VIVIAN LIN/AFP - 17/09/2021
Foto aérea do complexo Evergrande Cultural Tourism City, da incorporadora chinesa Evergrande, que teve a construção paralisada VIVIAN LIN/AFP - 17/09/2021

Evergrande pressionou os próprios funcionários a emprestar dinheiro para salvar a empresa

Para evitar o risco de calote, a incorporadora da China deu duas opções aos seus colaboradores: empreste dinheiro ou perca o bônus do fim do ano; agora os trabalhadores temem não receber o pagamento da dívida

Alexandra Stevenson e Cao Li, New York Times

20 de setembro de 2021 | 17h23

Quando a problemática gigante do setor imobiliário da China, Evergrande, ficou sem dinheiro este ano, ela recorreu aos próprios funcionários e fez uma proposta intimidadora: aqueles que quisessem continuar com seus bônus teriam que fazer um empréstimo de curto prazo à empresa.

Alguns trabalhadores pediram dinheiro aos amigos e familiares para emprestar à Evergrande. Outros pegaram dinheiro emprestado do banco. Então, neste mês, a Evergrande repentinamente parou de pagar os empréstimos, que haviam sido negociados como investimentos a juros altos.

Agora, centenas de funcionários se juntaram a compradores de imóveis em pânico na reivindicação para receber de volta o dinheiro que deram para a Evergrande, reunindo-se do lado de fora dos escritórios da empresa por toda a China para protestar na semana passada.

Outrora a mais rica das incorporadoras imobiliárias chinesas, a Evergrande se tornou uma das empresas mais endividadas do país. Ela deve dinheiro para credores, fornecedores e investidores estrangeiros. Deve apartamentos inacabados para compradores de imóveis e já acumulou mais de US$ 300 bilhões em contas não pagas. A Evergrande enfrenta processos judiciais de credores e viu suas ações perderem mais de 80% de seu valor este ano.

Os reguladores temem que o colapso de uma empresa do tamanho da Evergrande envie tremores por todo o sistema financeiro chinês. No entanto, até agora, Pequim não entrou em cena com um plano de resgate financeiro, tendo prometido ensinar uma lição às empresas gigantes sobrecarregadas com dívidas.

Os protestos raivosos liderados por compradores de imóveis – e agora pelos próprios funcionários da empresa – talvez mudem esse plano.

A Evergrande está em dívida com aproximadamente 1,6 milhão de apartamentos, de acordo com uma estimativa, e talvez deva dinheiro a dezenas de milhares de seus funcionários. Como Pequim continua relativamente em silêncio quanto ao futuro da empresa, aqueles que precisam do dinheiro dizem que estão ficando impacientes.

“Não resta muito tempo para nós”, disse Jin Cheng, 28 anos, funcionário na cidade de Hefei, que disse ter emprestado US$ 62 mil de seu próprio dinheiro para a Evergrande Wealth, o braço de investimento da empresa, a pedido da alta administração.

Enquanto se espalhavam os rumores pela internet chinesa de que a Evergrande talvez declarasse falência este mês, Jin e alguns de seus colegas se reuniram em frente aos escritórios do governo da província para pressionar as autoridades a intervir.

Na cidade de Shenzhen, no sudeste do país, compradores de imóveis e funcionários lotaram o saguão da sede da Evergrande na semana passada e gritaram pedindo seu dinheiro de volta. “Evergrande, devolva meu dinheiro que ganhei com sangue e suor!”, era possível se escutar entre os gritos registrados em uma gravação em vídeo.

Jin disse que os funcionários da Fangchebao, a plataforma online da Evergrande para vendas de imóveis e automóveis, foram informados de que cada departamento tinha que investir mensalmente na Evergrande Wealth.

A Evergrande não respondeu a uma solicitação de comentário, mas a empresa avisou recentemente que estava sob “tremenda” pressão financeira e disse que havia contratado especialistas em reestruturação para ajudar a determinar seu futuro.

A Evergrande cresceu com o boom imobiliário

As coisas nem sempre foram assim. Por mais de duas décadas, a Evergrande foi a maior incorporadora da China, ganhando dinheiro com um boom imobiliário em uma escala que o mundo nunca tinha visto. Após o sucesso no setor, a Evergrande se expandiu em novas áreas - garrafas de água mineral, equipes esportivas profissionais e veículos elétricos.

