Medial e Odontoprev enfrentam desafio de desconhecimento do setor

A presença da Diagnósticos da América (Dasa) na Bolsa de Valores não deve atenuar as dificuldades de analistas e investidores para se familiarizarem com o mundo de prestadores de serviços de saúde. A análise dos prospectos da Medial Saúde e da Odontoprev mostram as peculiaridades de um setor ainda pouco conhecido do mercado de capitais e submetido à regulamentação do governo - por isso sujeito à oscilação de regras típicas do Brasil. A Medial estréia hoje na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). A Odontoprev, por sua vez, obteve registro de companhia aberta da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em junho. Já a Dasa pertence a outro segmento de saúde, de medicina diagnóstica, e é inclusive cliente das duas. Risco Nos prospectos, são apontados como fatores de risco eventuais mudanças promovidas pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Estão sob a incumbência do órgão os reajustes das mensalidades dos planos, a lista de benefícios que devem ser cobertos ou não, os valores das provisões de risco obrigatórias, além da aprovação de mudanças societárias dos participantes do mercado. O governo pode comprometer os resultados das empresas também ao não reconhecer epidemias, catástrofes, guerras ou distúrbios internos, o que obrigaria os planos de saúde a arcar com as despesas, pois no Brasil, ao contrário dos EUA, as empresas não são obrigadas a prestar atendimento para estes eventos. Os riscos das empresas estão concentrados na incapacidade de obter a receita ou a rentabilidade esperadas. Os valores das mensalidades são fixados levando em conta os custos dos serviços, que por seu lado podem fugir do previsto por diversos motivos, como o aumento exagerado de insumos, inserção de novos serviços obrigatórios, elevação do índice de sinistralidade por fatores inesperados e pelo envelhecimento da população, aparecimentos de novos procedimentos ou tecnologias médicas mais caras. Além disso, a ANS determina valores obrigatórios de reservas para indenizações, que podem a qualquer momento ser alterados. As mensalidades são reajustadas anualmente com base na inflação e nos índices de sinistralidade. No caso dos planos médicos, é a ANS que determina o porcentual de correção. O recuo das receitas pode ocorrer também pela queda de associados e do número de empresas clientes, em razão da dificuldade de praticar preços competitivos, de renegociar contratos, pelo cancelamento do benefício prestado aos funcionários por estas empresas ou perda de espaço para concorrentes, fatores esperados em um mercado ainda em acomodação. Tanto Medial como Odontoprev reconhecem a possibilidade de surgimento ou fortalecimento de competidores com maior poder de fogo com relação aos valores praticados, principalmente considerando que se trata de um setor fragmentado e, no caso do ramo odontológico, que ainda está em expansão e atraindo empresas de assistência médica mais conhecidas. A Odontoprev considera como fator de risco até a possibilidade de o governo subsidiar assistência odontológica à população. A Medial, por seu lado, destaca a quantidade de adversários de naturezas diversas. Além de operadores de planos de saúdes, neste ramo existem seguradoras, cooperativas médicas e empresas de autogestão. Outra característica específica do setor é a utilização de agentes e corretores independentes incumbidos da venda dos planos a empresas de médio e pequeno porte, os quais não têm contrato de exclusividade e freqüentemente vendem planos concorrentes. "Não podemos assegurar que os agentes e corretores independentes continuarão a comercializar nossos produtos de maneira justa e consistente ou cobrarão comissões que seremos capazes de pagar", diz o prospecto da Odontoprev. Expansão Como ambas cogitam expansão, há riscos associados ao processo de crescimento. A rentabilidade pode ser afetada pela necessidade de investimentos em hospitais ou clínicas, na inserção de novos produtos, conquista de praças novas ou na instalação de novos serviços, como pretende a Medial. Há probabilidade também de falhas na integração eficiente de empresas adquiridas, e por isso não obter os benefícios esperados com o negócio. Uma das finalidades apontadas pelas companhias para a realização de oferta de ações foi a captação de recursos para aquisições de empresas ou participações acionárias. Os negócios podem ficar sujeitos à análise dos órgãos de defesa da concorrência e ainda da ANS, que tem a prerrogativa de analisar e aprovar as mudanças societárias. Em situações assim, as operadoras devem enviar à ANS o projeto de transferência de controle, além de demonstrações contábeis, mapa da composição de capital do grupo controlador e das pessoas jurídicas. A ANS pode aceitar, negar ou pedir esclarecimentos. Justiça As administradoras de planos de saúde estão sujeitas a questionamentos judiciais por pacientes contra erros médicos ou faltas graves. Apesar de a responsabilidade recair sobre o profissional, hospital ou clínica, os usuários podem alegar imperícia. "Nossa rede própria está sujeita a ações judiciais sob alegação de responsabilidade civil profissional", diz o prospecto da Medial. A empresa atualmente está envolvida em uma ação nestas circunstâncias, no valor de R$ 1 milhão. A operadora destacou também prejuízos com a eventual reversão de uma decisão judicial que a libera de pagamento de ISS para a prefeitura de São Paulo em algumas atividades. Em 1995, a Medial ingressou com ação contra o município, questionando a incidência do imposto, tendo obtido decisão favorável. Em 2003, a legislação questionada nesta ação foi revogada por nova legislação. Caso a Medial seja inquirida pelas autoridades administrativas, poderá ser obrigada a recolher retroativamente, gerando efeito expressivo sobre as receitas. Uma das dificuldades enfrentadas pela Dasa por ocasião do lançamento de ações, em outubro de 2004, foi justamente o desconhecimento do mercado com relação ao setor. Desde aquela época, a empresa tem feito um intenso trabalho de aproximação com investidores para ajudar a familiarizá-los com o universo. Ao mesmo tempo, tentou melhorar a comunicação, o que pode ser medido pela evolução do site de RI e dos relatórios de informações trimestrais e anuais, assim como pela maior cobertura por parte das instituições financeiras. Com o recente aumento do nível de pulverização, por meio de uma oferta pública de ações, o free float (quantidade de ações negociadas em bolsa de valores) da companhia subiu para 62%, com reflexos positivos sobre a liquidez e volume negociado em Bolsa.

Agencia Estado,

22 de setembro de 2006 | 07h00

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