Fundos socialmente responsáveis ainda crescem pouco no País

Apesar das iniciativas recentes, os fundos socialmente responsáveis - que aplicam em ações de empresas preocupadas em conciliar retorno financeiro com respeito ao acionista, à sociedade e ao meio ambiente - ainda são pouquíssimos no Brasil. Desde que o primeiro foi lançado, em 2001, surgiram apenas mais cinco em meia década. O patrimônio desses seis produtos soma R$ 380 milhões, o que corresponde a apenas 1,3% da indústria de fundos de ações abertos no mercado nacional, de R$ 28,5 bilhões. ?Algumas explicações para o limitado crescimento são o desconhecimento dos investidores em relação aos produtos e a falta de uma regulação específica, que existe em outros países?, disse Pedro Villani, gestor do ABN Amro Real. ?Também falta um histórico consistente de bom desempenho do mercado acionário?, acrescentou Alexandre Zákia, diretor de produtos de investimento e clientes institucionais do Itaú. Para se ter uma idéia do tamanho ainda reduzido dos investimentos socialmente responsáveis no Brasil, basta olhar para outros países. Em nações desenvolvidas, o volume de recursos movimentado por esses produtos é bem superior. Nos Estados Unidos, tais carteiras têm patrimônio de US$ 2,3 trilhões, o que corresponde a 9,4% de todos os ativos administrados no país, segundo a Nelson Information´s Directory of Investment Managers, empresa de acompanhamento da indústria de fundos norte-americana. De acordo com dados compilados pelo Itaú, com base em fontes dos países de origem, os investimentos socialmente responsáveis (ISR) na Europa somavam cerca de US$ 434 bilhões em junho do ano passado. Na Austrália, o patrimônio desse segmento atingia US$ 5,4 bilhões na mesma ocasião, e, no Canadá, US$ 56 bilhões. Os mercados emergentes, contando o Brasil, possuem atualmente cerca de US$ 2,7 bilhões em investimentos socialmente responsáveis. Para o superintendente de Renda Variável do Itaú, Walter Mendes, a responsabilidade social que deve nortear as atividades empresariais tem, basicamente, três pilares: boas práticas sociais (relacionamento saudável da companhia com funcionários, fornecedores, clientes e comunidade); proteção ao meio ambiente; e boas práticas de governança corporativa (transparência na divulgação de informações, conselho de administração independente e respeito aos direitos dos acionistas). De acordo com ele, as empresas que seguem tal modelo apresentam riscos inferiores às demais, pois estão menos expostas a processos trabalhistas, ambientais e problemas de imagem, por exemplo. ?Assim, as ações tendem a apresentar maior potencial de valorização no longo prazo, devido ao reconhecimento pelo mercado?, afirmou. Os fundos socialmente responsáveis buscam comprar ações dessas empresas e aproveitar a possibilidade de valorização dos papéis. No Brasil, a existência de tais fundos é muito recente. Os dois primeiros - Ethical I e II - foram lançados pelo Banco ABN Amro Real em novembro de 2001. Para o gestor do ABN Pedro Villani, o desconhecimento em relação ao produto ainda é um fator que limita o crescimento do segmento. ?O mercado vai se desenvolver à medida que aumentar a conscientização do investidor?, disse. ?E os fundos de pensão deverão puxar esse movimento, ao lado dos investidores de varejo?, complementou. Outro fator que restringe a expansão dos fundos socialmente responsáveis no País, segundo Villani, é a falta de regulamentação específica. Na Holanda, Inglaterra e Suécia, por exemplo, existem regras incentivando esse tipo de investimento, e o mercado é bem desenvolvido. Para ele, a regulamentação não é algo que deve acontecer no curto prazo no Brasil. ?Isso vem com o tempo, com o amadurecimento do mercado?, avalia. Apesar das boas perspectivas para o segmento, o gestor do ABN não esconde certo desapontamento com o desempenho do patrimônio do Ethical. ?Os fundos cresceram bastante, pois começaram a operar com volume de R$ 3 milhões e hoje já têm R$ 140 milhões. Mas acreditávamos que o patrimônio poderia ser pelo menos o dobro.? Em rentabilidade, a performance é bastante positiva. Os