Família briga pela Perdigão

"Me senti indignada. A Justiça é muito morosa." Essa foi a reação de Maria Odete Bandalise Bonato, de 62 anos, a filha do meio de Saul Brandalise, fundador da Perdigão, quando viu nos jornais a oferta pública de R$ 3,7 bilhões feita pela Sadia para comprar a Perdigão na semana passada.Desde 1997, ela briga na Justiça contra os irmãos Saul e Flávio Brandalise e os fundos de pensão para anular a venda da companhia realizada em 1994 pelos outros herdeiros, segundo ela, sem a sua autorização. Os fundos detêm hoje 49,8% da empresa. Ela quer ser ressarcida dos danos.Na época, o negócio saiu por US$ 150 milhões. "Não recebi nenhum centavo. Nunca assinei nada", diz Maria Odete. Ela reivindica a participação de 16% no total das ações da empresa, que correspondem a uma terço da metade herdada do pai, explica um de seus advogados,Oswaldo Chade."Hoje vejo a Perdigão sendo negociada por um valor estratosférico." Segundo Maria Odete, os fundos não se preocuparam em verificar se todos os sócios da Perdigão compareceram ao ato da venda, pois estavam sendo beneficiados pelo fato de o preço de aquisição estar abaixo do valor de mercado.Desde que ingressou com o processo na Justiça, Maria Odete não teve mais contato com os irmãos. "Nossa relação é praticamente inexistente." Ela conta que quase entrou em depressão. "Tenho vergonha de ter acontecido isso na minha família, mas acho que tenho o direito de reivindicar o que é meu."Ela conta que tinha uma ligação afetiva muito forte com o pai e a empresa. "Quando falava pouco com meu pai eram três vezes ao dia por telefone", lembra. "Meu pai desejava que todos os filhos recebessem partes iguais de seu patrimônio, mas isso não aconteceu."AcordoPersonagem central na recuperação da empresa, o fundador da Weg e atual presidente do Conselho de Administração da Perdigão, Eggon João da Silva, explica que a venda da empresa fez parte de um acordo avalizado por toda a família Brandalise. Em 1993, quando a Perdigão estava atolada em dívidas, Eggon que integrava o conselho de administração da empresa, foi chamado a assumir a direção da companhia. A Weg tinha 10% das ações da Perdigão.Eggon aceitou o convite, mas impôs uma condição: a família seria obrigada a assumir o compromisso por escrito. Era, diz ele, a única saída para uma situação falimentar. "O compromisso moral era a venda. E não abri mão disso", conta Eggon. A condição foi cumprida.Segundo ele, todos os membros da família assinaram uma carta na qual aceitavam vender o grupo. "Não me recordo agora se a Maria Odete assinou, preciso consultar a carta, mas tenho certeza que a maior parte da família havia assinado concordando com a venda."ProcessoEsta semana mais um capítulo do litígio familiar foi escrito. O desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, Jaime Vicari, aceitou o pedido de Maria Odete para reintegrar os fundos de pensão (Previ, Petros, BNDES/Fapes, Previ/Banerj, Fundação Sistel e Real Grande) ao processo até que seja decidida por sentença a validade da venda da Perdigão, diz o advogado Paulo Lucon. Uma decisão anterior da Justiça havia excluído os fundos do processo.Já o advogado dos fundos e da Perdigão, Carlos Steiner, tem uma interpretação diferente. "Houve simplesmente a suspensão do processo em primeira instância, até que a decisão de saída dos fundos seja confirmada em segunda instância", diz Steiner. Saul e Flávio não foram encontrados para falar sobre o processo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.