Bancos e investidores injetaram dinheiro alegremente, apostando na crescente classe média da China e em seu apetite por casas e outras propriedades. Mas, nos últimos tempos, o mercado imobiliário tem estado sob investigação pelos reguladores chineses, que querem dar fim aos animados anos do boom no setor e têm forçado o pagamento de suas dívidas.

A ideia era reduzir a exposição dos bancos chineses ao setor imobiliário. Porém, no processo, os reguladores confiscaram o dinheiro que incorporadoras como a Evergrande precisavam para terminar de construir os imóveis, deixando as famílias sem as casas pelas quais já haviam pago.

“O sistema financeiro chinês é realmente complexo e, quando você vê fissuras como essa, percebe o impacto que isso poderia ter na sociedade”, disse Jennifer James, gestora de investimentos da Janus Henderson Investors.  “Se a Evergrande desaparecesse amanhã, isso poderia ser um problema social generalizado.”

Jennifer e outros investidores disseram que ficaram sabendo da estratégia de gestão de patrimônio da Evergrande envolvendo seus funcionários apenas neste mês, quando a empresa revelou que devia US$ 145 milhões em reembolsos.

A Evergrande tentou vender partes de seu vasto império para conseguir novos fundos, mas disse na semana passada que "não estava segura se o grupo será capaz de consumar tal venda". Ela acusou a imprensa de provocar pânico entre os compradores de imóveis com a cobertura negativa.

Mas os canais de financiamento da Evergrande começaram a secar bem antes da semana passada. De acordo com entrevistas com funcionários, reportagens da imprensa estatal e documentos corporativos vistos pelo New York Times, a empresa começou a forçar os funcionários a ajudarem a resgatá-la já em abril, quando começou a solicitar os empréstimos de curto prazo.

Cerca de 70% a 80% dos funcionários da Evergrande em toda a China foram convidados a emprestar o dinheiro que seria usado para ajudar a financiar as operações da Evergrande, disse Liu Yunting, consultor da Evergrande Wealth, recentemente ao Anhui Online Broadcasting Corp., grupo de comunicação estatal.

Uma versão dessa entrevista foi retirada do ar na sexta-feira. O Anhui Online Broadcasting não respondeu a um pedido de comentário.

A extensão da campanha e quanto dinheiro a empresa talvez tenha arrecadado não estão claros. Os funcionários foram instruídos a investir uma certa quantia de dinheiro em produtos da Evergrande Wealth e que, se não o fizessem, seu pagamento por desempenho e bônus seriam deduzidos, disseram os funcionários ao Anhui.

A gerência da empresa disse que os investimentos eram parte do “financiamento da cadeia de suprimentos” e permitiriam à Evergrande fazer pagamentos aos seus fornecedores, disse Liu em sua entrevista para o Anhui. “Como nós, funcionários, tínhamos de cumprir uma cota, pedimos aos nossos amigos e familiares que investissem o dinheiro”, disse ele.

Liu disse que seus pais e sogros investiram US$ 200 mil e que ele colocou cerca de US$ 75 mil de seu próprio dinheiro na Evergrande Wealth.

Mesmo antes dos protestos da semana passada, a Evergrande já não estava sendo vista com bons olhos por Pequim. No final do mês passado, seus executivos foram convocados para uma reunião com reguladores. Funcionários das principais instituições de fiscalização de bancos e seguros da China disseram aos executivos para darem um jeito em suas altas dívidas com o objetivo de conseguir manter a estabilidade do mercado financeiro da China.

A maior preocupação das autoridades são os apartamentos inacabados da Evergrande. A empresa tem cerca de 800 empreendimentos em andamento em mais de 200 cidades por toda a China.

A Evergrande, que muitas vezes vendeu apartamentos para conseguir dinheiro antes de eles serem concluídos, talvez ainda precise entregar até 1,6 milhão de imóveis a seus compradores, segundo uma estimativa do Barclays.

Sob investigação reforçada, a Evergrande reuniu seus principais executivos no início deste mês e pediu a eles que assinassem publicamente o que chamou de “ordem militar” - uma promessa de finalizar os empreendimentos imobiliários inacabados.

