Intervenções do governo no câmbio chegam a US$ 131 bi em 3 anos

A taxa de câmbio no Brasil teve uma valorização da ordem de 26% entre 2004 e 2006. A cotação do dólar em relação ao real despencou de R$ 2,8892 para R$ 2,1380 (taxa média diária) no final do ano passado. Uma verdadeira praga para o exportador: queda de empregos e fechamento de fábricas em setores como o de produção de móveis e de sapatos. Foi um filme já visto nos últimos anos. A situação foi traduzida na baixa votação obtida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas regiões mais afetadas pelo câmbio nas eleições do ano passado. O quadro, entretanto, poderia ser pior. "Sem o Banco Central (BC) atuando no mercado de câmbio, provavelmente a taxa já estaria abaixo de R$ 2,00", diz o economista Guilherme Loureiro, da Tendências Consultoria. E o tamanho da intervenção não foi pequeno. Nos três anos, foram US$ 131,160 bilhões em atuações do BC e do Tesouro Nacional nos mercados à vista e futuro. Quase 13% do Produto Interno Bruto (PIB) em dólares projetado pelo mercado para 2007. O número impressiona mais quando comparado com o fluxo de moeda estrangeira do período. Ingressaram, entre 2004 e 2006, US$ 62,451 bilhões. Menos da metade do valor das intervenções do BC e Tesouro. A grandiloqüência dos números parece não deixar dúvida de que o BC e o Tesouro foram agressivos em suas atuações no mercado cambial. Mas não é o que pensa o economista da Tendências, para quem teria havido agressividade se a valorização do real tivesse sido evitada. "Mas não foi isso que aconteceu", afirma. Para Loureiro, a ação do BC teve como objetivo "suavizar" uma tendência acentuada de fortalecimento do real ante o dólar dos Estados Unidos. "O objetivo parece ser o de evitar grandes oscilações para cima ou para baixo da taxa de câmbio", diz. A preocupação, na avaliação do economista da LCA Consultores, Bráulio Borges, é impedir a repetição da crise vivida pelo País em 1999. Na época, a valorização do real acabou exigindo um ajuste abrupto da taxa de câmbio promovida pelo BC. "Criou-se, naquele momento, um cenário de alta da inflação e de elevação dos juros. Tudo implicando em perda de crescimento do PIB", afirma. A razão estrutural da valorização do real, na opinião de um analista de mercado, é a própria melhora dos fundamentos econômicos do País. "É impossível lutar contra isto", comenta. Para se ter uma idéia, o resultado da conta corrente do balanço de pagamentos do Brasil entre 2004 e 2006 aumentou de US$ 4,177 bilhões para US$ 13,528 bilhões. "Tivemos repetidos recordes do saldo da balança comercial no período. Neste cenário, como o câmbio não vai se apreciar?", indaga. Sem contar que, no período, a dívida externa deixou de ser problema. As reservas internacionais US$ 65,314 mais altas passaram a ser maiores do que a própria dívida do setor público com credores internacionais. "Estamos hoje em condições de liquidar nossa dívida em dois a três anos", diz o economista da LCA Consultores. Borges ressalta que a zeragem da divida, entretanto, não seria interessante. "Não ter dívida externa também não é bom. É preciso ter alguma dívida para que o setor privado tenha parâmetros em suas operações de captação de recursos no exterior", explica. Veja a seguir os números das intervenções do BC e Tesouro no mercado de câmbio: Intervenções no mercado à vista 2004 - US$ 5,274 bilhões 2005 - US$ 21,491 bilhões 2006 - US$ 34,336 bilhões Compras do Tesouro Nacional 2004 - US$ 7,335 bilhões 2005 - US$ 9,321 bilhões 2006 - US$ 12,333 bilhões Intervenções no mercado futuro (colocação líquida - vendas menos compras - de contratos de swap cambial reverso, em que o governo paga juros e recebe em troca a variação do dólar) 2004 - US$ 14,67 bilhões 2005 - US$ 21,2 bilhões 2006 - US$ 5,2 bilhões (Fonte: Banco Central)

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