Goldfajn: BC é ativo, mas ajuda fiscal é bem-vinda

O ex-diretor do BC defende corte de gastos do governo e disse não ver maior sintonia entre BC e Fazenda

Luciana Xavier, Célia Froufe e Denise Abarca,

19 de junho de 2008 | 16h55

A política monetária no Brasil tem sido ativa e o principal instrumento de combate à inflação, mas algumas medidas poderiam ajudar o Banco Central nessa tarefa, disse Ilan Goldfajn, sócio-diretor da Ciano Investimentos, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central e professor da PUC-RJ.  - Ouça entrevista com Ilan Goldfajn "Qualquer ajuda de política fiscal é bem-vinda. Não só no aumento do superávit primário, mas na contenção de gastos. Mas esse tipo de medida não tem sido a favorita do governo nos últimos anos. Há aumento de gastos acima da inflação", avaliou o executivo em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. Segundo ele, um corte de gastos pelo governo seria eficiente no combate à inflação, enquanto outras medidas, como congelamento de preços, recentemente adotado pelo México, só a reprimiriam. "O que o México fez foi simplesmente tampar a panela de pressão. Mas o fogo está ligado. É preciso medidas que deixem o vapor sair enquanto também se desliga o fogo", comentou. Goldfajn disse não ver uma maior sintonia agora entre Banco Central e Ministério da Fazenda no combate à inflação. "Tenho dúvidas pelo histórico, que não tem sido favorável. Mais provável, infelizmente, é que a política monetária desempenhe o grosso do combate", afirmou. Por outro lado, o ex-diretor do BC acredita na preocupação do governo em relação à alta de preços. "Lula tem se mostrado preocupado com a inflação e um bom sinal do Brasil em relação ao resto do mundo. O Brasil parece ter uma preocupação maior com a inflação do que outros países. Acho que a gente tem uma aversão maior da inflação". Para Goldfajn, medidas de cautela contra inflação como aumento da exigência do capital aos bancos podem estar sendo estudadas pelo governo para serem adotadas. Segundo ele, isso permitiria um crescimento mais criterioso do crédito "para que a qualidade não se deteriore e não tenhamos solavancos nos futuro". Teto O sócio-diretor da Ciano avalia que a inflação tende a ficar dentro da meta, entre 6% e 6,5% este ano. Isso porque ele espera uma desaceleração da inflação no segundo semestre, embora não descarte a possibilidade de o IPCA romper o teto de 6,5% da meta.  "Há uma possibilidade de passar sim, mas não diria que é um risco fora do comum", afirmou. Para 2009, a expectativa é de inflação em 5%, mas contempla a chance de um resultado pior, caso o cenário inflacionário não se acomode nos próximos meses. Goldfajn admitiu ter sido surpreendido pelos números mais recentes de inflação. "Acho que segundo trimestre costuma ser benigno e contribui positivamente para a inflação. O que aconteceu neste trimestre é que ele não foi comportado. A inflação veio forte e acho que de fato, no conjunto, este trimestre surpreendeu negativamente. Não posso dizer pelo BC, mas o mercado como um todo teve uma surpresa", disse. O executivo elogiou a atuação do BC na condução da política monetária e acredita que o Copom irá o ritmo de alta de 0,50 ponto porcentual da Selic. "Temos que reconhecer que o BC foi o primeiro a dizer que no quadro atual há uma demanda forte que poderia levar a aceleração da inflação. O BC tem sido coerente ao longo do tempo, está se comportando de forma serena e, a princípio, o ritmo que o BC escolheu parece adequado. No entanto, fiquei pessoalmente surpreendido com os últimos números (de inflação) e acredito que se continuar assim não é descartada a possibilidade de mudança de ritmo para 0,75 pp", avaliou o ex-diretor do BC. Para Goldfajn, o ciclo de aperto monetário irá se encerrar com a Selic em 15%, provavelmente em 2009. Repasse - Para o ex-diretor de política econômica do Banco Central na gestão de Armínio Fraga, o aperto monetário é uma maneira de evitar o repasse de preços do atacado para o varejo e disse que os repasses de curtíssimo prazo, decorrente de choques de preços, são difíceis de serem combatidos.  Segundo ele, é preciso evitar a espiral inflacionária de salário e preços. "Um ponto relevante daqui para frente será ver se não haverá reajuste de salário na tentativa de compensar o aumento de preços", disse. Goldfajn afirmou que o relatório trimestral de inflação do Banco Central, que será divulgado no final do mês, "não será boa notícia". "Ele vai mostrar que um segundo trimestre ruim. A projeção (IPCA) para o final do ano deve ter aumentado e para 2009 também, por causa da inércia".  Goldfajn comentou também que a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), que no dia 30 de junho, discute a fixação da meta de inflação para 2010, o ano da sucessão de Lula. "Parece razoável manter o nível atual de 4,5%", disse. Para o ex-diretor do BC a tendência é de redução da meta, mas diante da inflação (o CMN) "vai ter que adiar um pouquinho", ainda que considere que "em 2010, a inflação pode estar resolvida". Segundo ele, o importante será evitar ruídos como do ano passado por causa de declarações divergentes sobre a meta entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. "Eles têm que conversar e decidir no conselho, não na imprensa Em suas projeções, Goldfajn disse ainda que espera que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil fique em 5% este ano e desacelere um pouco em 2009. Ele admitiu também que o dólar poderá ficar abaixo de R$ 1,60 no curtíssimo prazo.  China - Ao falar do Brasil e demais emergentes, Goldfajn disse que "o Brasil é a cara-metade da China". Segundo ele, o Brasil tem o que o resto do mundo precisa, commodities, e isso tem sido especialmente bom na relação com a China. "Isso faz com que os dois países atinjam importância maior no mundo", disse. Além disso, o Brasil tem se mostrado mais eficaz no combate à inflação que outros países, salientou o ex-diretor do BC. "O Brasil tem se comportado melhor (em relação à inflação) e isso dá certo otimismo", avaliou.

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