Foco do BC é impedir congelamento da liquidez, diz Moody´s

'A inflação parece sob controle e a atividade está sendo olhada indiretamente', disse Mauro Leos

Luciana Xavier, da Agência Estado,

20 de fevereiro de 2009 | 19h30

O foco do Banco Central no momento é impedir o "congelamento" do crédito, garantindo a liquidez no mercado financeiro, disse o vice-presidente sênior para América Latina da agência de classificação de risco Moody's, Mauro Leos, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. "A inflação parece sob controle. Não quer dizer que não estejam olhando para a inflação, mas a inflação não parece que irá gerar problemas maiores nem requerer ações agressivas do BC. E, atividade, por sua vez, está sendo olhada, mas indiretamente. O foco do BC parece estar mais no funcionamento do mercado doméstico e em evitar mais problemas adicionais gerados pela restrição de crédito", disse.  Ouça a entrevista Segundo ele, é importante ver como o Banco Central e o Ministério da Fazenda estão lidando com a crise, embora admita que seja muito difícil no momento para qualquer BC adotar medidas que evitem um "declínio significativo" da atividade econômica. "É extremamente difícil para qualquer país evitar ser atingido pelas notícias negativas. Há um colapso global dos mercados financeiros e os números claramente mostram que houve um significativo declínio na atividade econômica da região (América Latina), particularmente na produção no quatro trimestre de 2008", disse. Para Leos, "é altamente provável" que haja uma recessão técnica no Brasil, com PIB negativo no quatro trimestre de 2008 e primeiro trimestre de 2009, mas ainda é difícil os riscos de o crescimento do País ser zero ou negativo no ano. Leos disse projeta para este ano o crescimento do PIB do Brasil de 1%, mas admite que possa ser menor que isso. Para América Latina, a expectativa é de estagnação da economia, com PIB perto de zero, com teto em +1% e piso em -1%. Rating - Leos disse que a agência agiu bem ao não elevar o rating do Brasil no ano passado. O Brasil está classificado pela Moody's um degrau abaixo do grau de investimento, com nota Ba1, enquanto para as demais agências o Brasil já é grau de investimento. Leos acredita que a Moody's não deixou passar uma oportunidade de elevar a nota de rating soberano do País e garante que a agência está "confortável" com a classificação atual. "Houve uma melhora significante das contas externas, dívida externa, liquidez externa, mas o progresso não foi tão substancial no lado fiscal. O mais importante, no entanto, é que não sentimos que seria a melhor decisão de dar um upgrade ao Brasil durante o pico do ciclo", explicou. Leos disse que, particularmente, na primeira metade do ano passado, o mundo ainda vivia o final de um longo período de abundância em termos de crescimento, preços das commodities e liquidez. "Embora houvesse sinais de crise nos Estados Unidos e outros países, as condições de um modo geral ainda eram favoráveis. Agora estamos vendo agora é o outro lado da moeda e podemos ter uma noção melhor da força dos fundamentos da economia brasileira e da habilidade do País em lidar com problemas como os atuais", afirmou. Segundo o executivo, no início do ano passado, falava-se muito em descolamento do Brasil e também da expectativa de o País poder crescer de 4% a 5% "facilmente" nos próximos anos. "Está claro agora que não veremos mais PIB de 4% ou 5% e a questão é se não haverá crescimento nenhum ou mesmo crescimento negativo. As condições mudaram radicalmente em questão de meses. Estamos num ciclo negativo e foi bom não ter tomado a decisão (de upgrade), pois este será um importante teste para o País." Leos deixou claro que é pequena a chance de o Brasil ter upgrade este ano pela Moody's, simplesmente pelo fato de que não é comum que isso ocorra com um país em tempos de crise. "É possível (upgrade) desde que haja confiança de que a maior parte dos choques foi absorvida e de que não haverá surpresas adicionais lá na frente", disse. Para Leos, é "uma avaliação correta" dizer que não é impossível, embora pouco provável que o Brasil seja visto ainda este ano como grau de Investimento. Estagnação - Os investimentos estrangeiros diretos (IED) na América Latina deverão cair de 30% a 40% este ano, na estimativa de Mauro Leos. Segundo ele, 2009 será um ano de "estagnação" na região. "Todos passarão por tempos difíceis, mas aqueles que fizeram a lição de casa antes da crise podem se sair melhor no final", disse. No topo da lista de quem tem chances de sair com menos danos deste turbilhão global, segundo Leos, está o Chile. Brasil, Peru e Colômbia, que estão um patamar abaixo da classificação de grau de investimento, enfrentarão dificuldades, mas sem complicações maiores no sistema financeiro. Embora não seja possível prever quais os países se sairão melhor, Leos disse que o Brasil parece estar entre os que estão em "melhor forma" em comparação a outras economias latino americanas. "É prematuro fazer projeções. Só teremos elementos suficientes para tanto a partir do meio do ano, quando já teremos atingido o pior. Mas diria que, de um modo geral, os países da região estão bem posicionados", explicou. A exceção estaria em países como Argentina, Venezuela e Equador. "Mas esses já estão com rating baixo", observou. Leos reforçou que 2009 será um ano difícil para o mundo como um todo e que 2010 tende a ser um pouco melhor, mas ainda com crescimento global abaixo do potencial. "Levará muito tempo para que haja uma recuperação real".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.