Inflação será último problema do Fed

Para Nouriel Roubini, nos emergentes o foco está na inflação, mas para os EUA a recessão é o que preocupa

Luciana Xavier e Cynthia Decloedt,

27 de junho de 2008 | 17h02

A inflação é uma preocupação crescente nos Estados Unidos e no mundo, mas não é o principal problema do banco central norte-americano, o Federal Reserve (Fed), na avaliação do professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini. Para ele, a lupa do Fed continua no crescimento da economia ou no tamanho da recessão que tem que combater. Ouça a entrevista  "Para muitos países emergentes, a inflação é problema maior do que crescimento, como China, Índia, Rússia, Argentina e países do Golfo, sendo menos grave no Brasil, onde a política monetária tem sido austera. No caso nos Estados Unidos, no entanto, a inflação será o último problema do Fed por causa da recessão severa", disse o ex-conselheiro da Casa Branca no governo Bill Clinton, cujo blog, o RGE Monitor, é um dos mais lidos da atualidade. Roubini nada quase sempre contra a maré. Enquanto uma maioria no mercado considera que o Fed possa apenas ter adiado a alta dos juros ao mantê-los em 2% na última reunião, Roubini aposta em manutenção este ano, mas não descarta um novo corte. "Num cenário de severa recessão o Fed poderá até cortar os juros até o final do ano. Não acredito que há alguma chance de elevar os juros este ano". Antes do segundo round de piora da crise nos Estados Unidos, em março deste ano, Roubini previa que os juros poderiam ficar mais perto de 0% do que de 1%. Agora, com dólar fraco e inflação alta, ele admite que resta pouco espaço para manobras em direção aos cortes. Em sete meses, de setembro a abril deste ano, o Fed derrubou os Fed Funds em 3,25 pontos porcentuais, para 2%. "O Fed não poderá cortar os juros tão agressivamente como fez na recessão de 2001", disse. Naquela época, os juros caíram de 6,50% para 1,75% em 12 meses. Entre períodos de pausa e cortes, os Fed Funds acabaram em 1% em junho de 2003, patamar em que ficou até março de 2004. Segundo Roubini, a ajuda fiscal dada pelo governo de George W. Bush com a devolução de impostos servirá de estímulo ao consumo por apenas dois ou três meses. "É um estímulo temporário, enquanto todos choques negativos - aumento do desemprego, alta dos preços do petróleo, colapso da confiança do consumidor, queda dos valores dos imóveis, queda do valor das ações e alta taxa de inadimplência - esses são mais persistentes", comentou. RecessãoPara Nouriel Roubini, os Estados Unidos estão em recessão e é ilusão pensar que o pior ficou para trás depois dos problemas do colapso do Bear Stearns em março deste ano. "Estamos em uma recessão e ela será feia. Há um consenso de que ela irá durar seis meses. Eu não acredito. Acho que a recessão será longa e severa e poderá durar de 12 a 18 meses", disse. Segundo ele, embora os números oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) não estejam negativos - o PIB do 1º trimestre cresceu 1% - os dados vindos de diversos setores da economia mostram que o país já está em recessão. De acordo com Roubini, o mercado de trabalho, imobiliário, setor automotivo, companhias aéreas, indústria de bens duráveis, mercado financeiro entraram em colapso. Roubini espera que o PIB do segundo trimestre fique em 0% e que comece a vir negativo a partir do terceiro trimestre em diante. Ele frisou não se pode medir recessão apenas com base em PIB negativo. Tecnicamente, considera-se que uma economia está em recessão quando o PIB fica negativo por pelo menos dois ou três trimestres consecutivos. Segundo Roubini, o comportamento do mercado de trabalho tem um peso considerável para se saber a real situação do país e no caso dos EUA o nível de emprego vem caindo nos últimos seis meses. "Baseado nisso e outros fatores posso dizer que estamos em recessão", reafirmou. Roubini espera de quatro a seis trimestres consecutivos de PIB negativo "até que a economia comece a reagir a partir de meados do ano que vem", disse. A projeção para este ano é de PIB em 1%. "O crescimento do ano que vem será anêmico. A segunda metade de 2009 será positiva, mas o PIB crescerá 1% na melhor das hipóteses". ColadosNinguém está descolado da crise nos Estados Unidos, disse Roubini. Para ele, o mundo será atingido pelo efeito dominó da recessão norte-americana. Roubini vê riscos de recessão em mais de uma dúzia de países como Reino Unido, Canadá Espanha, Irlanda, Itália, Portugal, Japão, Canadá e Nova Zelândia. Segundo artigo em seu blog, Roubini disse que as bolhas imobiliárias no Reino Unido, Espanha e Irlanda são até mesmo maiores que a dos Estados Unidos e que a bolha de crédito desses países não se limita ao mercado imobiliário, mas aos débitos do consumidor, como cartão de crédito, etc. Roubini admite estar mais otimista em relação aos emergentes. "Na América Latina e nos emergentes em geral os fundamentos das economias estão melhores do que nos países desenvolvidos. Haverá uma desaceleração nos emergentes, mas não recessão. A China será atingida pela recessão dos Estados Unidos com redução das exportações para aquele país e o Brasil será atingido quando eventualmente os preços das commodities caírem. Mas não temo por recessão", disse. Para o economista, no entanto, os emergentes não podem ser todos alinhados em fila. "Nem todos os emergentes estão na mesma situação. Alguns estão melhores, com inflação mais baixa, superávit primário. Mas mesmo para China, Índia, Rússia e Brasil haverá performance mais negativa", avaliou. Roubini comentou ainda que não é possível dizer qual candidato a presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama ou o republicano John McCain, seria melhor para a economia americana. "Os dois candidatos têm diferentes posições para diversos temas. Pessoalmente, a política econômica de Obama parece tentar combater mais os problemas correntes da economia, depois de tantos erros cometidos nos últimos anos", disse. Para o economista, é difícil dizer quem poderia beneficiar mais as relações entre Brasil e EUA. "Quem quer que vença, acho que terá que se engajar com outros países da América Latina e com o Brasil. O Brasil está se tornando um importante player na economia mundial, mas não sei quem será mais simpatizante do Brasil. Roubini comentou ainda que a alta dos alimentos poderá facilitar um acordo que ponha um fim na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). "Em muitos países do mundo, incluindo EUA e Europa, o argumento para manter altos subsídios para fazendeiros está se esvaindo diante dos altos preços dos alimentos. Isso pode tornar mais fácil um acordo em Doha". PetróleoRoubini afirmou que a escalada do petróleo pode estar chegando ao fim. Ele prevê que a commodity caía de 20% a 30% nos próximos meses. "Fundamentalmente o petróleo está muito caro. Há muita especulação", disse. A recessão nos Estados Unidos e outros países e desaceleração dos emergentes deverá ajudar a reduzir a demanda, o movimento especulativo e trazer os preços para baixo.

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