Figueiredo: economia real deve sofrer pouco com crise externa

É preciso uma crise bem maior nos EUA para que no Brasil o impacto seja grande, na opinião do ex-diretor do BC

Luciana Xavier e Vinícius Pinheiro,

15 de fevereiro de 2008 | 16h00

Apesar de haver volatilidade no mercado de ativos por causa da crise nos Estados Unidos, há descolamento do Brasil do lado financeiro e do lado real da economia, na avaliação do ex-diretor de Política Monetária do Banco Central e sócio-diretor da Mauá Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo. "O lado real da economia, com taxa de câmbio tranqüila, deve sofrer pouco. É preciso uma crise bem maior nos EUA para que aqui o impacto seja grande, mas esse não é o cenário mais provável", disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.  Ouça entrevista Segundo Figueiredo, os fundamentos do Brasil têm mantido a economia e o sistema financeiro mais protegido. "Ninguém é imune, mas os canais de contágio estão mais frágeis. Na medida em que a economia real mostra solidez, a tendência dos ativos é voltarem a preços mais razoáveis", comentou.  Figueiredo afirmou ainda que não existe dúvida de que as ações no Brasil estão muito baratas, uma vez que a aversão a risco está alta. "A dúvida é se é o momento de compra. Minha visão é de que tem que comprar ações quando elas têm valor. O mercado da dívida brasileira, por exemplo, tem valor. Com a volatilidade intensa não é momento para tomarmos grandes riscos, mas para aproveitar ativos em preço de liquidação", analisou o ex-diretor do BC.  Inflação O resultado da inflação medida pelo IPCA em janeiro confirmou a tendência revelada por outros índices de que os preços estão se acalmando após os choques nos meses anteriores, segundo Figueiredo. Além da inflação corrente, o sócio da Mauá destacou a melhora nas expectativas dos agentes expressa da pesquisa Focus, que vêm apresentando estabilidade ou um pequeno recuo. Outro dado importante para avaliação da recuperação do mercado é a redução da inflação implícita nos títulos públicos, que chegou a projetar 5,3% e agora está por volta de 4,6%. O ex-diretor do BC avaliou que o cenário mais provável é de estabilidade na taxa básica de juros ao longo do ano. Ele argumentou que a desaceleração econômica internacional e a estabilidade na taxa de câmbio deverão reduzir o ímpeto de alta dos preços. "Além disso, a maturação dos investimentos reduzirá os receios de que a demanda doméstica seja maior do que a oferta", considerou.  EUA Ao contrário de vários analistas, o ex-diretor de Política Monetária do Banco Central acredita que os Estados Unidos ainda não estão em recessão, mas reconhece que aumentou a probabilidade de isso ocorrer. "O momento ainda é de muita incerteza", disse. Segundo ele, as incertezas estão tanto no setor financeiro quanto na economia real.  Figueiredo elogiou a atuação do Federal Reserve (Fed) até agora e disse que os cortes realizados foram "apropriados". "O Fed sem dúvida precisa ser agressivo", disse. O que significa dizer que na avaliação do ex-diretor do BC, o Fed deve continuar com cortes de juros este ano para "melhorar as condições" da economia e minimizar as perdas trazidas com a crise do subprime. "Ficou claro que o Fed não está para brincadeira e vai fazer o que for necessário", comentou. Ele disse ainda que a inflação hoje não é preocupação e sim a desaceleração da economia.  Um novo corte deve vir na reunião de março, segundo ele, que evitou falar sobre a magnitude dos próximos cortes e por quanto tempo ainda deve durar o afrouxamento monetário.  Monolines As monolines, as seguras de bônus dos Estados Unidos, podem ser a vítima da vez da crise iniciada no mercado de hipoteca imobiliária subprime. Figueiredo chamou atenção para os riscos envolvendo essas seguradoras, onde boa parte dos bônus é municipal e serve para financiar a construção de estradas, hospitais e escolas.  "Há muita incerteza com as monolines. Um downgrade de uma monoline pode gerar outra leva de prejuízos", comentou. A maior parte das monolines é classificada como "AAA" pelas agências de risco e entre as mais importantes estão a Ambac Financial Group, MBIA e FGIC.  Em janeiro deste ano, a Ambac teve seu rating rebaixado de "AAA" para "AA" pela Fitch Ratings. A Moody´s e a Standard & Poor´s colocaram a Ambac e a MBIA "em observação". Até então, nenhuma seguradora de bônus tinha sido rebaixada ou falida desde a criação da primeira delas, a própria Ambac em 1971.  O temor de que uma crise maior nas monolines torne mais distante ainda o fundo do poço da crise do subprime e deixe a economia mais próxima da recessão fez com que o megainvestidor Warren Buffett oferecesse, no dia 12 de fevereiro, ajuda de até US$ 800 bilhões em bônus municipais para as seguradoras de bônus Ambac, MBIA e FGIC.  A proposta foi rejeitada pela Ambac, mas de qualquer forma serviu para trazer ânimo aos mercados. "A oferta de Buffett mostra que há como acomodar a questão. Existe demanda para essas empresas", afirmou. Segundo ele, mais investidores, como o Soros Funds e bancos americanos, poderão anunciar ajuda semelhante.

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