Existe risco de nova crise nos EUA, diz Eichengreen

Para professor da Universidade da California, os mercados podem estar exagerando no otimismo

Luciana Xavier, da AE Broadcast,

11 de setembro de 2009 | 15h31

O economista americano Barry Eichengreen acreditaque os mercados podem estar exagerando no otimismo em relação à recuperação dos Estados Unidos e que o risco de um novo mergulho na recessão não pode ser descartado. Eichengreeen é professor de Economia e Ciência Política na Universidade da Califórnia, Berkeley , pesquisador do National Bureau of Economic Research (NBER) e foi consultor Fundo Monetário Internacional (FMI). É também autor de vários livros, entre eles, "Globalização do Capital" e "Crises Financeiras".

 

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Em entrevista à jornalista Luciana Xavier, do AE Broadcast Ao Vivo, o economista lamentou que o presidente Barack Obama tenha priorizado uma reforma no sistema de saúde do país e não uma reforma financeira, que poderia proteger melhor a economia de novas crises. Para ele, está claro que o Brasil conseguiu aprender com crises anteriores, mas tem dúvidas se os Estados Unidos e a Europa conseguirão aprender com a crise atual.

 

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

 

Agência Estado - O senhor compartilha do otimismo dos mercados com relação à recuperação dos Estados Unidos?

 

Barry Eichengreen - Temo que o mercado esteja se precipitando. Há sinais de que a economia dos Estados Unidos esteja se estabilizando. A produção em vários setores tem crescido e as vendas de imóveis novos e usados têm aumentado. Mas me preocupo com duas coisas. Primeiro, com os gastos no varejo. Se o consumidor não voltar a gastar, toda a produção adicional que está ocorrendo no momento irá para estoques e as empresas terão de fazer novamente cortes na produção. Em segundo lugar, estou preocupado com o mercado imobiliário. Há um subsídio para os que vão comprar casa pela primeira vez, que irá expirar em novembro, e as vendas de casas podem cair de novo. Esses são os dois elementos que podem gerar um duplo mergulho na recessão. Não estou fazendo uma previsão, mas estou preocupado com isso.

 

AE - Não temos visto recentemente grandes instituições financeiras com tantos problemas como os que vimos nos piores momentos da crise. Mas muitos pequenos bancos nos EUA ainda estão falindo. Como está a saúde do sistema bancário no momento?

 

Eichengreen: Me preocupo que não sejam apenas os pequenos bancos, mas talvez alguns dos grandes bancos que estejam pouco capitalizados. Lembre-se de que nos testes de estresse foi exigido que os bancos levantassem apenas US$ 75 bilhões em capital, enquanto o Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros observadores imparciais sugeriram que US$ 250 bilhões seriam mais apropriados. Então, há razões para se preocupar com mais defaults não apenas nos empréstimos para casas, mas em imóveis comerciais e cartões de crédito. Mais problemas no setor bancário podem estar a caminho.

 

AE - O que resta ser feito para evitar um duplo mergulho na recessão?

 

Eichengreen: Acho que o Fed, o Congresso e a administração Obama já se deram conta que não há muito mais a ser feito nesse estágio. Não há mais apoio público para um segundo estímulo fiscal. Nós, como economistas, podemos dizer ser seria boa ou má ideia, mas não acho que (outro estímulo fiscal) irá acontecer. Não há mais apoio público ou político. Tudo o que podemos fazer a partir de agora é não sair muito rapidamente das políticas de estímulo existentes. É importante que o Fed não comece a subir os juros muito cedo. É importante que nos fixemos no plano de estímulo existente e, para além disso, o que realmente podemos fazer é ter esperança. Talvez se tivermos alguma ajuda do resto do mundo - crescimento forte da China, Índia, Rússia e Brasil - isso ajudaria os Estados Unidos também.

 

AE- O senhor acha que o dólar irá perder mais seu valor e está preocupado com o enfraquecimento da moeda?

