Fed quer resolver tudo com juro baixo e dinheiro fácil

Para o analista Bill Fleckenstein, parte da culpa pela crise de crédito nos EUA pode ser imputada ao banco central americano

Luciana Xavier e Patricia Lara,

08 de março de 2008 | 14h18

O presidente do Federal Reserve, Ben Bernanke, está claramente tentando fazer alguma coisa para amenizar a crise nos Estados Unidos. A questão é que há pouco a ser feito, na avaliação de Bill Fleckenstein, presidente da administradora de recursos de Seatlle que leva seu nome. Para ele, parte da culpa pela crise de crédito atual pode ser imputada ao banco central americano e não serão cortes agressivos de juros que mudarão completamente o cenário.  - Ouça entrevista com Bill Fleckenstein "É uma falácia do Fed, de (Alan) Greenspan (ex-presidente do Fed) e de Bernanke, achar que podem resolver todos os problemas com juro baixo e dinheiro fácil. Mas é preciso entender que há problemas que levam tempo para serem resolvidos", afirmou. Para o executivo, Bernanke não tem conseguido manejar as expectativas de mercado com seus discursos simplesmente porque "ele não é aquele que vai consertar" a situação atual de uma crise que há muito ultrapassou o setor de hipotecas imobiliárias subprime.  Fleckenstein disse que Wall Street tem evitado lidar com a real situação dos EUA. Segundo ele, quando surgiram os primeiros problemas no setor de hipotecas subprime, há cerca de um ano, houve uma tentativa de provar que os problemas estavam contidos e restritos àquele setor.  "Eles não entenderam que era uma bolha de crédito que iria ter impactos em todos os tipos de hipotecas, chegando ao prime. Diante desses problemas, pensar que a economia ficaria ok foi uma fantasia. Continuar pensando que a qualquer minuto tudo vai ficar melhor é uma fantasia (...) A realidade é que houve uma bolha imobiliária, que era enorme, e agora que ela estourou temos dívidas ruins em todas as instituições financeiras e consumidores com dívidas ruins. E casas perdendo o valor. É uma receita para uma recessão bem severa. Wall Street parece estar negando isso e estar vivendo uma fantasia", comentou.  Dólar - O executivo disse que o dólar pode continuar a cair e que qualquer país que queira uma moeda forte poderá ter sucesso contra o dólar. A moeda tem batido mínimas históricas ante o euro e também se desvalorizado ante outras moedas do mundo, como o real.  "Parece que o Federal Reserve está empenhado na absoluta e total destruição do dólar. Eles acreditam que devem tentar assegurar crescimento econômico a qualquer custo. Eles não se dão conta de que com uma política de estabilidade de preços e moeda forte há mais chances de atingir o objetivo de gerar empregos. Eles já disseram que vão baixar os juros, seja como for, para melhorar a economia. Eu não sei até onde o dólar pode chegar. É aterrorizante pensar nisso", avaliou.  AAA - Os problemas com as seguradoras de bônus dos Estados Unidos, as monolines, não parecem perto de uma solução, na opinião de Fleckenstein. Um dos entraves, segundo ele, está em fazer de conta que essas empresas continuam sendo "AAA", a melhor classificação que se pode obter de uma agência de rating. "É ilusório achar que Ambac e MBIA são AAA, quando elas não o são", avaliou, referindo-se às duas principais monolines dos EUA.  Segundo Fleckenstein, uma empresa que paga 14% para tomar dinheiro emprestado e cujos juros de dívidas estão acima de 13,5%, como é o caso da MBIA, não pode ser considerada AAA. "As agências de rating são praticamente uma piada. Elas (monolines) não estão nem perto de ser AAA", comentou.  O executivo disse também suspeitar que a ajuda oferecida por oito bancos à Ambac funcionará. Os bancos liderados pelo Citigroup e UBS estão juntos preparando uma injeção de US$ 2 bilhões ou mais na monoline, que vem correndo para trazer mais capital e evitar um corte profundo em seu rating AAA.  Segundo ele, as agências de rating não têm a mínima idéia do que está ocorrendo hoje no mercado de crédito dos EUA. "Creio que começarão a não focar mais no que as agências dizem e acho que elas se tornarão menos relevantes no futuro", disse.  Fleckenstein disse ainda esperar uma recessão longa e severa nos EUA, que pode durar dois anos ou mais e que estaria mais próxima ao formato da letra "L", o que levaria a crer que ela pode ser mais prolongada do que se imagina.

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