Wesley Zhang e sua família estão entre as centenas de milhares daqueles que ainda estão aguardando por seus apartamentos e esperam que a empresa seja capaz de entregá-los. Zhang, 33 anos, decidiu participar dos protestos com outros compradores de imóveis em Hefei na semana passada, depois de saber que a Evergrande também devia dinheiro aos funcionários.

“Todos estão ansiosos. Somos um pouco como formigas em cima de uma panela quente, sem ideia do que fazer”, disse Zhang, usando uma expressão chinesa para descrever a aflição de ver um investimento de US$ 124 mil provavelmente desaparecer. Ele disse que tinha esperança que os protestos levassem o governo a agir antes que fosse tarde demais.

“Esperamos que isso faça com que o governo central preste atenção suficiente”, disse Zhang. "E que, então, alguém apareça para intervir." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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Temor de calote da chinesa Evergrande derruba bolsas mundiais

Crise da gigante do setor imobiliário na China derreteu o mercado mundial, com perdas de até 2,4% em Nova York; dólar subiu quase 1% e B3 fechou no menor nível desde novembro

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 11h00
Atualizado 21 de setembro de 2021 | 10h56

O medo de um calote da gigante do setor imobiliário chinês Evergrande e potenciais efeitos na economia da China mexeu com índices de todo o mundo nesta segunda-feira, 20, incluindo Nova York. Seguindo o mesmo movimento, a Bolsa brasileira (B3) teve tombo de 2,33%, aos 108.843,74 pontos - no menor nível desde 23 de novembro. Entre as ações, o setor de mineração foi o mais afetado. No câmbio, o dólar foi pressionado e subiu 0,93%, cotado a R$ 5,3312 - maior valor de fechamento desde 23 de agosto.

Hoje, o índice atingiu o menor nível intradia desde de 3 março, ao baixar aos 107.520,14 pontos, queda superior a 3%. Dessa forma, a perda acumulada pelo Ibovespa desde o recorde histórico de fechamento, em 7 de junho (130.776,27 pontos), de quase 22 mil pontos, corresponde agora a 16,77%. Considerando apenas esta segunda-feira, o índice cedeu 2.595 pontos. No mês, as perdas são de 8,37% e no ano, de 8,55%.

Em porcentual, a perda desta segunda-feira foi a pior desde o último dia 8, quando havia cedido 3,78%. De lá para cá, o arrefecimento da crise político-institucional deu lugar a outros desdobramentos, negativos, como a elevação do IOF até o fim do ano e os crescentes receios quanto às consequências de eventual insolvência da Evergrande para a economia chinesa e global.

Em Nova York, índice Dow Jones fechou em queda de 1,78%, o S&P 500, de 1,70% e Nasdaq, de 2,40%. O índice VIX, conhecido por termômetro do medo, chegou a operar com alta acima de 36%. Na Europa, a Bolsa de Londres cedeu 0,79%, Frankfurt perdeu 2,31% e Paris, 1,74%. A Bolsa de Hong Kong fechou em baixa de 3,3% sob efeito da Evergrande, enquanto os mercados acionários da China, do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan não operaram em função de feriados.

O quadro de tensão também pressionou o petróleo hoje. Em Nova York, o WTI para novembro fechou em baixa de 2,34%, a US$ 70,14 o barril, e o Brent para o mesmo mês caiu 1,88%, para US$ 73,92 o barril em Londres.

Temores quanto a um risco sistêmico no setor de construção chinês, e os efeitos para a retomada da segunda maior economia do mundo, mantêm as commodities sob pressão, com o minério de ferro em novo tombo, de quase 9% hoje, a US$ 92,98 por tonelada na China. No dia 8, o minério iniciou série negativa, ainda não interrompida, que se agravaria especialmente a partir do dia 16, quando cedeu 8%, refletindo a piora de percepção sobre a China, visão que já vinha se debilitando há algum tempo com iniciativas regulatórias restritivas em setores como o do aço.

"Durante a maior parte da última década, o mundo se preocupou com o forte aumento da alavancagem líquida e bruta da China", aponta o Barclays, que em relatório a clientes destaca que dos 300 bilhões em passivos detidos pela Evergande, apenas 11,4% são empréstimos bancários.

