a África do Sul, a Hungria ou a Polônia, que continuam sofrendo tanto nos mercados locais como no mercado global de renda fixa. "Não sabemos ainda se essa recuperação dos preços no Brasil alcançará os níveis de antes da turbulência, mas é fato que estamos sendo beneficiados por essa diferenciação de fundamentos que está ocorrendo entre os emergentes", comenta Akira, do JP Morgan, acrescentando que, no mercado doméstico, apenas o dólar dá mostras de que pode alcançar os níveis observados antes da crise nesse ambiente de recuperação. Apesar das dúvidas sobre a intensidade e a velocidade desse fôlego para os mercados emergentes, que em tese trariam algum senso de urgência para os governos e empresas desses países captarem recursos no mercado externo (em outras palavras, uma janela de oportunidade, que pode se fechar rapidamente), os analistas e gestores consideram difícil uma onda de emissões no curto prazo em virtude dessa pausa no estresse dos mercados. Por três motivos: 1) não há tanta necessidade de recursos por parte dos países ou empresas, que aproveitaram bem o período de forte liquidez interrompido em maio; 2) não há tanta demanda por esse tipo de papel, uma vez que as férias no Hemisfério Norte costumam enfraquecer o apetite dos mercados e; 3) a recuperação é prematura demais para ser considerada uma janela de oportunidade efetiva. "Os meses de julho e agosto são um pouco mais complicados para esse tipo de operação no mercado internacional. E ainda é muito cedo para afirmar que essa mudança de cenário é realmente uma mudança ou apenas uma pausa. O que podemos ver é um aquecimento mais visível a partir do final de agosto, se consolidada essa percepção mais positiva nos Estados Unidos", relata Fábio Solferini, presidente do Banco Standard de Investimentos.

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