Manutenção da Selic não deve trazer oscilações aos juros

Cenário para o mercado de juros deve ganhar corpo com disputa eleitoral, avalia o estrategista-chefe da Icap Brasil, Juliano Ferreira

Olívia Bulla, da Agência Estado,

28 de maio de 2014 | 13h08

Amplamente esperada pelo mercado de juros futuros, a provável manutenção da taxa Selic em 11%, nesta quarta-feira, 28, não deve provocar grandes oscilações na curva a termo. A resposta clássica, lembram especialistas consultados pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, seria de inclinação, com as taxas mais longas dos contratos de DIs embutindo prêmios de maneira mais acelerada. Porém, diante do apetite do investidor estrangeiro pelo Brasil e do comportamento contido do câmbio doméstico e dos juros dos Treasuries, os negócios com derivativos de taxas de juros podem viver longos meses de marasmo, rondando os níveis atuais até as eleições de outubro.

"Realmente, o cenário para o mercado de juros está dado e só deve ganhar corpo diante da disputa eleitoral, com os principais candidatos divulgando seus programas de governo", avalia o estrategista-chefe da Icap Brasil, Juliano Ferreira. Para ele, é necessária uma definição do quadro político no Brasil para que haja algum ajuste mais intenso das posições dos investidores. "Qualquer retomada vai depender de quem vai assumir o Banco Central em 2015", acrescenta.

Por isso, a estratégia que deve ser traçada pelo Copom, de interromper o ciclo de aperto monetário no Brasil, e o prazo que pode durar essa pausa também estariam relacionados às incertezas sobre uma eventual mudança na equipe e na política econômica do novo governo. O estrategista-chefe da CGD Securities, Mauro Schneider, diz que "já houve uma devolução de prêmios grande, mas a principal questão são as eleições e o que vem depois". Por isso, a curva a termo de juros futuros deve seguir acomodada, sem movimentações mais intensas, completa.

Para esses especialistas, a contundente devolução de prêmios nos DIs, recentemente, vista por muitos players como "exagerada", reflete a conduta mais comportada dos negócios com dólar e dos bônus norte-americanos, após a turbulência nesses ativos no começo do ano. Diante da volta do debate em torno do ritmo de recuperação da economia dos Estados Unidos, que reflete dúvidas sobre a retirada dos estímulos e a normalização da política monetária norte-americana, e com os sinais de arrefecimento do choque de alimentos aliviando os índices domésticos de inflação era natural haver uma correção nas taxas futuras, puxando-as para baixo.

"Os juros dos DIs agora estão mais compatíveis com os outros ativos", acrescenta Ferreira, da Icap. É válido lembrar que nesse período de ajuste, as taxas de 10 anos do DI saíram do patamar de 13% para oscilar em torno de 12,2%. Ao mesmo tempo, os juros das NTN-Bs caíram da faixa de 6,5% para 6%, agora.

Porém, não há um consenso quanto à manutenção desse movimento de fechamento da curva, ou mesmo de acomodação das taxas futuras. No "day after do Copom", o gerente de renda fixa da Leme Investimentos, Paulo Petrassi, vislumbra uma forte correção na curva a termo de juros futuros, com os investidores zerando suas posições, e também nos rendimentos dos títulos prefixados - exceto NTN-B. "Acho que deve haver uma realização, com os investidores colocando os ganhos no bolso e trazendo mais prêmios ao mercado", avalia.

Próximo ano

De toda forma, os riscos envolvidos nesse ambiente mais tranquilo do que o esperado seguem os mesmos: aperto monetário nos EUA e volta da inflação no Brasil. Para o estrategista-chefe da CGD, a cautela e o gradualismo que o Federal Reserve tem adotado na condução da política de juros agora não devem causar o mesmo susto nem a mesma turbulência verificada no começo do ano. Já o comportamento dos preços domésticos, pondera, "sem dúvida" seguirá desconfortável ao longo de 2014, quiçá também em 2015.

Mesmo assim, Schneider avalia que, apesar de o cenário básico ser de novas altas da taxa Selic no ano que vem, essa convicção pode ser reduzida na medida em que tem crescido o sentimento de que a atividade doméstica está em um nível baixo e com acúmulo de estoques. "Sem forças, portanto, para impulsionar os investimentos nem o consumo", completa.

Por isso, não se pode descartar a possibilidade de haver, inclusive, um declínio residual da curva a termo de juros futuros nos meses à frente, com os investidores passando a computar a possibilidade de não haver retomada do ciclo de aperto monetário no País em 2015 ou de esse aperto ser menos intenso. Ainda assim, a corrente majoritária de analistas do mercado financeiro avalia que a decisão do BC nesta quarta-feira se configura mais como uma pausa do que propriamente o fim do processo.

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