Fed pode estar pagando preço por corte de juro excessivo

Para Wilber Colmerauer, da Liability em Londres, o BC dos EUA terá que endurecer o discurso contra a inflação. "Mas na prática ele não deve fazer muita coisa", afirmou

Luciana Xavier e Daniela Milanese,

18 de julho de 2008 | 14h52

O Federal Reserve (Fed) pode estar pagando o preço por ter sido muito agressivo nos cortes de juros, avaliou Wilber Colmerauer, sócio da corretora Liability Solutions em Londres e diretor da Câmara de Comércio Brasileira no Reino Unido, ao comentar o resultado salgado do CPI de junho. O CPI subiu 1,1% em junho ante maio, na maior alta mensal desde junho de 1982 e acima das estimativas de alta de 0,7%. O núcleo do CPI, que exclui preços de energia e alimentos, subiu 0,3%, acima da previsão de alta de 0,2%. "É um número alto, recorde. No curto prazo, os números vão continuar sendo ruins e isso vai gerar reações negativas no mercado", analisou.Ouça a entrevista "O Fed optou por baixar a taxa de juros significativamente para tentar resolver o problema na área de crédito tendo como conseqüência um possível aumento de inflação lá na frente. Na verdade, o excesso de liquidez está provocando um pouco de inflação", disse. De setembro a abril deste ano o Fed derrubou os Fed Funds em 3,25 pontos porcentuais, de 5,25% para 2%, para fazer frente à crise iniciada no setor de hipotecas imobiliárias de segunda linha (subprime). Na reunião de junho, o BC dos EUA decidiu por deixar os juros estáveis.Colmerauer acredita, no entanto, que a inflação deve arrefecer junto com a desaceleração da economia e conseqüente queda no consumo. "No médio prazo, os fatores recessivos continuam presentes e isso talvez seja a melhor forma para controlar a inflação", comentou.Segundo o Departamento de Trabalho dos EUA, a renda média real semanal dos assalariados norte-americanos caiu 0,9% em junho, ajustada pela inflação, o que pode ser sinal de que o salário do trabalhador não está seguindo o ritmo de alta de preços.Colmerauer acrescentou que os números de desemprego mostram um nível alto, mas não sinalizam que o desemprego irá aumentar ainda mais. "O repique inflacionário tende a se estabilizar e até diminuir. No curto prazo, há pressões inflacionárias importantes e no médio, há o risco de recessão", disse.Para o economista, diante do risco de recessão, o Fed não deverá subir o juro este ano. "O Fed optou por uma estratégia mais de risco. Agora vai ter um discurso cada vez mais duro, deixando claro que se realmente a inflação ameaçar fugir do controle eles vão atuar, mas na prática ele não deve fazer muita coisa, pois a perspectiva de recessão talvez seja mais importante nesse momento".BancosPara Colmerauer, o pior da crise financeira nos Estados Unidos não passou e mais bancos poderão apresentar problemas e mesmo quebrar nos próximos meses. "Existem ainda muitos papéis em poder dos bancos que não têm liquidez e o nível de imóveis que está sendo tomados continua crescendo", disse.Colmerauer lembrou que as ações dos bancos norte-americanos caíram muito desde agosto do ano passado e que os bancos tiveram que emitir ações a preços muito baixos para se recapitalizar. Ele disse que vários analistas projetam que a carteira dos bancos nos EUA chega a US$ 5 trilhões e que cerca de US$ 1 trilhão ainda poderá ser ajustado para baixo. "Só isso vai ocasionar algumas quebradeiras", disse.Por isso, Colmerauer acha que o governo norte-americano faz bem em reforçar que há solidez no sistema financeiro, como fez ontem em seu discurso o presidente George W. Bush, numa tentativa de acalmar os investidores diante de rumores sobre a possível quebra de vários bancos regionais nos EUA."Nunca vi um presidente dizer que o sistema financeiro de seu país não é sólido. E o sistema é sólido no sentido de que eles não vão deixar quebrar. Isso é um ponto quase de honra dentro do governo. O problema é quanto eles vão ter que gastar de dinheiro de impostos para segurar esse sistema", avaliou."A área de crédito é uma área crucial onde os problemas não atuam de forma dramática, mas de forma crescente e num prazo muito maior. Nós ainda estamos vendo os desdobramentos da crise que começou com o subprime. É um problema difícil de resolver", afirmou. Segundo ele, a recuperação do setor pode levar um a dois anos.EuropaAlém dos temores com a economia norte-americana, a posição da Europa também é preocupante, avalia Colmerauer. "A situação da Europa, como um todo, não é boa", afirmou. Segundo ele, há um risco recessivo grande na Inglaterra, país considerado uma espécie de laboratório para o que acontece nos Estados Unidos.Assim como nos EUA, a Inglaterra se depara com um cenário de desaceleração econômica, estouro da bolha imobiliária e inflação. O Banco da Inglaterra (BoE) já chegou a reduzir os juros no meio da crise, mas a pressão dos preços fez a autoridade monetária adotar postura mais conservadora e partir para a manutenção. Atualmente os juros ingleses estão em 5% ao ano.Para Colmerauer, o BoE pode até elevar os juros em pequena escala, para sinalizar sua atenção com a inflação. No entanto, a perspectiva de desaceleração econômica fará o BC inglês a voltar a reduzir as taxas em 2009, acredita.Outro fator que complica o panorama para a Inglaterra é o sistema financeiro, que também a exemplo do americano passa por problemas. Os bancos ingleses estavam muito expostos ao subprime, situação que atingiu o ápice com o colapso do Northern Rock no ano passado, instituição financeira que acabou nacionalizada."A Espanha também preocupa bastante, após anos de boom", disse. Apesar de o sistema financeiro espanhol estar mais equilibrado, a área imobiliária também passou por exageros e hoje sofre retração. Para ele, a economia da Espanha também está entrando num "sistema recessivo".Complica a situação o fato de o Banco Central Europeu (BCE) ter optado por elevar os juros para combater a inflação. Na reunião deste mês, o BCE elevou o juro em 0,25 ponto porcentual para 4,25%. "A Espanha não tem o benefício de um banco central próprio do seu país, o que é uma conseqüência da adoção do euro." O especialista prevê que o BCE pode aumentar a taxa em mais 0,25 ponto porcentual apenas, exatamente pelo posicionamento mais complicado das economias.

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