 

Eichengreen - Venho prevendo a fraqueza do dólar há mais de cinco anos e continuo prevendo isso (risos). Acho que todos os fundamentos apontam para um dólar mais fraco. Agora que o consumidor americano está gastando menos, os Estados Unidos têm de exportar mais e um dólar mais fraco ajuda a tornar isso possível. Agora que está transbordando todo esse déficit do governo, alguém vai ter que comprar isso e um dólar mais fraco é parte do que torna isso possível também. Acho que um dólar fraco é uma das cartas que está na mesa agora. Porém, um dólar mais fraco principalmente em relação às moedas dos países emergentes e não tanto com relação ao euro. Isto porque os países europeus têm todos os mesmos problemas que os Estados Unidos.

 

AE- A Organização das Nações Unidas (ONU) defende uma moeda global no lugar do dólar. O senhor enxerga essa necessidade e o que mudaria com uma moeda global?

 

Eichengreen - A ideia de uma moeda global é de que haveria mais disciplina em países como os Estados Unidos, que conseguiram ter déficits externos tão grandes porque nós, os Estados Unidos, temos o privilégio exorbitante de sermos um fornecedor de reservas para outros países. (...) A ideia de uma moeda global é eliminar esse privilégio exorbitante. Mas não acho que vá acontecer porque isso iria exigir de alguma entidade, como as Nações Unidas ou o FMI, distribuir essa moeda na quantidade que os mercados internacionais necessitassem. Se for exigido das Nações Unidas ou do FMI agir mais como um banco central, acho que não há chance de se realizar (a moeda global) tão cedo.

 

AE - O senhor vê a possibilidade de moedas como o yuan e o real fazendo parte da cesta de moedas internacionais junto com dólar, euro e libra?

 

Eichengreen - A primeira regra para se fazer previsões é "dê uma projeção ou dê uma data, mas nunca dê os dois ao mesmo tempo" (risos). Então a resposta é sim, acho que isso é possível. Mas não sei quando. Acho que os chineses estão seriamente empenhados em fazer da moeda deles uma moeda internacional. E sei que a Rússia e o Brasil têm falado sobre a mesma coisa. Mas chegar lá será um longo e trabalhoso processo. Vai levar de 10 a 20 anos para construir mercados financeiros profundos e com a liquidez que tem de existir para fazer com que a moeda de um país seja atraente aos estrangeiros. Será preciso fazer de Xangai e São Paulo centros financeiros internacionais comparáveis aos de Nova York e Londres.

 

AE - O senhor acredita que veremos as importantes reformas no sistema financeiro global ou há o risco de elas serem esquecidas uma vez que a situação se acomode?

 

Eichengreen - Há esse risco e cada vez mais eu lamento a decisão da administração de Obama de ir adiante com a reforma na saúde. Acho que deveriam ter focado na reforma financeira enquanto todas memórias da crise ainda estão frescas. E o comunicado que tivemos do encontro do G-20 é muito amplo, com princípios gerais, mas que não estão no caminho de ações concretas.

 

AE - Isso significa que poderemos ter uma nova crise nos próximos anos?

 

Eichengreen - Sabemos pela história que cedo ou tarde haverá outra crise. O que queremos fazer é tentar evitar crises que podem ser evitadas e evitar repetir erros cometidos no passado recente.

 

AE - O Brasil foi menos atingido por esta crise, ao contrário de outras crises. O senhor acha que os países desenvolvidos têm uma lição a aprender também?

 

Eichengreen - Não há dúvida de que os emergentes aprenderam com crises anteriores. Eles aprenderam sobre a importância de um câmbio flexível, aprenderam sobre disciplina fiscal e de sistemas bancários mais fortes. Os Estados Unidos e a Europa vão aprender a mesma coisa? Bem, temos que ter esperança de que irão. (...) Nós sabemos quais são as lições, mas se teremos habilidade política para agir a partir dessas lições, isso é uma outra história.

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