Grandes empresas entram na onda bilionária do bem-estar

A Coca-Cola tem uma parceria com a Academia de Medicina Chinesa Tradicional para desenvolver novas bebidas a partir de ervas chinesas. No começo do ano, nos Estados Unidos, o Wal-Mart esgotou todo o seu estoque de roupas de algodão orgânico para ioga em apenas dez dias. No Brasil, o Pão de Açúcar criou uma linha de alimentos saudáveis, roupas para esporte e artigos zen para casa e banho. Uma das redes de franquia que mais crescem atualmente no País é a carioca Mundo Verde, especializada em produtos naturais. São 112 lojas em 11 Estados - 15 delas foram abertas neste ano.Há algo errado no mundo dos negócios? Não exatamente. Bem-vindo à era do bem-estar, que está provocando uma revolução no consumo mundial. As empresas estão tendo de se reposicionar - em alguns casos, se reinventar - para acompanhar uma mudança importante nos hábitos do consumidor.O homem moderno ganhou peso e estresse e agora paga caro para recuperar qualidade de vida. "O mundo todo busca a saúde do corpo e da mente, os pilares do bem-estar. Mesmo empresas que não eram originalmente do segmento querem ter sua imagem associada a esse conceito", diz Silvia de Féo, diretora-executiva da Fitness Brasil, empresa que promove eventos de fitness e bem-estar.O economista americano Paul Zane Pilzer, autor do livro The Wellness Revolution (A Revolução do Bem-Estar), diz que essa pode ser a terceira grande onda de negócios do mundo - a primeira foi a dos automóveis e a segunda, a dos computadores. Nos Estados Unidos, a indústria do bem-estar pode movimentar US$ 1 trilhão até 2010, segundo Pilzer. Em cinco anos, esse mercado saiu de US$ 200 bilhões para os atuais US$ 500 bilhões naquele país.No Brasil, ainda não existe estimativa que englobe toda essa indústria, mas não há dúvidas de que fazer massagem, praticar ioga e pilates, comer produtos naturais, usar cosméticos de origem vegetal ou acender velas e incenso deixou de ser coisa de comunidade alternativa. Virou um negócio bilionário no País.Uma pesquisa recente do instituto Euromonitor revelou que os alimentos industrializados voltados à saúde e ao bem-estar movimentaram US$ 7,9 bilhões em 2005 no Brasil. Em 2002, essa cifra era 50% menor. "Todo mundo está de olho nesse mercado. Mas ele só irá se desenvolver quando houver regras mais claras por parte da Anvisa", diz Marcel Motta, analista do Euromonitor para o Brasil.Para Andrea Mota, diretora de novas bebidas da Coca-Cola Brasil, área criada no ano passado, há um longo caminho a ser percorrido, mas esse mercado vai crescer muito daqui para a frente. A expectativa do Euromonitor é que ele cresça 50% nos próximos três anos.Estilo de vidaEsse mercado tem mudado rápido. Há três anos, Isabela Fortes, recém-chegada de uma temporada de três anos num mosteiro na Índia, era uma estranha no ninho na sociedade carioca. Ela havia abandonado a promissora carreira num banco de investimentos para dar aulas de ioga.O empresário Marcos Wettraich, fundador do portal Ibest, enxergou na amiga Isabela uma tendência de mercado. Wettraich pode ser considerado um sujeito visionário. Em 1995, quando a internet ainda era um assunto restrito ao mundo acadêmico, ele investiu no Ibest.Wettraich associou-se à Isabela para criar o Nirvana, um espaço chique onde há aulas de ioga, pilates, spa, restaurante orgânico e loja de roupas e artigos para casa e banho. O primeiro Nirvana foi aberto em 2004, numa casa na Gávea. Hoje são duas unidades e 2 mil alunos matriculados. "No futuro, vamos virar um clube e cobrar luva do associado", diz Wettraich. No começo do ano, o Nirvana teve de recusar alunos.Os donos não têm interesse em transformar o Nirvana numa rede de franquias. Por enquanto, o plano é abrir unidades em São Paulo e Brasília, desde que encontrem o sócio apropriado.A primeira onda de bem-estar começou nas academias de ginástica. Em 1999 o Brasil contava com 4 mil academias e hoje são 7 mil, freqüentadas por mais de 2,1 milhões de pessoas. Em 2005 o faturamento delas foi de R$ 1,6 bilhão.Ioga com esteiraAos poucos, as academias foram incorporando tai chi chuan, ofurô e hatha ioga ao ambiente de esteiras, barras de ferro e bicicletas ergométricas. As novas academias já nascem com a pretensão de serem centros de bem-estar.A rede A! Body Tech, com oito unidades no Rio de Janeiro, tem núcleos de massoterapia, estética e atividades orientais. O negócio está longe de ser tocado por neo-hippies. Tem entre seus sócios o empresário Alexandre Accioly, o jogador de futebol Ronaldo, o ator Rodrigo Santoro.Até marcas tradicionais ligadas ao esporte querem pegar carona nessa nova mania. Recentemente, a Adidas lançou no Brasil uma sapatilha para ioga, assinada pela estilista Stella McCartney. A grife também tem uma linha de roupas para relaxar, com cores e materiais mais leves. O mundo, definitivamente, não é mais o mesmo.

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