"Os preços das matérias-primas estão associados à nova política do governo chinês, com relação a metas ambientais, diminuição da produção de aço e desaceleração do setor de construção civil no país", diz Túlio Nunes, especialista de finanças da Toro Investimentos. "Os passivos da incorporadora (Evergrande) giram em torno de US$ 300 bilhões, e as preocupações sobre a alta alavancagem do setor imobiliário chinês ligam o sinal de alerta nos mercados globais. As agências de classificação de risco já reduziram suas notas de classificação para um possível calote", acrescenta Nunes.

Assim, na B3, o setor de mineração e siderurgia esteve, de novo, entre os mais penalizados da sessão, com Vale ON em queda de 3,30% - que superavam 5%, mais cedo - e CSN ON, de 3,09%, também moderada em direção ao fechamento do dia. As perdas entre os grandes bancos chegaram a 3,75% para Bradesco PN no encerramento, enquanto Petrobras ON e PN cederam, respectivamente, 1,06% e 1,12%, após perdas superiores a 3% observadas até o meio da tarde.

Filipe Fradinho, analista da Clear Corretora, observa que o preço do minério de ferro acumula queda de 55% em apenas dois meses, o que afeta diretamente o Ibovespa, pela exposição que o índice tem a commodities - em Cingapura, segundo ele, o minério foi negociado a US$ 92,80 por tonelada. A Evergrande "viu suas ações despencarem 10%, em meio a temores sobre a incapacidade da empresa de pagar sequer uma parte de sua dívida que vence na próxima quintafeira", acrescenta.

"O mercado já abriu hoje em queda acentuada acompanhando os do mundo todo, por conta dos temores sobre possível default da Evergrande, e os impactos que isso teria sobre o sistema financeiro chinês como um todo. Além disso, há postura mais conservadora dos mercados, primeiro, para o início - iminente - do processo de 'tapering' [retirada de estímulos monetários] nos Estados Unidos", diz Bruno Mansur, especialista da Valor Investimentos.

A onda de aversão a ativos de risco vem justamente na semana que abrigará a "Super Quarta" (dia 22), com decisões de política monetária aqui e nos Estados Unidos - o que reforça a cautela no mercado doméstico de câmbio. Para o economista-chefe e sócio da JF Trust, Eduardo Velho, é provável que o Fed sinalize o início da retirada de estímulos no fim do ano (novembro ou dezembro) ou até mesmo no começo de 2022, uma vez que os resultados recentes do payroll, inflação e a variante Delta 'confortam' a ala pró-estímulos do Fed. "A despeito do aumento das vendas do varejo, Fed deve estar preocupado com os reflexos da "desaceleração" chinesa sobre os mercados globais", afirma Velho, em relatório.

Neste contexto desafiador, apenas cinco ações da carteira Ibovespa conseguiram resistir ao malestar geral para fechar o dia em alta: Copel, com ganho de 4,68%, Sabesp, de 1,81%, CVC, de 0,88%, Iguatemi, de 0,40% e Energias BR, de 0,11%. Na ponta negativa do Ibovespa, Braskem cedeu 11,54%, à frente de Via, de 6,74% e de Méliuz, de 5,91%.

A Capital Economics observa, em relatório enviado a clientes hoje, que as repercussões do "caso Evergrande" para o resto do mundo estão crescendo, embora a consultoria avalie que a turbulência ainda não chegou à escala de "sustos" anteriores na China, como a guerra comercial com os Estados Unidos, em 2018 e 2019, ou a desaceleração da economia do país asiático, em 2015 e 2016.

"Pequim provavelmente apoiará o que for necessário para evitar o envio de ondas de choque através de seu sistema financeiro", avalia em nota Edward Moya, analista de mercado da OANDA em Nova York.

 

O Barclays também trata o tema com positividade. "Por mais surpreendente que possa parecer, Evergrande por si só não tem passivos suficientes para representar um risco para o sistema financeiro da China. Mesmo que as autoridades não tomem nenhuma ação para mitigar os efeitos de um default "grave", o que permanece muito improvável, em nossa opinião."

Câmbio

Os negócios no mercado doméstico de câmbio foram pautados nesta segunda pela onda de liquidação de ativos de risco deflagrada pela crise de solvência da incorporadora chinesa Evergrande, que reascendeu temores de risco sistêmico no mercado financeiro global e de desaceleração mais aguda da economia do gigante asiático.

