Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

'Há preocupação de como novo governo vai encarar o ajuste'

Para estrategista, cenário é favorável à retomada de investimentos, mas investidor está cauteloso à espera das eleições

Anna Carolina Papp, O Estado de S. Paulo

04 Março 2018 | 05h00

Os investimentos, que ensaiaram uma reação no último trimestre do ano passado, após 14 quedas consecutivas, devem voltar ao mapa em 2018. Para Axel Christensen, estrategista-chefe para América Latina e Ibéria da BlackRock – maior gestora de recursos do mundo –, as empresas começam a vislumbrar melhores cenários por conta do ambiente externo favorável e do aumento – ainda que tímido – da demanda interna. Ele pondera, porém, que, à medida que as eleições se aproximam, investidores estrangeiros ficam mais cautelosos e dão um passo atrás à espera de definições no campo político. “Há muita preocupação de como o novo governo vai arcar com a responsabilidade do ajuste fiscal”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Estado: O Brasil cresceu 1% em 2017, após dois anos de retração. O sr. vê uma retomada consistente?

Axel Christensen: A economia brasileira vinha recuando e destoando do crescimento global. Vimos uma recuperação no ano passado, e o ambiente externo deve dar suporte para essa retomada. É mais fácil para o Brasil crescer quando o resto do mundo está crescendo, pois há mais demanda – além das taxas de juros mais baixas, que impulsionam o crescimento, especialmente do lado doméstico. As pessoas estão mais inclinadas a investir, a se movimentar. Temos boas expectativas para o Brasil.

Qual a perspectiva para 2018?

Somos relutantes em dar uma projeção, mas acreditamos que será bem melhor do que 2017. A redução das taxas de juros leva um tempo para ter um impacto na economia real. O mercado reage muito rapidamente, mas as empresas levam um tempo para tomar decisões de investimento. Então, muito do que foi feito no ano passado terá impacto na economia este ano. 

O sr. acha que a economia crescerá com base no consumo ou no investimento? 

A resposta é: ambos, provavelmente em uma sequência. Acreditamos que será puxada pelo investimento. As empresas têm cenário externo positivo e os custos de financiamento estão caindo por causa das baixas taxas de juros. Por causa da recessão, houve um trabalho por parte das empresas para se tornarem mais eficientes e reduzirem custos – e agora que a economia está reaquecendo, elas vão se beneficiar desse processo. Os investimentos devem crescer, e o consumo vai seguir. Lembro que, há alguns anos, havia uma discussão de como a economia brasileira estava piorando, mas mesmo assim o mercado de trabalho não refletia isso. Na saída da crise, é o mesmo ciclo: o investimento vai à frente e demora um pouco para o emprego e os salários voltarem de forma sólida. E esses dois fenômenos são muito importantes para fundamentar o consumo. 

A Bolsa segue batendo recordes, embora a nota de crédito do Brasil tenha sido rebaixada mais uma vez e a reforma da Previdência, enterrada. Por quê? 

Se você olhar para os mercados globais de ações, 2017 foi um ano muito positivo. O Brasil se destacou e foi melhor que os EUA e outros países desenvolvidos. O contexto global de crescimento deu suporte para o mercado acionário, e o Brasil não é exceção. Além disso, a queda da Selic tirou a atratividade da renda fixa. As empresas estão começando a vislumbrar melhores resultados por conta do cenário externo e aumento tímido da demanda interna. Fora que os mercados tendem a olhar para frente, e não exatamente o que está acontecendo agora – e eles estão gostando do que veem. 

Mesmo com eleições à frente?

Eventos políticos são cruciais em decisões econômicas e geram volatilidade. Esse é o ano de eleições na América Latina – e o caso do Brasil é muito particular, porque está muito difícil saber quem de fato vai concorrer. Em casos como o Brexit, ou a vitória do Trump nos EUA, percebemos que surpresas podem acontecer. A reação do mercado pode variar muito, já que espera-se um candidato focado na agenda de reformas, como a da Previdência, e outras medidas de equilíbrio fiscal. Mas ainda é muito cedo para dizer.

O que investidores estrangeiros têm perguntado sobre o Brasil? 

Há muita preocupação de como o novo governo vai arcar com a responsabilidade do ajuste fiscal. Há um grande fluxo de investimentos para os emergentes, com destaque para o Brasil. Mas, estamos entrando num período em que os investidores devem ficar um pouco mais cautelosos e dar um passo atrás para entender melhor o que vai acontecer. Até pouco tempo, eles me perguntavam se a reforma da Previdência seria aprovada – e acho que essa pergunta já foi respondida. Também querem saber sobre as eleições e quais os potenciais candidatos. Ah, e perguntam do Bolsonaro – querem saber quem ele é.

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