IPOs de construção no mesmo dia levantam dúvidas

O cronograma das ofertas de ações deste ano começou com duas empresas de construção, que chegam à Bovespa no mesmo dia. Investidores avaliaram que a coincidência de datas não seria a melhor opção. No entanto, ao ritmo de aquecimento em que se encontram as distribuições - as informações são de que 40 estão para sair - acreditavam que cedo ou tarde um acúmulo poderia ocorrer. Dias depois, o calendário já conta com cinco ofertas do ramo imobiliário que chegam ao mercado praticamente ao mesmo tempo. Por um lado, especialistas afirmam que está reaberta, de fato, a janela de oportunidade para as ofertas de ações. Por outro, questionam a concentração de colocações. As fontes ouvidas pela Agência Estado avaliam que, embora nada proíba, seria melhor que tantas operações não coincidissem. As ressalvas começam com relação ao trabalho dos coordenadores. O Credit Suisse comanda as ofertas de Camargo Corrêa e Tecnisa. O UBS Pactual lidera Iguatemi e PDG Realty. E o JP Morgan coordena a Rodobens Negócios Imobiliários. Ao lado dos líderes, há os coordenadores auxiliares, que também estão em mais de uma colocação. "Como resultado disso, alguns bancos estão, atualmente, trabalhando na oferta de três companhias, por exemplo. Há como fazer um discurso de venda coerente para três empresas ao mesmo tempo?", pergunta o gestor de um banco estrangeiro. Segundo ele, cada uma das instituições deve vender uma operação dizendo que aquele é o melhor modelo de negócio, o que fica complicado se uma mesma casa participa de três ofertas. Para o investidor, cabe se debruçar sobre prospectos, múltiplos e trajetórias das empresas para fazer sua opção - além de examinar qualquer incoerência no discurso dos bancos. "Já de partida, o trabalho do mercado é identificar qual é a melhor companhia", afirma um chefe de análise de corretora. Segundo as fontes, não há dúvidas de que o momento do setor de construção é muito favorável, especialmente com o estímulo prometido pelo governo Lula. Do lado do mercado, permanece a receita de excesso de liquidez global e do Brasil a caminho do grau de investimento. Resultado: as construtoras entenderam que o mercado é comprador e estão aumentando suas estruturas, para se capitalizar para os próximos anos. Em meio a tantas operações, a tendência é de que as instituições participantes vendam um pouco das outras novatas para buscar o potencial de valorização das empresas que estréiam nos próximos dias. "No Brasil, os recursos são realmente limitados, então as pessoas vão vender alguns papéis mais caros para fazer caixa e comprar as estreantes. As empresas já antigas que não entregaram resultados ou não contam com liquidez ficam sob mais pressão", aponta uma fonte. Já os investidores estrangeiros não têm, em princípio, problema de falta de recursos. "Só que, certamente, vão olhar com bastante cuidado os múltiplos para entrar mais forte nas mais baratas e interessantes", afirma um gestor. A coincidência de datas das distribuições é atribuída à expectativa de que irão sair muitos IPOs durante o ano. Empresas e coordenadores querem pegar a sua fatia do dinheiro global o mais rápido possível. "Ninguém esquece do ano passado, quando, após um primeiro trimestre com praticamente uma oferta por semana, em maio às preocupações com a economia norte-americana enxugaram recursos pelo mundo e a rotina se transformou em adiamentos de distribuições, enfraquecimento de demanda e redução dos preços", diz um gestor. Cabe a pergunta sobre se essa pressa de início de ano valeria mesmo a pena. Com cinco ofertas ao mesmo tempo, parece lógico pensar que diminuiria a demanda para cada uma delas. A resposta das instituições participantes do mercado é que, de fato, de cara, as empresas já serão inevitavelmente selecionadas. A questão do preço continua a pesar. Os gestores observam que a maioria das companhias quer recursos para formar bancos de terrenos e estão com uma precificação perto das ações da Cyrela. "A distribuição desta empresa fez sucesso já a um preço elevado. A partir daí e depois que a companhia entregou resultados, o papel subiu muito mais. Pelas precificações sugeridas, os coordenadores querem colocar essas novatas com um desconto muito pequeno em relação à Cyrela, o que acho inviável, uma vez que elas ainda não têm uma história na bolsa", afirma um gestor de banco doméstico. Ele ressalva, no entanto, que é o investidor local que está fazendo esse tipo de comparação de preços. "O estrangeiro está à espera de um boom de construção no Brasil, assim como ocorreu no México há alguns anos", afirma. "E, de certo, não é absurdo dizer que, daqui a um ano, construção será o principal setor da Bovespa, pela quantidade de empresas que estarão listadas." A história das ofertas este ano começa com Rodobens Negócios Imobiliários, que já em 5 de janeiro - dez dias antes do início do período de reserva - divulgou seu cronograma ao mercado. Os papéis devem chegar à bolsa dia 31 de janeiro. Em 8 de janeiro, nove dias antes do início de reserva, a Camargo Corrêa divulgou o seu calendário, com estréia marcada também para dia 31. O prazo para solicitar papéis da Rodobens foi de 15 dias e, para Camargo Correa, de 10. Semana passada, duas novas empresas divulgaram sues cronogramas. A PDG Realty forneceu dois dias, 22 e 23 de janeiro, para que os investidores reservem suas ações e já desejava estar listada na Bovespa dia 26. Para comprar os papéis da Tecnisa , os investidores têm uma semana, de 22 a 29 de janeiro e os papéis estréiam dia 1 de fevereiro.

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