G-20 fecha acordo e define indicadores dos desequilíbrios globais

Membros do grupo estabeleceram parâmetros para medir as disparidades econômicas entre os países

Daniela Milanese, enviada especial da Agência Estado,

21 de fevereiro de 2011 | 09h05

Depois de muita polêmica e debate, os ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do G-20 conseguiram chegar a um acordo para tentar resolver os desequilíbrios globais. Os membros do grupo estabeleceram parâmetros para medir as disparidades econômicas entre os países.

No entanto, como havia muita discordância, alguns pontos foram deixados em aberto para negociação futura. O comunicado divulgado sábado à tarde, em Paris, usou conceitos mais amplos para abarcar pontos de divergência.

A parte mais difícil foi escolher os indicadores que medirão os desequilíbrios causados pelo elevado superávit da China e o grande déficit dos Estados Unidos. É claro que cada país pressionou para incluir ou tirar da lista os critérios que mais lhes convinham.

Ao final, ficou definido que, do ponto de vista interno, serão usados a dívida pública e o déficit fiscal. Na questão externa, será avaliada a conta corrente, "levando em consideração o câmbio e as políticas fiscal e monetária".

A frase não define especificamente de que forma isso será feito e a ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, foi questionada diversas vezes sobre o significado dos termos.

Na prática, esse foi o jeito de conseguir a concordância da China, que se opunha fortemente à inclusão do câmbio como um fator de discrepância econômica, já que mantém o yuan desvalorizado. A taxa de câmbio representou a maior polêmica das discussões e acabou tratada não como um indicador específico, mas como um ponto a ser observado na medicação dos desequilíbrios.

Após a reunião do G-20, o Brasil acabou revelando que é a favor da inclusão do câmbio na discussão, algo que não havia sido apresentando explicitamente até então. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, recusou alinhamento com os Estados Unidos contra a política de desvalorização chinesa, ao afirmar que não existe apenas um país responsável pelos desequilíbrios globais. Entretanto, ficou claro que a estratégia para segurar o yuan baixo incomoda.

Mantega disse que ficou satisfeito com o acordo do G-20, por contemplar os pontos que o Brasil defendia. Além de trazer a menção ao câmbio defendida pelo País, as reservas internacionais foram descartadas como um parâmetro para avaliação dos desequilíbrios globais. Também como o País queria, os quesitos servirão como recomendações aos países e não serão metas compulsórias. "O Brasil não cedeu em nada, tudo que está aí interessa ao Brasil", disse Mantega.

Esse foi o primeiro passo para a tentativa de solução dos problemas. Nos próximos encontros, os membros do G-20 buscarão atrelar números indicativos a cada critério escolhido, que funcionarão como um termômetro do grau de desequilíbrio dos países.

Commodities

O ministro comemorou ainda a decisão do G-20 sobre as commodities. A França vinha defendendo a imposição de regras para segurar os preços dos alimentos e encontrou oposição do Brasil. Prevaleceu uma posição satisfatória ao País, de que deve haver mais transparência no mercado de derivativos.

O debate sobre a regulação do mercado de matérias-primas acabou adiado e nenhuma iniciativa foi tomada pelo G-20 para a administração internacional de estoques de alimentos.

Fluxo de capital

O G-20 manteve a aprovação para medidas de contenção de fluxo de capital pelos países que vêm sofrendo com a apreciação de suas moedas. A avaliação já havia sido definida na reunião de cúpula realizada em novembro, em Seul, mas chegou a ser questionada durante as negociações do encontro ministerial realizado no último final de semana, em Paris.

Chegou-se a falar sobre a introdução de regras e limites para as medidas adotadas por emergentes. Mantega se posicionou contra as iniciativas e defendeu que cada país deve decidir o que fazer, até porque o Brasil não abriria mão de definir sua política.

No final, o comunicado do G-20 trouxe a indicação de que os países trabalham para fortalecer o sistema monetário internacional, incluindo "medidas para lidar com os fluxos de capital potencialmente desestabilizadores", como medidas macroprudenciais.

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