Fitch: Há fatores chaves para rating do Brasil

Após a decisão da Standard & Poor's nesta semana de elevar a classificação do Brasil para "BB", a atenção dos mercados se voltou para as outras duas agências, a Moody's e a Fitch, cujas notas conferidas ao Brasil ainda estão um degrau abaixo. A expectativa de boa parte dos investidores é que as duas agências também deverão melhorar o rating do Brasil muito em breve. Numa entrevista exclusiva a Agência Estado, o diretor da Fitch responsável pela classificação soberana brasileira, Roger Scher, obviamente evitou fornecer indícios de quando isso poderá acontecer. Ele explicou que a perspectiva "positiva" conferida pela Fitch à nota brasileira "BB" significa, em termos técnicos, que ela tem uma possibilidade de ser elevada ao longo dos próximos dois anos superior a 50%. A Fitch colocou a perspectiva da nota brasileira em "positiva" em outubro do ano passado, pouco antes da S&P fazer o mesmo e a Moody's anunciar um upgrade. "Desde então, vemos uma melhora sustentada da qualidade do crédito do Brasil, mas há alguns fatores que precisam ser monitorados", disse Scher. Um dos pontos mais importantes para a nota brasileira, segundo ele, é o aspecto fiscal. "Desde outubro, houve resultados fiscais muito bons, mas há indicações de que os gastos aumentaram", disse. "E houve um aumento grande no salário mínimo, que vai alargar o déficit na previdência social, além do fato de que haverá pressões de gasto neste ano eleitoral." Scher observa "que poderá não ser tão fácil neste ano" atingir a meta de superávit primário 4,25% do PIB. "Acreditamos que a meta será atingida, mas ela não será superada como nos anos anteriores. A continuidade da política fiscal sólida será fundamental." Scher observa que o comportamento do balanço de pagamentos continua sendo muito positivo, com as exportações superando as expectativas da própria agência. "Ficamos também muito impressionados com o gerenciamento da dívida. Houve o pagamento junto ao FMI e a recompra da dívida externa, entre outras coisas. O serviço da externa caiu e isso é positivo", disse. "Mas as reservas disponíveis para lidar com um choque externo foram reduzidas." Scher ressalta também que o crescimento do PIB em 2005 foi baixo, inferior à expansão mundial. "Em outubro, a taxa de juro real estava em torno de 14% e agora está um pouco acima dos 12%", disse. "A briga contra a inflação tem sido razoavelmente exitosa e, com a possibilidade de queda da Selic nos próximos meses, as taxas reais também poderão declinar, o que será bom para o crescimento e um fator positivo para o País. Vamos aguardar a reunião do Copom na próxima semana." Segundo Scher, os indicadores do Brasil melhoraram, mas em sua maioria ainda são piores do que a média dos países classificados pela agência com a nota "BB", um nó acima da do Brasil. Como exemplo, ele citou que a dívida bruta do governo está em torno dos 72% do PIB, enquanto a média dos países "BB" fica entre 40% e 50% do PIB. "O crescimento econômico do Brasil também está abaixo da média dos 'BB'", disse. Grau de investimento é desafio Na avaliação de Scher, para o Brasil atingir o "grau de investimento" - três notas acima da atual conferida pela agência - num prazo de dois anos, como alguns analistas prevêem, muito ainda terá de ser feito. "O desafio é grande. Para atingir o grau de investimento, é necessária uma melhora muito maior na dinâmica da dívida, superávits primários maiores, talvez através de limitação de gastos, crescimento maior do PIB, talvez outra reforma na previdência e uma reforma trabalhista", disse. "As limitações externas são muito menores agora." Outro requisito para o "grau de investimento", acrescentou, seria a autonomia do Banco Central. Como exemplo, ele citou o caso do México. "O México tem um BC autônomo. Se o candidato de esquerda, Andrés Obrador, ganhar a eleição presidencial deste ano e começasse a fazer confusão na política fiscal, o BC, cuja diretoria tem um mandato até 2009, subiria os juros", disse "Todo mundo sabe que pressões inflacionárias serão contidas no México. No Brasil, o BC tem gerenciado muito bem a política monetária e esperamos que isso continue. Mas o próximo presidente poderia trocar toda a diretoria do BC em janeiro de 2007." O analista afirma que em termos de arrecadação tributária, o Brasil tem um desempenho superior a muitos países melhores classificados. "Mas os impostos já são tão altos no Brasil que qualquer aumento maior não seria positivo para crescimento econômico", disse. Scher observou que a eleição presidencial, embora não seja vista como um fator de maior risco na avaliação da Fitch, também não é um fator irrelevante. "Estamos vendo um debate sobre a política fiscal, com gente no próprio PSDB falando que o País pode ter superávit primário menor, juros menores, porque Lula teve elevá-los por falta de credibilidade junto aos mercados", disse. "Isso é preocupante, pois o Brasil precisa política fiscal sólida."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.