Ex-diretores da Sadia e do ABN Amro pagam multa nos EUA

O ex-diretor financeiro da Sadia Luiz Gonzaga Murat Junior e o ex-funcionário do banco ABN Amro Real Alexandre Ponzio de Azevedo fecharam acordo com a Securities and Exchange Comission (SEC, responsável pela fiscalização do mercado de ações norte-americano) e pagarão, juntos, US$ 364 mil em penalidades. Os dois são acusados de usar informações privilegiadas, que não eram de acesso público, para negociar ações em Nova York quando a Sadia tentou comprar a Perdigão, em julho do ano passado.A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) brasileira informou ontem que um investidor confessou ao órgão ter usado informação privilegiada durante a tentativa da Sadia de adquirir a rival Perdigão. Segundo fontes, o executivo seria Romano Ancelmo Fontana Filho, sobrinho do fundador da Sadia, Attilio Fontana. O executivo substituiu Luiz Fernando Furlan quando este afastou-se da presidência do Conselho de Administração para assumir o Ministério do Desenvolvimento. Fontana Filho renunciou ao cargo em dezembro do ano passado. A CVM também investiga Murat e Azevedo.O anúncio do acordo nos EUA foi feito ontem pela SEC. Murat e Azevedo fecharam o acordo sem admitir ou negar qualquer irregularidade. Os acordos fechados entre os executivos e a SEC ainda precisam ser aprovados por um tribunal.Murat aceitou devolver US$ 184.028 e pagar multa de US$ 180.404. Ele também ficará cinco anos sem atuar como executivo ou diretor de uma companhia aberta. Azevedo devolverá US$ 68.215, pagará multa de US$ 67.156 e permanecerá pelos menos três anos sem trabalhar em corretoras, determinou a SEC.Os valores que serão ?devolvidos? estão relacionados ao lucro irregular que ambos tiveram com a compra de ações. A SEC acusou Murat de comprar ações da Perdigão logo depois de um encontro com banqueiros, em 7 de abril de 2006. A reunião era sigilosa e tratou da oferta da Sadia pela Perdigão. A proposta só se tornaria pública três meses depois. Segundo a SEC, Murat ligou para seu corretor depois da reunião e deu ordem para comprar ações da Perdigão. No dia seguinte, ele comprou mais papéis.As ações compradas por Murat se valorizaram 21%, para US$ 24,50, logo após o anúncio da oferta, em 16 de julho. Ainda segundo a SEC, Murat vendeu parte dos papéis às 13h50 do dia 21 de julho, 5 horas depois de a Perdigão rejeitar a segunda oferta e 25 minutos depois de a Sadia anunciar que revogaria definitivamente a proposta.Já Azevedo soube da possível oferta em 11 de abril de 2006, quando foi designado pelo ABN Amro para participar da montagem da operação financeira da oferta. Em junho, Azevedo comprou 14 mil American Depositary Shares (ADS) da Perdigão e vendeu 10,5 mil logo depois de a Sadia anunciar a proposta, sempre segundo a SEC.Murat deixou a diretoria financeira da Sadia em outubro, quando o assunto veio à tona. Ontem, o diretor de relações com investidores, Weston Teixeira - que assumiu parte das atribuições de Murat na empresa -, afirmou que o episódio foi um caso isolado.Segundo ele, o comportamento irregular do diretor configura-se um ato pessoal e não indica falhas no modelo de governança corporativa da Sadia. ?Não foi uma falha no nosso modelo, foi um ato isolado?, disse. Segundo ele, não existe um modelo infalível. ?Casos isolados fogem de qualquer controle?, disse.Segundo o jornal O Estado de S.Paulo apurou, Azevedo foi demitido do ABN Amro em agosto, quando o banco descobriu seu envolvimento no escândalo. Azevedo fez carreira no banco, atuava como gerente de produtos estruturados, mas não era o coordenador da operação.Em nota oficial, o ABN Amro informa que ?possui políticas e mecanismos internos para coibir o uso de informações privilegiadas por seus colaboradores. No caso em questão, tomou as medidas necessárias tão logo teve conhecimento sobre o descumprimento de tais políticas envolvendo um ex-funcionário.? A reportagem do jornal não conseguiu localizar os acusados.

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