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Ibovespa mira os 60 mil pontos com entrada de estrangeiro

Economia do País passa pela maior recessão da história recente, mas rali no mercado de ações é embalado por onda de otimismo no exterior

Ana Luísa Westphalen, Marcelle Gutierrez, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 18h25

Quem vê o desempenho da Bovespa nos últimos pregões pode não acreditar que a economia brasileira passa pela maior recessão econômica da história recente. Ignorando os fundamentos e a turbulência do cenário político, a Bovespa engatou trajetória de alta no último dia 7 de julho e não fechou mais em queda, resultando em uma sequência de dez pregões de ganhos. Nesse rali recente, o Ibovespa acumulou valorização de 9,37% e foi içado ao patamar dos 56 mil pontos, sendo negociado atualmente no maior nível desde meados de maio do ano passado. É importante destacar que esse salto não é isolado; ele ocorre em sintonia com o desempenho robusto dos mercados acionários em Nova York, onde os índices Dow Jones e S&P 500 renovam diariamente suas máximas históricas.

Apesar de os fundamentos não estarem firmes no Brasil, o analista da Leme Investimentos João Pedro Brugger observa que os investidores estão se antecipando a um cenário de possível melhora para a economia do País. "Mantida essa percepção, a Bolsa tende a subir mais e fechar o ano acima dos 60 mil pontos", estima. O investidor estrangeiro é apontado como o protagonista do rali recente da Bovespa, ao manter-se firme na ponta compradora em meio a uma onda de fluxo externo para países emergentes.

No pano de fundo dessa entrada maciça de recursos está a perspectiva de um quadro de liquidez abundante no mundo, reflexo da sinalização de estímulos por parte de grandes bancos centrais na investida contra a desaceleração global depois do plebiscito que decidiu pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) no dia 23 do mês passado.

Com taxas de juros próximas de zero em alguns países desenvolvidos, grandes fundos buscam os emergentes, principalmente o Brasil, onde a taxa básica está atualmente em 14,25% ao ano, observa o economista Ignacio Crespo, da Guide Investimentos. Relatório do Credit Suisse distribuído a clientes nesta segunda-feira (18) aponta um fluxo de US$ 2,5 bilhões de fundos para ETFs (fundos de índice) de mercados emergentes na semana passada, a melhor semana desde julho de 2014, relatou o banco.

No Brasil, o saldo acumulado de capital estrangeiro na Bovespa no mês de julho já soma R$ 3,4 bilhões até a última sexta-feira (15) - nos primeiros 15 dias de junho estava em apenas R$ 473,3 milhões. Este é o maior volume acumulado desde março, quando na primeira quinzena o fluxo atingia R$ 5,9 bilhões.

No mercado há quem diga que o Ibovespa ainda não passou por um movimento forte de realização porque vem presenciado ajustes pontuais em alguns papéis, como Vale PNA nesta manhã, que operou em baixa de mais de 3,0%.

Ainda que em segundo plano, o cenário interno também ajuda a melhorar as perspectivas para a economia do País, principalmente depois do afastamento da presidente Dilma Rousseff, em maio. Embora ainda não tenha conseguido colocar em prática as medidas de ajuste fiscal tão defendidas pelo mercado, o presidente em exercício, Michel Temer (PMDB-SP), já influencia positivamente os índices de sentimento do setor produtivo.

O otimismo em relação ao governo interino ganhou força especialmente na semana passada, com a vitória de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara dos Deputados. O substituto de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é aliado de Temer, o que, na visão dos agentes, garantirá governabilidade e um caminho mais livre para a aprovação da agenda de reformas proposta pelo presidente em exercício.

Hoje, o Fundo Monetário Internacional (FMI) avaliou que os múltiplos choques que pesavam negativamente na economia brasileira - o que inclui a incerteza política - estão se dissipando de forma gradual. A chefe da divisão de estudos econômicos mundiais da instituição, Oya Celasun, destacou que, desde março, os índices de confiança da economia brasileira dão sinais de melhora, o que deve ajudar o país a sair da recessão.

Empresas. Desde a semana passada, grandes bancos vêm incluindo ações de empresas brasileiras entre suas recomendações. O UBS, por exemplo, começou cobertura de Petrobras com recomendação de compra e o Credit Suisse elevou a recomendação para as ações de Bradesco e Itaú Unibanco para outperform (desempenho acima da média do mercado), o que deu impulso especial ao setor de maior peso na composição na carteira teórica do Ibovespa.

Entre os papéis com melhor desempenho no rali recente da Bovespa, profissionais do mercado têm destacado a Petrobras, presidida por Pedro Parente desde o fim de maio. Ao considerar o pregão de hoje, em andamento, a ON acumula valorização de 20,50% em julho, enquanto na PN o avanço é de 25,37%. "Há um otimismo com a gestão da Petrobras", lembrou um profissional. A venda de ativos da estatal petroleira também é foco de expectativa do mercado.

O UBS, em relatório divulgado ontem ao mercado, comparou a Petrobras a uma fênix, diante da previsão de preços do petróleo mais altos, melhorias na regulamentação local e da nova gestão. "Acreditamos que o preço do petróleo vai atingir US$ 75/barril em 2019, que mudanças regulatórias vão permitir à Petrobras tirar valor dos seus ativos e levar a uma melhora da percepção de risco e que a diretoria vai colocar a companhia de volta aos eixos", diz o documento.

No setor elétrico, o noticiário de compra e venda de participações movimentou alguns papéis nos últimos dias. Na semana passada, declarações do secretário da Fazenda do Estado de São Paulo, Renato Villela, sobre a privatização da Cesp impulsionaram as ações PNB da estatal, que subiram 18,82% no dia e avançam 24,03% em julho. Nesta segunda-feira, 18, foi a vez da Cemig PN (+5,31%) e Light ON (+5,30%), com notícias de que a Equatorial teria feito à Cemig uma proposta para adquirir o controle da Light. Em um mês, Cemig PN sobe 21,43% e Light ON tem alta acumulada de 31,23%.

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