Gasto do BC com reservas no trimestre soma R$ 10,8 bi

O aumento das reservas internacionais nos últimos anos deixou o Brasil menos vulnerável aos humores e oscilações do mercado financeiro internacional. Acumular reservas, no entanto, tem um custo, que é mais alto quanto maior o volume de divisas, e por isso essa política começa a ser olhada com maior preocupação por analistas independentes e avaliada com mais cuidado pelo próprio governo. Economistas ouvidos pelo jornal O Estado de S.Paulo, no entanto, concordam que a estratégia ainda vale a pena. Para eles, apesar do impacto fiscal provocado pela aquisição de dólares no mercado, o resultado obtido em termos de melhora na capacidade de o Brasil enfrentar eventuais crises externas é mais importante e deixa o saldo desse balanço positivo para o País. Em 2002, o Brasil chegou a ter reservas de apenas US$ 16 bilhões. Hoje são US$ 57,56 bilhões. A opinião dos analistas coincide com a do secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall. Quinta-feira, na Câmara dos Deputados, ele afirmou que, embora esteja se iniciando uma preocupação com o custo dessa política de acumulação de reservas, no cálculo da relação custo/benefício o Brasil ainda está obtendo ganhos, por causa da dramática queda no risco de insolvência do País. O custo de acumulação das reservas é medido pela diferença entre a taxa de juro que o governo paga ao comprar dólares - uma vez que para fazer isso é necessário captar recursos no mercado interno, pagando os elevados juros vigentes - e o que ele recebe ao aplicar essas divisas no exterior, onde as taxas são mais baixas. Além disso, deve-se levar em conta a variação da taxa de câmbio. No primeiro trimestre de 2006, o Banco Central teve um custo de manutenção das reservas de R$ 10,8 bilhões, de acordo com balanço publicado em abril. Para o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da PUC de São Paulo, a política de acumulação de reservas está correta e o custo pago por isso é um mal necessário. "Um país que não tem moeda forte, como o Brasil, tem de acumular reservas. O benefício claro disso é a redução da vulnerabilidade externa, que sempre impediu o crescimento e a estabilidade econômica", disse, lembrando que países que hoje crescem fortemente, como China, Índia, Rússia e Coréia, têm reservas muito elevadas. Mas ele avalia que esse custo poderia ser menor, se o juro no Brasil fosse mais baixo. "O que está errado é a taxa de juro, que deixa o custo alto. A política de reservas está correta, o que precisa mudar é o juro", afirmou. O diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, concorda. "Esse custo poderia ser menor se a taxa de juro caísse." Para Almeida, no entanto, o preço pago pelas reservas vale pela tranqüilidade que traz para o futuro do País e também porque, com as compras de dólares, o governo está evitando uma valorização ainda maior do real, que traria graves prejuízos para a economia. "Se o BC parar de intervir no câmbio, a economia real acaba. Sem as compras de dólares, a moeda iria parar onde? Em R$ 1,80? Isso acabaria com a indústria brasileira, destruiria a agricultura competitiva."

Agencia Estado,

07 de maio de 2006 | 10h04

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