Em movimento típico de fuga para a qualidade, investidores liquidaram posições em mercados acionários e correram para o abrigo do dólar e da renda fixa americana, os Treasuries - as taxas da T-note de 10 anos chegaram a cair mais de 4,5%. As divisas emergentes e de países exportadores de commodities - cujos preços despencaram - caíram em bloco em relação à moda americana. O real, por questões técnicas do nosso mercado e já fragilizado pelos problemas locais, foi quem mais apanhou.

Já em alta desde o início dos negócios, o dólar à vista operou sempre na casa de R$ 5,30. Na máxima, a moeda subiu a R$ R$ 5,3772, em alta de 1,80%. O Credit Default Swap (CDS), derivativo que protege contra calotes e serve termômetro do risco-país, subiu de 180,14 pontos, no fechamento de sexta-feira, 17, para 198,76, segundo dados da IHS Markit. A última vez que o CDS havia trabalhado na casa de 190 pontos foi em 20 de agosto.

No exterior, o dólar teve ganho ante a maioria das moedas. Por sua vez, uma valorização do iene, outra moeda buscada como refúgio, limitou os ganhos do índice DXY, que mede o dólar ante seis rivais, e fechou em alta de 0,09%. Ao final da tarde, o euro ficava perto da estabilidade, com leve alta, a US$ 1,1732, enquanto a libra cedia a US$ 1,3661. Já o dólar se desvalorizava a 109,40 ienes. /LUÍS EDUARDO LEAL, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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Por que a economia da China está ameaçada pelas dívidas da Evergrande

Empresa é a incorporadora imobiliária mais endividada do mundo, com débitos de US$ 300 bilhões, e especialistas alertam para o risco de falência, o que afetaria bancos, investidores e compradores de imóveis 

Alexandra Stevenson e Cao Li, The New York Times

17 de setembro de 2021 | 10h00

De tempos em tempos, uma empresa cresce tanto e de forma desorganizada que o governo fica com medo do que aconteceria com a economia no geral se ela falisse. Na China, a Evergrande, a incorporadora imobiliária em expansão, é essa empresa.

Mas a Evergrande distingue-se por ser a incorporadora imobiliária mais endividada do mundo e tem visto a sua situação piorando cada vez mais há meses. E a chegada de más notícias seguidas nas últimas semanas tem acelerado o que muitos especialistas alertam ser inevitável: a falência.

A agência de classificação Fitch disse esta semana que o default (calote) "parece provável". A Moody's, outra agência de classificação, disse que a Evergrande está sem dinheiro e sem tempo. Ela tem dívidas de mais de US$ 300 bilhões, centenas de edifícios residenciais inacabados e fornecedores furiosos que deram fim aos canteiros de obras. A empresa até mesmo começou a pagar as contas em atraso com a entrega de propriedades inacabadas.

Os analistas estão observando para ver se os reguladores chineses cumprem sua promessa de pôr em ordem o setor privado do país, deixando "bombas de dívidas" como a Evergrande colapsar.

Como a Evergrande se tornou um problema?

Em seus dias de glória, há uma década, a Evergrande vendia garrafas de água mineral, era dona do melhor time de futebol profissional da China e até mesmo se aventurou por um breve período na criação de porcos. Ela se tornou tão grande e vasta que tem até mesmo uma unidade que fabrica carros elétricos, embora tenha atrasado a produção em massa.

Porém, atualmente, a Evergrande é vista como uma ameaça periclitante aos maiores bancos da China.

A empresa, que foi fundada em 1996, aproveitou o épico boom imobiliário da China que urbanizou grandes áreas do país e teve como resultado aproximadamente 75% do dinheiro das famílias sendo destinados à habitação. Isso colocou a Evergrande no centro do poder em uma economia que passou a se apoiar no mercado imobiliário para um crescimento econômico acelerado.

Seu fundador, o bilionário Xu Jiayin, faz parte da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, um grupo de elite de consultores politicamente bem relacionados. As conexões de Xu provavelmente deram aos credores mais confiança para continuar emprestando dinheiro à Evergrande conforme ela crescia e se expandia em novos negócios. Entretanto, depois de um tempo, a Evergrande acabou com mais dívidas do que poderia pagar.

