Werther Santana/Estadâo
Werther Santana/Estadâo

Juros americanos fazem Bolsa cair 1% e dólar encostar em R$ 3,82

Após o Federal Reserve reduzir juros nos Estados Unidos, declarações do presidente da instituição estressaram os mercados na tarde desta quarta-feira

Altamiro Silva Junior e Paula Dias, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2019 | 18h00

A reunião de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) fez o dólar bater máximas nesta quarta-feira, 31, chegando a R$ 3,82, valor que não era negociado desde o último dia 5. No final dos negócios, o dólar à vista fechou em alta de 0,75%, a R$ 3,8199, o maior nível desde o fechamento do dia 3. Em julho, a moeda acumulou desvalorização de 0,53%, o segundo mês consecutivo de queda.

A decisão do Fed trouxe volatilidade ao mercado brasileiro de ações, que seguiu à risca o desempenho instável das bolsas de Nova York. As diferentes interpretações sobre os próximos passos do BC americano conduziram o índice Bovespa no período da tarde, ampliando o sinal negativo que já predominava desde o período da manhã. Ao final do pregão, o índice teve queda de 1,09%, aos 101.812,13 pontos. Com esse resultado, encerrou o mês de julho com ganho de 0,84%.

No Brasil, após o término dos negócios, o Banco Central cortou a Selic, a taxa básica de juros, em 0,50 ponto porcentual, para 6% ao ano. Depois de 16 meses de estabilidade, decisão do Copom foi unânime.

 

Juros podem cair menos nos EUA

O final da reunião do Fed, o evento mais esperado da semana no mercado internacional de moedas, acabou fortalecendo o dólar no exterior, com efeito imediato aqui. Primeiro, porque o corte de juros nos EUA, o primeiro em uma década, foi decidido com dois votos contra a redução, sinalizando que os dirigentes estão menos dispostos a reduzir as taxas pela frente. O banco Credit Suisse espera que só haja este corte nos EUA em 2019.

Em seguida, após a divulgação do comunicado, na entrevista à imprensa, o presidente do Fed, Jerome Powell, disse que o corte anunciado era apenas um "ajuste" e não o início de um ciclo de cortes. Neste momento, a moeda bateu em R$ 3,82. O pior momento na Bolsa paulista veio justamente após as declarações de Powell.

Na dúvida sobre se haveria ou não mais cortes de juros, as bolsas de Nova York renovaram sucessivas mínimas e o Ibovespa chegou a cair 1,93%, atingindo a marca dos 100.950,36 pontos. Depois que Powell admitiu que novo corte pode ocorrer, houve uma desaceleração em Nova York e no Brasil, mas a volatilidade continuou presente até o fechamento dos pregões aqui e em Wall Street.

Para o economista de Estados Unidos do banco alemão Commerzbank, Bernd Weidensteiner, a grande questão que ficou após a entrevista de Powell foi sobre a extensão dos cortes de juros nos EUA, se será mesmo só essa redução, corrigindo a alta de juros feita em dezembro, ou se haverá mais pela frente. "Powell parece indicar que o Fed está inclinado na direção de entregar menos acomodação na política monetária do que o esperado", ressalta ele, destacando que o presidente dos EUA, Donald Trump, não deve ter ficado muito feliz com os comentários do presidente do Fed. Trump tem defendido cortes mais agressivos de juros pelo Fed.

Bancos continuam em queda

As ações dos bancos, bloco de maior peso na composição do Ibovespa, já vinham liderando as quedas desde cedo e também foram as protagonistas nos piores momentos do pregão. No fechamento, o Índice Financeiro (IFN), que reúne 17 ações de bancos, previdência e seguros, teve queda de 1,96%, bem acima do Ibovespa e dos demais índices setoriais. Nesse grupo, os destaques foram Itaú Unibanco (-2,66%), Bradesco ON (-3,39%) e Bradesco PN (-2,54%).

Para Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, a decisão do Fed e as declarações não mudam muito o cenário para o mercado brasileiro, que continuará a monitorar indicadores econômicos e questões comerciais entre Estados Unidos e China, em busca de pistas sobre os próximos passos do BC americano. "O corte de 0,25 ponto ficou dentro do esperado e as atenções agora se voltam à reunião do Copom. O mercado espera um corte de 0,50 ponto na taxa Selic. Se isso não acontecer, a quinta-feira será de ajustes", afirma.

Mas, mais que a decisão do Copom, ressalta Galdi, o mercado aguarda mesmo são medidas fiscais e de incentivo à economia. "O mercado espera que o governo faça a parte dele, com um conjunto de medidas que se espera depois da aprovação da reforma da Previdência. Se a reforma não avançar por algum motivo, acaba o ano", afirma.

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