Momento exige posição defensiva na bolsa

Para o estrategista Marcelo Audi, do Santander, bolsa deve melhorar em 2009. Até lá, é preciso ter cautela

Luciana Xavier e Sueli Campo,

15 de agosto de 2008 | 15h12

A palavra de ordem do momento para quem investe no mercado de acionário é paciência, aconselhou o estrategista. "Por enquanto, é melhor assumir uma posição defensiva", disse o estrategista de ações do Brasil do banco Santander, Marcelo Audi, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. Ouça a entrevista  Para Audi, a bolsa pode chegar a 50 mil pontos, mas ele não vê espaço para perdas muito abaixo desse patamar. Segundo ele, a zona de conforto da bolsa atualmente está entre 50 mil e 55 mil pontos. Embora a perspectiva para a bolsa de valores no curto prazo não seja das mais animadoras, a percepção Audi segue relativamente positiva. "Minha convicção de que a bolsa irá continuar a cair é menor hoje do que em novembro do ano passado. Tenho uma avaliação mais atrativa e acredito que as ações brasileiras possam reagir no ano que vem", afirmou. Audi disse que, com a queda dos preços das commodities, os estrangeiros estão saindo do Ibovespa e de outros mercados de países exportadores de commodities e migrando para mercados de ações de países importadores de commodities ou com pouca exposição a elas. Já alguns investidores locais estão migrando de fundos multimercados para renda fixa. "Mas ainda não vemos um movimento grande de resgate de fundos de ações, o que é boa notícia. É sinal de amadurecimento do comportamento do investidor", avaliou. CíclicoDe acordo com Audi, se o momento exige cautela para quem investe no mercado de ações, o melhor é reduzir a exposição a setores cíclicos - ligados a commodities, crédito (varejo), setor imobiliário e bancos - e aumentar a participação em setores chamados de defensivos ao crescimento econômico - elétrico, telecom, saúde, transporte, mídia e alimentos. "A melhor estratégia agora é a defensiva", disse. O estrategista ressaltou que entre os defensivos, merecem destaque os setores elétrico e de saúde, cuja performance em junho e julho ficou acima do desempenho do Ibovespa. Segundo Audi, o mercado acionário brasileiro é mais cíclico que outros mercados, o que explica a vulnerabilidade da bolsa diante da queda das commodities. "É importante termos entendimento de que a composição do mercado de ações brasileiro é cíclica. Então, num momento de desaquecimento temos que tomar mais cuidado", disse. Para termos de comparação, Audi explicou que os setores cíclicos globais (commodities) respondem por 49% do Ibovespa, os cíclicos domésticos (bancos, imóveis e varejo) a 23% e os defensivos domésticos representam 28% na bolsa paulista. Já no índice S&P 500, dos Estados Unidos, a relação é de peso de 17% dos cíclicos globais, 36% para os cíclicos domésticos e 48% para defensivos. Audi disse ainda que dos 15 indicadores por ele observados para traçar cenário para a bolsa e o melhor momento para compra, apenas três estão dando esses sinais de compra de ações. Um deles é a inclinação da curva de juros, que segundo ele, já atingiu o pico. "O swap de 5 anos mostra sinal favorável de compra". Outro fator importante, de acordo com o estrategista, é a condição sobrevendida do Ibovespa. "Ela está sobrevendida há 1 mês e pode ficar por 6 meses, mas mostra probabilidade razoável de desempenho favorável". O terceiro indicador é o índice PL (Preço por Lucro) abaixo de 11. O índice indica o tempo, medido em anos, para retorno do investimento sob a forma de lucros além da valorização da ação. Segundo Audi, o índice PL está hoje em 10,5 e em novembro do ano passado estava em 13,5. Audi acredita que os outros indicadores, relacionados a crescimento, inflação, avaliação de risco e expectativas de mercado só devem dar sinais de compra mais para o ano que vem. Inflação e jurosMuitos bancos centrais no mundo estão sendo complacentes com a inflação e estão atrasados na política monetária, afirmou Audi. "O Brasil é exceção. Aqui há uma política monetária responsável e com maior probabilidade de controlar a inflação", disse ele. Audi defende que o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) continue com o aperto de 0,75 ponto porcentual da Selic na reunião de setembro. A taxa está atualmente em 13% ao ano. A projeção de Audi é de que a Selic poderá encerrar 2008 em 14,75% e recuar para 12,75% em meados de 2009. "Acredito na eficácia da política monetária", disse. Na análise do estrategista, a inflação já pode ter atingido seu pico de alta este ano, mas é cedo para dizer que a queda da inflação seja uma tendência permanente. "A principal causa da inflação é a demanda doméstica, que continua forte. A demanda só está começando a desaquecer, mas a partir do 1º trimestre de 2009 teremos uma desaceleração mais ampla da economia", disse. Para Audi, a economia daqui para frente deve piorar antes de melhorar. "Estamos vivendo um momento de desaquecimento cíclico da economia global e do Brasil", avaliou. "Essa mudança é desfavorável ao mercado de ações", observou. Segundo Audi, a economia mundial deve desacelerar de níveis de 4,5% e 5% para ao redor de 3,5% e 4%. "O Brasil atingiu o pico do crescimento econômico. O cenário a partir de agora é de desaceleração (no Brasil) até o piso de 3,5% no último trimestre de 2009. Mas não há nada de grave nisso. Faz parte do processo de crescimento sustentável", comentou. Audi disse não esperar por uma correção "grave" dos preços das commodities. "Os preços devem se estabilizar abaixo dos picos anteriores, mas a situação apertada de oferta e demanda por commodities deve continuar", disse. Audi ressaltou que o principal ponto a ser observado no cenário internacional é o crescimento da China daqui para frente. "Há um desconforto em relação à China sobre se ela vai desaquecer em ritmo suave ou se esse ritmo vai se acelerar", afirmou.

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