fundos renderam 250% de novembro de 2001 a junho de 2006, já descontada a taxa de administração. O Ibovespa subiu no período 224%. Os dois fundos do ABN Amro são iguais em carteira, mas diferentes em taxa de administração, pois um volta-se para o varejo e o outro para investidores de porte. ?Ao escolher as ações que vão compor a carteira, levamos em conta não apenas o retorno potencial dos papéis, mas a sustentabilidade da empresa?, disse o gestor. A seleção elimina desde logo companhias fabricantes de fumo, bebidas alcoólicas, energia nuclear, armamento, jogos de azar e pornografia. O Itaú Excelência Social foi o terceiro fundo socialmente responsável do País, lançado em fevereiro de 2004. Trata-se do produto com o maior patrimônio: R$ 212 milhões em junho. Para o diretor de produtos de investimento e clientes institucionais do Itaú, Alexandre Zákia, o crescimento desse tipo de fundo depende, além da conscientização do investidor, do bom comportamento ou, no mínimo, de boas perspectivas para o mercado de ações. ?A redução dos juros é positiva, pois diminui o apetite dos investidores por renda fixa e aumenta a demanda por renda variável.? Ele acredita que o crescimento dos produtos socialmente responsáveis está ligado, inclusive, à expansão da própria indústria de fundos de ações no País. Em junho deste ano, as carteiras de ações correspondiam a 7,1% do total de recursos administrados no Brasil, enquanto em países de primeiro mundo o porcentual é superior a 50%, segundo ele. ?A história de juros altos no mercado nacional sempre desestimulou o investimento em renda variável. A falta de governança corporativa era outro fator de desestímulo, mas que já melhorou muito?, disse. Segundo Zákia, o fundo do Itaú é classificado como ético por investir apenas em ações de empresas com governança corporativa diferenciada, o que se traduz em respeito aos funcionários, clientes e acionistas, compromisso social e cuidado com o meio ambiente. Também se classifica como social por doar metade da taxa de administração a projetos sociais. Um conselho formado por institutos como Ethos, Itaú Cultural e Ayrton Senna escolhem os projetos a serem beneficiados. ?Neste ano, estimamos financiar de 10 a 15 empreendimentos.? De acordo com o executivo, mesmo com o forte desempenho do mercado acionário no ano passado, o fundo começou a decolar apenas em agosto de 2005. ?Demorou a crescer como qualquer fundo de ações. O investidor espera um pouco para ver o desempenho?, disse. Para Zákia, isso deve acontecer no País como um todo. ?Com o sucesso de algumas carteiras socialmente responsáveis, o setor deve se expandir?, complementou. Para selecionar as empresas participantes do fundo, o Itaú fez um questionário e enviou às companhias. Das que responderam, o banco escolheu as que seriam elegíveis ao investimento. A partir dessa lista, optou pelas que possuíam maior potencial de retorno. O Bradesco é outro banco que possui um fundo socialmente responsável, mas com características diferentes dos demais. O Bradesco ISE é um produto que tem como benchmark o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Bolsa de Valores de São Paulo, enquanto os do ABN e do Itaú têm carteiras próprias. Segundo o diretor de Renda Variável da Bradesco Asset Management (Bram), Herculano Aníbal Alves, por manter o ISE como benchmark, o fundo deve ter, no mínimo, 67% da composição do índice da Bovespa. Lançado no final de dezembro, pouco depois do ISE, o fundo alcançou em seis meses patrimônio de R$ 20,3 milhões. O desempenho é bem próximo ao do ISE. Enquanto o fundo rendeu 6,90% até a semana passada, líquido de taxa de administração, o índice da Bolsa subiu no período 7,40%. ?É um desempenho favorável, tanto em patrimônio como em rentabilidade, tendo em vista a volatilidade da Bolsa há mais de dois meses?, avalia. O produto da Bram volta-se a investidores de alta renda, do chamado segmento Prime. O HSBC e o Banco do Brasil são as outras instituições que têm fundos referenciados no Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa.

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