Governo busca saídas para o dólar

O governo está preocupado com os efeitos do dólar barato sobre a economia, mas não sabe bem o que fazer. Esse dilema ocupa a área econômica pelo menos desde 2005, mas se complicou na semana passada, quando a cotação ficou abaixo dos R$ 2,10 e desencadeou debates sobre novos mecanismos para conter a queda. O problema econômico ganhou contornos de crise política quando integrantes do PT de dentro e fora do governo aproveitaram a deixa para atacar a atuação do Banco Central (BC), vista como o último bastião da ?era Palocci?. O principal problema do dólar barato, do ponto de vista do Ministério da Fazenda, é o efeito sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Os setores exportadores têm seus custos de produção em reais, mas as receitas em dólar. Por isso, enfrentam dificuldades quando a cotação cai. Em 2006, a produção industrial cresceu 2,8%, ante 3,1% em 2005. O encolhimento foi concentrado nos setores exportadores. O governo não tem claro o que fazer, além do instrumento tradicional, que é o BC comprar a moeda disponível no mercado e a taxa de juros continuar em queda, reduzindo a atratividade do mercado brasileiro para o capital externo. Na sexta-feira, o BC anunciou que abrirá uma consulta, esta semana, sobre o interesse de bancos e corretoras por outro instrumento utilizado recentemente, o swap cambial reverso - um contrato que produz o efeito de compra de dólares pelo governo. Sobre medidas novas, sabe-se apenas o que não será feito: não será abandonado o câmbio flutuante, não haverá medidas para conter a entrada de dólares nem maior abertura comercial para estimular a importação e a demanda por moeda estrangeira. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, disse ao Estado que o governo analisará medidas cambiais, desde que não beneficiem só um ou outro setor. Ele acha que mudanças devem ser analisadas com cuidado, pois o dólar barato tem vantagens. A principal é proporcionar às empresas brasileiras a possibilidade de renovar o parque produtivo com máquinas importadas. Trindade Impossível Para o professor Paulo Nogueira Batista Júnior, o Brasil vive as ?dificuldades da abundância?. Se no final dos anos 90 o problema era a escassez do fluxo externo para o País, hoje é o excesso de dinheiro no mercado internacional, que acaba vindo para o Brasil. O ingresso dos recursos reduz o risco país e atrai mais dinheiro. O dilema do governo, explica ele, está nos livros de economia como o ?teorema da trindade impossível?. Ele descreve um triângulo imaginário no qual um lado é o controle do câmbio, outro é a autonomia na administração dos juros e o terceiro, a livre movimentação de capitais. Pelo teorema, os governos têm de escolher dois lados. É impossível ter os três ao mesmo tempo. O Brasil, diz ele, vem operando com a livre movimentação de capitais e a autonomia monetária. Por isso, o lado cambial fica fora do controle, admitindo apenas medidas para suavizar seu comportamento. Para o ex-diretor do BC Emílio Garofalo, da EBS Capital, há uma imprecisão no diagnóstico mais comum sobre o problema do câmbio, que teria origem na Selic elevada. O problema, afirma ele, é o juro pago na ponta pelas empresas e pessoas físicas, no qual a Selic é apenas um componente, com os impostos, os custos e os ganhos dos bancos. É essa taxa na ponta, elevada, que atrai dólares. ?O Banco Central e a Receita Federal deveriam entrar em entendimento com os bancos e achar um esquema para reduzir o juro ao empresário?, defendeu. Esse quadro faz com que empresas brasileiras tomem dólares emprestados no exterior, a título de antecipação de exportações, e tragam a moeda ao Brasil para utilizar, por exemplo, como capital de giro. ?Dessa forma, elas tomam recursos por 6% e substituem um capital de giro que custaria 40% num banco brasileiro.? As taxas elevadas permitem ganhos também na importação. ?A empresa compra DVDs na China para pagar daqui a dois anos. Traz o DVD, vende, aplica o dinheiro por dois anos e depois paga o chinês.?

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