Nos últimos anos, ela enfrentou ações judiciais de compradores de imóveis que ainda estão esperando a conclusão dos apartamentos parcialmente pagos. E fornecedores e credores reivindicaram centenas de bilhões de dólares em contas pendentes. Alguns suspenderam a construção dos projetos da Evergrande.

Por que a empresa está com tantos problemas agora?

A Evergrande poderia ter sido capaz de seguir em frente com as atividades não fosse por dois problemas. Primeiro, os reguladores chineses estão fechando o cerco contra os hábitos imprudentes de empréstimos das incorporadoras imobiliárias. Isso forçou a Evergrande a começar a vender parte de seu vasto império de negócios. E a estratégia não está indo muito bem. Ela ainda não vendeu sua unidade de veículos elétricos, apesar de ter conversado com possíveis compradores. Alguns especialistas dizem que os interessados estão esperando uma liquidação total.

Em segundo lugar, o mercado imobiliário da China está desacelerando e há menos demanda por novos apartamentos. Esta semana, um famoso think tank de Pequim, a Instituição Nacional de Finanças e Desenvolvimento, declarou que o boom do mercado imobiliário “deu sinais de uma reviravolta”, citando a fraca demanda e a desaceleração nos dados de vendas.

Muito do dinheiro que a Evergrande conseguiu angariar veio da venda de apartamentos que ainda não foram finalizados. Ela tem aproximadamente 800 projetos em toda a China que estão inacabados e cerca de 1,2 milhão de pessoas ainda estão esperando para se mudar para suas novas casas, de acordo com uma pesquisa da REDD Intelligence.

A Evergrande reduziu os preços dos apartamentos novos, mas nem isso conseguiu atrair mais compradores. Em agosto, ela realizou 25% a menos de vendas do que no mesmo período há um ano.

As autoridades reguladoras chinesas vão intervir para salvar a Evergrande?

Pequim ficará tentada a dizer “não”, mas um colapso poderia provocar sérios danos, deixando proprietários de imóveis, fornecedores e investidores do país - possivelmente na casa dos milhões - descontentes. E, em última instância, Pequim acabou se mexendo para apoiar outras grandes empresas com problemas gigantes no passado.

Durante anos, muitos investidores deram dinheiro para empresas como a Evergrande porque acreditavam que, no fim das contas, Pequim sempre interviria para resgatá-las se as coisas ficassem muito instáveis. E, durante décadas, os investidores estavam certos. Mas, no decorrer dos últimos anos, as autoridades têm mostrado uma disposição maior em permitir a falência das empresas para controlar o problema da dívida insustentável da China.

As autoridades arrastaram os executivos da Evergrande para uma reunião no mês passado e disseram a eles para dar um jeito com suas dívidas. Elas também continuaram a dizer a seus bancos para reduzirem seus empréstimos à incorporadora.

Como a falência da Evergrande afetaria a economia da China?

Uma campanha do banco central para controlar a dívida imobiliária e reduzir a exposição do setor bancário a incorporadoras com problemas deveria significar que uma falência da Evergrande teria menos impacto no sistema financeiro da China. Mas a realidade talvez não seja tão simples assim.

O pânico dos investidores e compradores de imóveis poderia se espalhar para o mercado imobiliário e atingir os preços, afetando a riqueza e a confiança das famílias. Isso também poderia abalar os mercados financeiros globais e tornar mais difícil para outras empresas chinesas continuarem a financiar seus negócios com investimento estrangeiro. Em artigo para o Financial Times, o investidor bilionário George Soros alertou que um calote da Evergrande poderia causar o colapso da economia chinesa.

Chen Zhiwu, professor de finanças da Universidade de Hong Kong, disse que uma falência poderia resultar em uma escassez de crédito para toda a economia, à medida que as instituições financeiras se tornam mais avessas ao risco. Uma falência da Evergrande, acrescentou ele, "não era uma boa notícia para o sistema financeiro ou para a economia no geral".

Mas nem todo mundo está tão pessimista. Bruce Pang, economista da China Renaissance Securities, disse que um calote poderia estabelecer as bases para uma economia mais saudável no futuro. “Se a Evergrande estiver prestes a dar fim à crença cada vez menor de ‘grande demais para falir para falir’, isso provará a menor tolerância de Pequim para as inadimplências, apesar das dores e dos transtornos no curto prazo”, disse Pang.

