Evaristo Sá/AFP
Evaristo Sá/AFP

Bolsa cai com impeachment em segundo plano e dólar sobe com atuação do BC

Segundo analistas, decisão sobre o processo de impedimento de Dilma já havia sido antecipada pelo mercado; moeda americana avançou mais de 2% e encerrou a sessão cotada a R$ 3,60

Paula Dias, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2016 | 10h36

SÃO PAULO - Um dia depois da aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, o mercado de ações dedicou esta segunda-feira, 18, a um movimento de correções de preços. Depois de acumular ganhos de 5,84% na semana passada, o Índice Bovespa fechou hoje em queda de 0,63%, aos 52.894,08 pontos. 

O recuo do petróleo foi importante fator de influência sobre a Bolsa durante todo o dia e foi determinado pela falta de acordo em Doha entre os países produtores da commodity quanto ao congelamento da produção do óleo. Na Bovespa, as perdas da commodity foram sentidas principalmente nas ações da Petrobrás, que passaram por forte realização de lucros. Ao final do pregão, os papéis ON (com direito a voto) caíram 1,26% e os PN (com preferência no recebimento de dividendos) recuaram 4,64%. A influência positiva dos índices americanos foi bastante limitada.

Segundo analistas, também o "fator Cunha" predominou na correção das ações. Conforme análises do mercado, o vice-presidente Michel Temer precisa sinalizar o quanto antes que vai se desvincular de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e principal condutor do processo de impeachment até agora, para sustentar o voto de confiança que o mercado tem dado a ele.

Passadas apenas algumas horas da vitória da oposição na Câmara, o mercado já iniciou as especulações sobre quais nomes comporão um eventual governo Temer. Nome frequentemente aventado nas mesas de operações, o ex-presidente do Banco Central e chairman da J&F Investments, Henrique Meirelles, evitou comentar sobre sua eventual ida para um possível governo Temer. Mas não negou que tenha sido convidado para voltar para Brasília.

"Eu não comento conversas privadas. Tudo aquilo que é público é anunciado. Tudo que não é público, é privado", disse Meirelles a jornalistas após fazer uma apresentação em evento da Câmara de Comércio Brasil e Estados Unidos, onde defendeu a necessidade de reforma fiscal e estrutural para o Brasil voltar a crescer.

Câmbio. O dólar à vista, que havia caído 1,97% na última semana, subiu 2,24%, aos R$ 3,6054. A moeda americana chegou a recuar 1,15% logo na abertura (R$ 3,4857), repercutindo a derrota do governo na Câmara. Mas a cotação logo inverteu o sinal, com a notícia do leilão de 80 mil contratos de swap cambial (venda de dólares com compromisso de recompra) do Banco Central.

A queda dos preços do petróleo no exterior e um certo movimento de realização de lucros por parte de investidores vendidos em dólar fizeram a moeda americana migrar para o positivo e registrar ganhos firmes, de até 2,37% (R$ 3,610) na máxima da sessão. O recuo da commodity também fez o dólar avançar mais cedo ante divisas de produtores, como o rublo russo e o real brasileiro.

Perspectivas. Segundo o economista Alexandre Espírito Santo, da Órama Investimentos, o mercado financeiro deve entrar num momento de acomodação nas próximas semanas, após o repique na Bolsa de Valores registrado no último mês.

"A Bolsa subiu muito nos últimos dez dias, incorporando a expectativa de que o número de deputados a favor do impeachment se concretizasse, como ocorreu ontem. Acho que o mercado nem esperava uma folga tão grande. Mas, como a bolsa subiu antes, agora vai ter um ajuste", disse ele.

O ajuste, na visão do economista da Órama, virá através do fim da volatilidade. A Bolsa não deve registrar novas valorizações, tampouco perdas acentuadas. "Agora é esperar o que virá no Senado", contou.

O economista da Órama acredita que o dólar também se mantenha no patamar de R$ 3,50, uma vez que o Banco Central não deixaria que recuasse muito abaixo disso. "Minha aposta é que os R$ 3,50 são um nível de referência para o Banco Central. Abaixo disso, ele (o BC) volta a interferir. A gente trabalha com um câmbio flutuante, mas é um nível psicológico", defendeu Espírito Santo. (Com informações de Daniela Amorim)

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