Intervenções cambiais devem segurar cotação do dólar

As reservas internacionais do Brasil subiram quinta-feira para quase US$ 76 bilhões. E, apesar do nível recorde, Banco Central e Tesouro não dão mostras de que as compras de dólares no mercado serão interrompidas no médio e longo prazo. "Anos atrás se falava que um nível ideal de reservas estaria em torno de US$ 40 bilhões. Hoje temos quase o dobro disso e podemos ter mais", sentenciou na semana passada o secretário do Tesouro Nacional, Carlos Kawall, apontando que os benefícios da recomposição ainda estão longe de acabar. "Não podemos querer ter um monte de benefícios sem custo nenhum. A política de recuperação de reservas é um bem, não apenas de curto prazo, para eventuais turbulências no mercado internacional, mas também para as gerações futuras", disse. Para gestores de recursos e analistas ouvidos pela Agência Estado, essa expectativa de manutenção das intervenções cambiais é um dos fatores que reforçam a percepção de que o câmbio, mesmo dentro de um contexto estrutural de apreciação do real no balanço de pagamentos, se manterá próximo da estabilidade - talvez até com alguma leve depreciação - nos próximos meses. "O movimento natural com as atuais condições de nosso balanço de pagamentos seria o de apreciar o real no médio prazo. A balança comercial recuará na margem, mas de maneira menos significativa do que o mercado espera. As commodities continuam indo bem e a atividade local não terá efeito tão forte nas importações. Isso sem falar no interesse estrangeiro na dívida local. E, apesar de tudo isso, a expectativa é de um câmbio próximo da estabilidade", ilustra o diretor da Nítor Investimentos, Reinaldo Le Grazie. Nas contas do economista Darwin Dib, do Unibanco, o BC terá um hiato financeiro de US$ 19,2 bilhões para "enxugar" no mercado de câmbio em 2007. Como o Tesouro tem obrigações de apenas US$ 5,3 bilhões em amortizações e juros líquidos - e contratação de câmbio previstas em US$ 8,2 bilhões - sobram cerca de US$ 22 bilhões para serem liquidamente agregados às reservas em 2007. Isso com uma política de intervenções sem qualquer ousadia. Na opinião de Dib, mais do que as compras do BC ou a perda de força no saldo comercial, o que dará sustentação ao dólar no mercado local no próximo ano são as incertezas em relação ao comportamento da economia norte-americana. "Esse é um cenário tão incerto que existem hoje importantes players falando tanto de uma alta futura dos juros nos Estados Unidos quanto de um desaperto monetário. Enquanto a incerteza perdurar, funcionará como um amortecedor para a tendência estrutural de apreciação do real", coloca Dib. Para o estrategista da ARX Capital, Sérgio Goldenstein, some-se às intervenções cambiais e à retração nos saldos comerciais o desaperto monetário que o Banco Central deve continuar promovendo no médio prazo, mesmo que em ritmo menos acelerado. "É claro que o investidor olhará o Brasil em comparação com o México ou outro emergente e verá que as operações de 'carry trade' por aqui ainda são extremamente atrativas. Mas é fato que o nosso diferencial de taxas estará estreitando, o que na margem pode reduzir o apetite do estrangeiro nesse tipo de operação", explica. Na pesquisa semanal do Banco Central com analistas do mercado divulgada na segunda-feira passada, as projeções do dólar doméstico para o final de 2006 e 2007 encontravam-se, respectivamente, em R$ 2,18 e R$ 2,30. É uma coletânea que reúne, de qualquer forma, expectativas tanto de depreciação mais forte quanto de apreciação do real para o ano que vem.

Agencia Estado,

23 de outubro de 2006 | 07h00

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