Juros futuros têm reações distintas após decisão do Copom

Enquanto as taxas de curto prazo caem, os contratos longos e médios sobem, após o Comitê elevar a Selic em meio ponto, para 11,25% ao ano

Patricia Lara, da Agência Estado,

20 de janeiro de 2011 | 09h53

O primeiro Comitê de Política Monetária (Copom) não queimou a largada do ponto de vista das expectativas dos economistas do mercado financeiro. As autoridades monetárias agiram em linha com a previsão majoritária, apresentaram autonomia e devem deixar espaço para o mercado futuro de juros entregar prêmios nos vencimentos curtos. Mas analistas e agentes seguem com avaliações divergentes, após a decisão do Copom, que elevou a Selic (taxa básica de juros) ontem de 10,75% para 11,25%, sem viés, e sinalizou que calibrará a alta da taxa básica com um mix de medidas prudenciais, citadas textualmente no comunicado que acompanhou a decisão.

E a curva futura reage com queda leve de prêmios nos contratos curtos. Mas há sustentação nos vencimentos médios e longos, o que sugere que algumas correntes compram a visão de que o start não esvaziará a inserção de prêmio de risco para o caso de a inflação não retornar ao centro da meta. Há pouco, o contrato para janeiro de 2012, que tem o 12,43% como nível de ajuste na BM&FBovespa ontem, abriu a 12,39%. No vencimento abril de 2011, a taxa, que estava em 11,40% no ajuste, passava para 11,37%. No vencimento janeiro de 2014, a taxa subia de 12,62% para 12,68%.

"Com esse comunicado, bem diferente do último, o BC mostrou que é o início de um ciclo", disse Paulo Petrassi, da Leme Investimentos. Petrassi observou que a decisão revelou autonomia e foi unânime. "O que me incomodou foi a demora do encontro", ponderou. Para Petrassi, o comunicado poderia segurar a curva futura de juros, mas não deve fechar muito, porque a inflação deve continuar pressionada", comentou.

"A decisão ficou dentro do esperado, não teve nenhuma surpresa. Agora, o statement breve falando de novo nas medidas prudenciais esvazia o 0,75pp  na próxima decisão e trará ajuste no vencimento em abril", avaliou Paulo Rebuzzi, da Ativa Corretora. "O ajuste será para baixo porque foi muito enfático sobre as medidas", disse.  "Esperamos medidas adicionais, junto com política monetária. Começou o processo, mas será gradativo, homogêneo", disse Rebuzzi, que não alterou a expectativa de que virão mais três elevações de 0,50 ponto porcentual da Selic nos próximos encontros do Copom, com um ciclo total de ajuste de 2,00 pontos porcentuais neste ano.

Na visão do economista da LCA Consultores, Flávio Samara, a decisão do Copom ficou dentro dos preços do mercado e pode gerar alguma devolução marginal dos prêmios nos contratos futuros de prazo curto. Nos vencimentos longos dos contratos futuros, há muito prêmio acumulado, porém esse vértice tem se comportado de maneira mais autônoma.

O ex-diretor do Banco Central (BC) e atual economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, avaliou que a elevação da taxa Selic para 12,25% parece "muito tímida" para lidar com as atuais pressões da inflação corrente e das expectativas, mesmo considerando a ajuda potencial de medidas macroprudenciais. O economista prevê uma alta da Selic para 13% até meados de 2011, mantendo-a nesse patamar por um período considerável.

Após o primeiro encontro do Copom do governo da presidente Dilma Rousseff e com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, em férias, o mercado já inseriu alguns temas de debate para o horizonte futuro. Quais serão as medidas prudenciais que serão adotadas?  As medidas serão suficientes para redirecionar a inflação para o centro da meta? Qual é o horizonte para convergência da inflação para o centro da meta?

Mas o mercado esvazia o debate sobre se o BC de Dilma apresentaria credenciais para manter o combate à inflação como foco primordial. A decisão mantém uma continuidade de pensamento e condução sobre os benefícios do controle dos preços para a economia. E também resgata que as medidas prudenciais, com uma ênfase maior, entrarão como fórmulas alternativas para minimizar a aplicação da injeção na veia da elevação da Selic.

Crédito

Na manhã desta quinta-feira o Banco do Brasil reduziu de 25% para 22% projeção do crédito para pessoa física em 2011 e informou que a redução será compensada com alta de crédito a investimentos. A decisão sinaliza que os agentes financeiros públicos podem ajudar a frear o consumo pessoa física, contribuindo para atenuar o esforço do Banco Central de conter a inflação. Mas a canalização para investimentos pode diluir esse efeito.

China

Hoje, a China, principal parceiro comercial do Brasil, abriu dados oficiais que confirmaram os números vazados por uma emissora de TV em Hong Kong. A inflação ao consumidor (CPI) ficou em 4,6% em dezembro e o PIB chinês cresceu 10,3% em 2010. Mas a expansão de 9,8% da economia do gigante asiático no último trimestre - acima da taxa de 9,6% apurada no período imediatamente anterior, e também das expectativas, de alta de 9,2% - não afastou a possibilidade de novos apertos monetários, ainda que a pressão para movimentos mais agressivos tenha diminuído. Entre as commodities agrícolas, o café cede, mas cacau, algodão e açúcar tem altas marginais.

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