Governo está um passo atrás no combate à crise, diz Bresser

Segundo o ex-ministro da Fazenda, o Brasil está atrasado especialmente na demora em baixar os juros e também por manter a indexação de contratos

Luciana Xavier e Lucinda Pinto, da Agência Estado,

20 de março de 2009 | 17h53

O governo brasileiro está um passo atrás no combate à crise, avaliou o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, ex-ministro da Fazenda do governo de José Sarney. "É um passo atrás principalmente por causa da taxa de juros e porque (o governo) não está aproveitando para fazer reformas, como a desindexação dos contratos. Além disso, está tentando aumentar os gastos no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas não é fácil, não se faz de um dia para outro", disse. Sobre a questão de indexação de contratos, Bresser disse que se trata de um problema "escandaloso".

 

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Já na esfera da política monetária, Bresser avalia que o governo deixou de cortar juros por causa do otimismo em relação ao quadro de crise global. "O governo no ano passado aumentou a taxa de juros. E foi o governo que aumentou. Essa história de que o Banco Central é independente é bobagem. O governo aumentou a taxa de juro quando todo mundo está cortando e só voltou a baixar agora em janeiro, o que é lamentável. No mais, o governo tomou uma série de medidas adequadas. Diminuiu impostos, aumentou o crédito do Banco do Brasil e do BNDES. Talvez devesse ter sido mais agressivo nessas políticas. Mas não creio que tenha feito erros graves, a não ser no caso das taxas de juros", analisou.

 

Bresser elogiou a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de cortar a Selic em 1,50 ponto porcentual, para 11,25% ao ano na última reunião. "Em economia, nada é irreversível. (...) O BC está atrasado, mas, afinal, foi uma boa notícia eles terem resolvido baixar a taxa de juro de maneira clara e bem forte. Se continuarem reduzindo (a Selic) desse jeito, isso é muito bom para a economia brasileira e poderá ser um fator importante para que o Brasil não tenha uma recessão este ano", afirmou.

 

Segundo o ex-ministro, a Selic deveria seguir caindo no ritmo de "no mínimo" 1pp por reunião. "Não há risco de inflação e não há razão para se preocupar com ela. Não há justificativa para essas taxas de juros tão altas que tivemos desde o Plano Real. A taxa de juro real deveria ficar em 3% a 4% nos momentos bons e nesse momento devia estar entre 1% e 2%", explicou. Atualmente o juro real está ao redor de 6%.

 

Confiança

 

Bresser-Pereira disse que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está correto ao não admitir a possibilidade de PIB negativo este ano. Segundo Bresser, um pouco de otimismo é necessário, mas sem exagero. Em seminário em Nova York recentemente Lula disse que o País continuará crescendo este ano.

 

"O presidente Lula tem razão em rejeitar a ideia de PIB negativo. Não porque isso não possa acontecer, mas conseguir manter a confiança é um elemento importante da crise global. Já o Guido (Mantega, ministro da Fazenda) realmente exagerou um pouco quando continuou insistindo em 4% de crescimento este ano, coisa que realmente não vai acontecer", disse.

 

O ex-ministro da Fazenda admite que está difícil projetar quanto o País poderá crescer este ano. "Esses economistas que preveem queda de 4,5% (PIB), isso é um absurdo. A gente tem que tirar a média das previsões. Hoje está parecendo que o crescimento da economia brasileira vai estar próximo de zero, ou de 0% a 1%. Mas pode ser até negativo. Os outros não têm competência para dizer isso e eu também não tenho", afirmou. "A ciência econômica não dá instrumentos para poder fazer previsões numa situação tão grave como a que nos encontramos", acrescentou.

 

Para Bresser, o governo deve realmente mudar o cálculo da rentabilidade da poupança. "De repente descobriu-se que a poupança dá uma garantia de juros excessiva. Isso existe desde 1964, quando ela foi criada. (...) Há um quadro que precisa ser atacado muito fortemente. Um deles é a poupança", disse.

 

Bresser reforçou sua crítica à indexação de contratos. "Nós continuamos com nossos preços administrados. É um absurdo. Não estou propondo que governo quebre seus contratos, mas que comece a renegociá-los, ao mesmo tempo que faz uma lei proibindo qualquer acordo ou contrato com cláusula de indexação. Foi a indexação que foi o nosso desastre durante os 14 anos de alta da inflação que nós vivemos", disse.

 

A redução da meta de superávit primário de 3,8% deste ano também deve ser feita, na opinião do ex-ministro. "Não há nenhuma razão para termos um superávit primário como está previsto. Mas ao mesmo tempo o governo deveria estar mais preocupado com a despesa corrente. Houve aumento muito grande de salários com o serviço público. A meu ver o grande ponto fraco do governo Lula é esse."

 

Bresser é autor de vários livros e o mais recente, "Mondialisation et compétition" (sem tradução no Brasil), acaba de ser lançado na França. Segundo ele, a obra será lançada ainda este ano nos Estados Unidos e possivelmente no Brasil até o final do ano.

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