Os investidores estrangeiros devem se preocupar?

Os investidores estrangeiros têm para receber US$ 7,4 bilhões em pagamentos de títulos da Evergrande somente no ano que vem. Em vários momentos deste ano, eles entraram em pânico, levando a negociação dos títulos no mercado secundário a novas profundidades. Na semana passada, os títulos de dívidas da Evergrande estavam sendo cotados a 50 centavos de dólar. A negociação de sua dívida estava tão frenética que, em certo ponto, os reguladores pararam brevemente de comercializá-las.

A principal listagem de ações da empresa em Hong Kong perdeu mais de 75% de seu valor no ano passado.

Os investidores estrangeiros estão preocupados com o fato de que, se Evergrande falir, todo o dinheiro que lhes é devido desaparecerá no ar. As autoridades em Pequim sinalizaram que não estão mais dispostas a socorrer os detentores de títulos do país ou estrangeiros. Em qualquer processo de falência, eles estariam no final da lista de credores para conseguir qualquer um dos ativos da empresa chinesa. 

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Ações da Evergrande caem ao menor nível em 11 anos com dívidas de US$ 305 bi

Crise da companhia do setor imobiliário, que tem dívidas de US$ 305 bilhões, preocupa investidores e compradores de imóveis; papéis caíram 10,2% neste segunda

Reuters

20 de setembro de 2021 | 10h51
Atualizado 20 de setembro de 2021 | 11h43

HONG KONG - As ações da gigante chinesa do setor imobiliário Evergrande caíram nesta segunda-feira, 20, para o nível mínimo em 11 anos, à medida que se aproxima o prazo para vencimento de dívidas e crescem os temores de calote.

A Evergrande tem se esforçado para levantar fundos para pagar seus muitos credores, fornecedores e investidores, com os reguladores alertando que seus US$ 305 bilhões em passivos podem gerar riscos mais amplos para o sistema financeiro do país se não forem estabilizados.

A ação da empresa fechou em queda de 10,2%, depois de chegar a cair 19%, para seu menor nível desde maio de 2010. A unidade de gestão de propriedades da empresa caiu 11,3%, enquanto a unidade de carros elétricos perdeu 2,7%. A empresa de streaming de filmes Hengten Net, também da Evergrande, despencou 9,5%.

A desvalorização da empresa afeta as Bolsas de Valores em todo o mundo, inclusive a do Brasil. Em Nova York, o dia começou com forte queda, em parte, por causa dos temores sobre um possível calorte da Evergrande. 

"As ações continuarão caindo porque ainda não há uma solução que pareça ajudar a empresa a aliviar o estresse de liquidez, e ainda há muitas incertezas sobre o que ela fará no caso de reestruturação", disse Kington Lin, diretor de gestão de ativos da Canfield Securities.

Um dos principais credores de Evergrande fez provisões para perdas de uma parte de seus empréstimos para a empresa, enquanto alguns planejam dar mais tempo para pagar, disseram quatro executivos de banco à agência de notícias Reuters.

A incorporadora disse no domingo que começou a reembolsar os investidores de seus produtos de gestão de fortunas com imóveis.

O Banco do Povo, banco central da China e órgão de supervisão bancária do país, convocou os executivos da Evergrande em agosto e alertou que é necessário reduzir seus riscos das dívidas.

A Evergrande tem que pagar US$ 83,5 bilhões em juros na próxima quinta-feira, 23, e tem mais US$ 47,5 bilhões para vencer no dia 29. Ambos os títulos entrariam em default (calote) se a Evergrande não liquidar os juros dentro de 30 dias das datas de pagamento programadas.

Em qualquer cenário de inadimplência, a Evergrande precisará reestruturar os títulos, mas analistas já preveem um baixo índice de recuperação para os investidores.

O estresse também tem pressionado o setor imobiliário mais amplo, bem como o iuan, a moeda chinesa, que caiu para uma mínima de três semanas de 6,4831 por dólar. As ações da Sunac, quarta maior incorporadora imobiliária da China, caíram 10,5%, enquanto a Greentown China, apoiada pelo Estado, caiu 6,7%.

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