Inflação mais baixa inaugura nova fase no Brasil e no mundo

Fabio Silveira, da RC Consultores, disse que a queda das commodities é a principal responsável pelo recuo dos preços

Luciana Xavier e Lucinda Pinto,

08 de agosto de 2008 | 19h08

O IPCA de julho em 0,53% ante 0,74% em junho é mais um elemento para desenhar um novo cenário de inflação menor não somente no curto prazo, conforme avaliou o sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira. "Estamos inaugurando uma etapa diferente para trajetória de inflação no Brasil e no mundo", disse em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. Segundo ele, os alimentos já estão deixando de ser os vilões da inflação. Silveira disse que a queda forte dos preços das commodities nos últimos 30 dias, depois de uma escalada ao redor de 50% de dezembro de 2007 a julho deste ano, é a principal responsável pelo recuo dos preços. "Caminhamos celeremente para desaceleração das taxas mensais de inflação e o ponto de partida está lá fora, não está aqui dentro, está no mercado internacional", acrescentou. Além do IPCA, os outros índices cheios de julho também vieram menores e o movimento prossegue nas primeiras prévias de agosto, como as do IGP-M e IPC-S. A primeira prévia do IGP-M mostrou deflação de 0,01%, ante aumento de 1,55% em igual prévia em julho. O IPC-S de até 7 de agosto subiu 0,44%, desacelerando em relação ao resultado de até 31 de julho, de 0,53%. Nos índices cheios, o IPC-Fipe em julho ficou em 0,45%, menos da metade da taxa apurada em junho, de 0,96%. O IGP-M em julho subiu 1,76%, em comparação com a alta de 1,98% em junho. Já o IGP-DI subiu 1,12% em julho, ante 1,89% no mês anterior. "A tendência nos preços no mercado internacional continua em trajetória de queda, talvez não tão acentuada, mas isso não importa, porque vai gerar deflação em vários segmentos industriais, da agricultura e isso vai exercer pressão baixista sobre os IPCs na transição do 3º para o quarto trimestre. Para Silveira, está cada vez mais claro que a inflação ficará dentro da meta este ano. "A inflação este ano ficará, no máximo, em 6,5%, e, em 2009, a meta (4,5%) será o teto para o IPCA", comentou. Erro  O recuo inflacionário atual vai impor uma mudança na política monetária local, afirmou Silveira. Para ele, a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de aumentar a dose de alta da Selic para 0,75 ponto porcentual em julho, para 13% ao ano, foi "precipitada". "O Banco Central errou flagrantemente. Ele fez uma leitura equivocada do comportamento dos preços", disse. Segundo o diretor, a decisão do BC pode até ter ajudado na curva de juros futuros, "mas não vai ajudar a baixar a inflação local". "80% da alta dos preços é por commodities, não é demanda". "Há vários elementos para sugerir desaceleração do ritmo de alta de juros ou mesmo interrupção do processo, se não na próxima reunião (setembro), na seguinte (outubro)", comentou. Silveira acredita que o PIB brasileiro possa crescer 5% este ano e de 3,5% a 3,7% em 2009, "se o BC não exagerar na alta dos juros e se a Selic ficar em 13,50%, no máximo". Câmbio  O efeito da queda das commodities não deve ser tão negativo sobre o câmbio como se teme, na avaliação do sócio-diretor da RC Consultores. Segundo ele, o País também continua atraindo capital externo estrangeiro. "O País ainda está crescendo e o Brasil tem volume de reservas importante. Portanto, não vejo espaço para o dólar valorizar muito acentuadamente em 2008 e início de 2009, pois os juros reais estão muito elevados. E também não vejo grande pressão do câmbio na inflação", afirmou. Silveira projeta um dólar de R$ 1,60 a R$ 1,65 este ano e até R$ 1,70 em 2009, considerando um PIB nos Estados Unidos de 0% este ano e 0,5% em 2009, mas "sem ficar na zona vermelha". Um cenário de mais estresse, que não é seu cenário básico, considera uma recessão forte nos Estados Unidos com PIB de -2,5% e desaceleração forte no mundo. "E aí não resta dúvida de que o mundo todo seria atingido. Mas a probabilidade desse cenário se materializar é pequena." Ele acrescentou que "será importante ficar atento à magnitude da queda dos preços das commodities. Se prosseguirem em queda muito acentuada, o saldo da balança comercial em 2009 poderia cair para US$ 10 bilhões, US$ 5 bilhões ou até mesmo zerar". Nuci Silveira disse que o problema da inflação no Brasil está ligado às commodities e não a uma demanda muito aquecida. "Não existe a idéia de economia aquecida. O Nuci (Nível de Utilização da Capacidade Instalada) ao redor de 83% está aceitável para uma economia em equilíbrio", avaliou. O Nuci ficou em 83,3% em junho ante 82,5% em maio, o maior desde 2003. Em junho do ano passado o Nuci estava em 82,2%. Silveira comentou ainda a recente queda do petróleo. Segundo ele, essa queda se deve à saída de capital especulativo, mas também à mudança de fundamentos, com a percepção de desaceleração da economia mundial, inclusive a chinesa. O diretor disse que o patamar de equilíbrio do petróleo está entre US$ 70 e US$ 80, mas que a commodity não deve cair a esses níveis e o mais provável é que volte a ficar ao redor de US$ 100 o barril.

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