Indústria adota cautela nas vendas do Natal

O crescimento pífio da economia brasileira na primeira metade do ano e a perspectiva de que a renda ainda vai continuar a se recuperar de forma lenta levaram os empresários a adotarem uma postura de cautela em relação à produção e vendas para o período do Natal, a melhor época do ano para a indústria e o varejo.No setor têxtil e de confecções, que enfrenta a concorrência crescente das importações de produtos asiáticos, o cenário é mais sombrio. "Se conseguirmos empatar com o Natal do ano passado, já será um grande negócio", afirma o presidente da Pasy Manufatura de Roupas, Marcel Zalazni.Segundo ele, os pedidos do varejo estão 15% menores do que no mesmo período do ano passado. "As vendas no inverno foram fracas e os lojistas estão adiando ao máximo suas compras para não correrem riscos", diz Zalazni.A situação só não é dramática porque a empresa tem seis lojas de varejo, que hoje são responsáveis por mais de 60% do seu faturamento. De maneira geral, a perspectiva de repetir o mesmo faturamento do ano passado já contenta os empresários do setor de confecções.A menos de um mês do Dia das Crianças (12 de outubro), os fabricantes de brinquedos devem faturar até o Natal 4% mais do que em igual período do ano passado. Em número de produtos, o crescimento deverá ser maior, de 12%, afirma o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista Costa. "O consumidor quer produtos baratos porque a capacidade de compra já bateu no teto do orçamento das famílias", diz.Na Estrela, a expectativa é de crescimento acima da média do mercado. Mas trata-se de uma situação atípica, porque a empresa vem se recuperando de uma crise provocada pela invasão dos brinquedos chineses.A empresa teve de se submeter a uma reestruturação que exigiu investimentos da ordem de R$ 15 milhões, o que consumiu boa parte do seu capital de giro. O faturamento caiu para R$ 50 milhões em 2005 - o mais baixo dos últimos 10 anos - , ante R$ 80 milhões no ano anterior. "Nossa expectativa é de recuperar agora boa parte desse volume perdido", diz o presidente da Estrela, Carlos Tilkian.A Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) prevê um aumento do faturamento do varejo entre 1% e 2% comparado com o do Natal de 2005. Para Borges, o maior entrave, além da recuperação lenta da renda, é que o consumidor parece estar bem próximo do seu limite de endividamento."Tudo indica que este Natal pode ser um pouco melhor que o do ano passado, mas nada de extraordinário", diz o economista Antônio Carlos Borges, diretor-executivo da Fecomercio-SP.Renda comprometidaPesquisas feitas pela Fecomercio indicam que 60% das pessoas que ganham até 3 salários mínimos (R$ 1.050) estão com parte da renda comprometida por dívidas contraídas na compra de bens, sem considerar os desembolsos para gastos correntes, como pagamento de contas de luz, telefone, água e aluguel, entre outros. Quase dois terços dos endividados assumiram compromissos de até um ano."Como essas famílias têm baixa formação de poupança, não se deve esperar muito deste Natal", afirma Borges. "O problema é que as pessoas estão endividadas não apenas no valor dos bens que compraram, mas nos juros que continuam bastante elevados na ponta do consumo."Segmentos que não enfrentam a concorrência direta das importações, caso dos televisores, falam em aumento de vendas de até 10%. Mas isso seria uma exceção.Passada a Copa do Mundo, os fabricantes de televisores enfrentaram uma ressaca de mercado. Nos últimos dois meses, as empresas foram obrigadas a cortar a produção para evitar acúmulo de estoques.As vendas ficaram abaixo do previsto e as empresas do setor tiveram de replanejar toda a produção para o ano - de 11 milhões de unidades programadas inicialmente para 10 milhões de TVs. Mesmo assim, ficará acima do recorde registrado em 2005, quando foram vendidos 9,8 milhões de TVs no País.A Philips, que disputa com a Semp Toshiba a liderança na venda de TVs, espera um aumento de 5% a 10% no faturamento de aparelhos de áudio e vídeo nos próximos meses em relação a igual período do ano passado. O vice-presidente da Divisão de Eletrônicos de Consumo, José Fuentes, acredita que o mercado vai absorver toda a produção da companhia, principalmente de TVs de tela plana, LCD e plasma, cujas vendas têm crescido com a redução de preços provocada pelo aumento da escala e pela nacionalização da produção."A economia vem mostrando uma sustentabilidade impressionante", observa o executivo. "A questão política está praticamente equacionada, o dólar tem se mantido estável e a inadimplência até caiu um pouquinho nos últimos meses, o que aponta para um bom fim de ano, melhor do que tivemos em 2005."

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